Diagnóstico aponta baixo manejo do solo em áreas de grãos no RS

Quase 80% das áreas de produção de grãos avaliadas em propriedades da agricultura familiar do Rio Grande do Sul estão classificadas no nível mais baixo de manejo do solo, com base no Zoneamento Agrícola de Risco Climático – Níveis de Manejo (Zarc-NM). Desenvolvida pela Embrapa, a metodologia indica que essas áreas apresentam maior vulnerabilidade tanto às estiagens quanto às chuvas intensas e ajuda a explicar um dos principais desafios da agricultura gaúcha: reduzir a forte variabilidade da produtividade entre as safras.

Os dados integram os levantamentos realizados pelo programa estadual Terra Forte, coordenado pela Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) em parceria com a Emater/RS-Ascar. Até o momento, cerca de 8,9 mil propriedades rurais tiveram diagnósticos concluídos em diferentes atividades produtivas. No recorte específico da produção de grãos, foram avaliadas aproximadamente 2 mil propriedades, reunindo cerca de 3 mil áreas produtivas e 42 mil hectares – até o final do ano, o objetivo do Terra Forte é alcançar 80 mil hectares analisados.

Segundo o engenheiro agrônomo Jonas Wesz, diretor do Departamento de Agricultura e Pecuária Familiar da SDR, os levantamentos mostram elevada ocorrência de limitações químicas e físicas nos solos analisados. Entre elas estão baixos teores de matéria orgânica, deficiência de fósforo e potássio, acidez e compactação em subsuperfície.

Na prática, são condições que reduzem a infiltração e o armazenamento de água, comprometendo o desenvolvimento radicular e aumentando os impactos tanto das estiagens quanto das chuvas intensas”, afirma.

Das cerca de 3 mil áreas produtivas avaliadas, 79,7% foram classificadas no Nível de Manejo 1 (NM1). O indicador considera a adoção de práticas agronômicas e as condições físicas, químicas e biológicas para avaliar a capacidade do sistema produtivo de enfrentar adversidades climáticas.

Enquanto o Zarc tradicional orienta o produtor sobre onde, quando e o que plantar, o Zarc-NM acrescenta um novo elemento à análise: como o solo é manejado. Na prática, a qualidade desse manejo passa a integrar a própria avaliação do risco climático.

Para Wesz, embora o diagnóstico seja preocupante, ele também evidencia o potencial de recuperação existente nas propriedades avaliadas.

O cenário é alarmante do ponto de vista da condição em que se encontram os solos dessas áreas produtivas, mas também evidencia o tamanho da oportunidade que temos, enquanto Estado, unindo pesquisa, extensão rural e a força da agricultura gaúcha, para efetivamente aplicar as tecnologias já disponíveis na recuperação e conservação dos solos do Rio Grande do Sul”, afirma.

A importância do diagnóstico vai além da conservação. Em um Estado que alterna safras de elevado rendimento com perdas severas provocadas pelos extremos climáticos, construir sistemas produtivos mais resilientes tornou-se uma estratégia para aumentar a estabilidade produtiva das lavouras. O objetivo não é eliminar os efeitos da seca ou do excesso de chuva, mas reduzir a variabilidade da produção entre uma safra e outra.

Quanto maior essa estabilidade, maior tende a ser a previsibilidade econômica da atividade. O solo deixa de ser visto apenas como suporte para o cultivo e passa a ser entendido como um dos principais aliados da lavoura na adaptação aos extremos climáticos.

Na avaliação do presidente da Emater/RS-Ascar, Claudinei Baldissera, esse é hoje um dos maiores desafios da agricultura gaúcha.

Baixos níveis de manejo de solo constituem um achado importante que descortina de forma incontroversa, com fundamento na ciência e pesquisa agropecuária, a vulnerabilidade dos solos em lavouras de cultivo de grãos”, afirma.

Segundo Baldissera, a recuperação da funcionalidade representa hoje a “principal estratégia para estabilizar a produção de grãos de verão e inverno” no Estado. Isso passa por um conjunto permanente de boas práticas agronômicas, como descompactação quando necessária, terraceamento, plantio em nível, rotação de culturas, uso de plantas de cobertura, manutenção da palhada e recuperação das condições químicas e biológicas.

A dimensão econômica desse processo é reforçada pelo superintendente do Senar-RS, Eduardo Condorelli, entidade integrante do Sistema Farsul. Segundo ele, a recuperação das áreas produtivas deixou de ser apenas uma questão agronômica, porque as perdas provocadas pelo clima atingem a renda dos produtores, reduzem sua capacidade de investimento e repercutem sobre a economia do Estado.

Condorelli observa que o objetivo não deve ser apenas atingir os maiores rendimentos possíveis nos anos favoráveis, mas assegurar maior estabilidade na produção, em patamares que permitam ao produtor atravessar os períodos adversos e sustentar a atividade.

Fonte: Jornal do Comércio

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