Agricultura familiar do RS investe em manejo e gestão na produção leiteira

Na agricultura familiar, a adoção de novas tecnologias na produção leiteira ainda ocorre de forma gradual e, segundo o extensionista da Emater/RS-Ascar Jaime Ries, passa menos por equipamentos sofisticados e mais pela melhoria de processos básicos da propriedade. Com margens apertadas e preços instáveis, os produtores têm demonstrado cautela para realizar grandes investimentos.

Nesse cenário, alimentação, genética, manejo e gestão aparecem como ferramentas fundamentais para elevar a produtividade. “Não adianta sonhar com robô. Tem que ter o pé no chão. Leite é uma coisa muito instável”, resume Ries.

Para ele, antes de investir em sistemas de alta tecnologia, o produtor familiar precisa aprimorar aspectos básicos da atividade e fazer o que já está disponível de maneira correta e eficiente. Uma das principais frentes de trabalho da Emater é a melhoria da base forrageira.

Em parceria com a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) e a Embrapa Trigo de Passo Fundo, a instituição vem difundindo novas cultivares de cereais de inverno, especialmente nos últimos três anos.

Os resultados do Programa de Sementes e Mudas Forrageiras apontam aumento de 25% na produtividade e redução de 33% nos custos de produção e o mesmo permitiu qualificar tanto as tecnologias disponibilizadas quanto a orientação aos produtores.

O programa não se limita à entrega de sementes, mas trabalha com planejamento forrageiro, escolha adequada de cultivares, diversificação de espécies e assistência técnica direcionada. “A combinação dessas práticas aumenta a produção de alimento dentro da propriedade, tanto em quantidade como em qualidade, reduz os períodos de escassez de forragem e melhora a eficiência dos sistemas produtivos, refletindo diretamente no desempenho dos rebanhos e na redução dos custos”, afirma o engenheiro agrônomo e diretor do departamento de Agricultura e Pecuária Familiar da SDR, Jonas Wesz.

Mudanças climáticas exigem adaptação

Diante das mudanças climáticas, a principal estratégia está na construção de sistemas forrageiros capazes de produzir alimento durante todo o ano. O programa trabalha justamente para reduzir os vazios forrageiros por meio da combinação de espécies anuais e perenes de inverno e verão.

Associado a isso, estimula a produção de alimentos conservados, como silagem, feno e pré-secado, que funcionam como uma reserva estratégica para períodos em que eventos climáticos extremos reduzem a oferta de pastagens. A combinação de planejamento forrageiro e formação de reservas alimentares é o que garante maior estabilidade ao sistema produtivo.

Outra tecnologia disseminada entre os produtores é a inseminação artificial, associada ao melhoramento genético do rebanho. Já o leite A2A2 é apontado como uma possibilidade de diferenciação, mas ainda restrita a um mercado de nicho. A dificuldade está na necessidade de separar o produto desde a propriedade até a indústria, incluindo coleta, transporte e processamento.

Por isso, Ries alerta que o produtor não deve investir na seleção de um rebanho A2A2 sem antes ter segurança de mercado. “Não é uma coisa que se deva incentivar o produtor a fazer sem ter uma segurança de quem vai comprar, se compromete em comprar e pagar”, afirma.

"Não adianta sonhar com robô. Tem que ter o pé no chão. Leite é uma coisa muito instável", resume Ries | João Vicente Ribas/Emater Ascar/Divulgação/JC

“Não adianta sonhar com robô. Tem que ter o pé no chão. Leite é uma coisa muito instável”, resume Ries João Vicente Ribas/Emater Ascar/Divulgação/JC

Ao mesmo tempo, cresce no Estado a adoção de sistemas de semiconfinamento e confinamento, especialmente em regiões onde as propriedades têm pouca disponibilidade de terra ou limitações de topografia. A expansão também está relacionada à busca por maior escala e à chegada dos filhos à gestão das propriedades.

Os sistemas de confinamento, porém, aumentam a necessidade de profissionalização, pois contam com animais de maior produtividade e por isso se tornam fundamentais cuidados mais precisos com nutrição, ventilação, sanidade, cascos, mastite e bem-estar. Além disso, os investimentos em instalações, máquinas, energia e equipamentos elevam significativamente os custos da atividade.

Para Ries, a tecnologia e a inovação estão diretamente relacionadas à sucessão familiar. Os produtores mais jovens são, em geral, os que demonstram maior disposição para adotar novas ferramentas e investir na modernização das propriedades. O problema é que justamente essa parcela da população rural tem deixado a atividade.

“A chave para inovação na pequena leiteira é ter sucessão familiar”, destaca. Segundo ele, quando os filhos deixam a propriedade, produtores mais velhos tendem a evitar investimentos que levariam anos para apresentar retorno. Em muitos casos, o arrendamento da terra para outras atividades, como a produção de soja, acaba sendo uma alternativa.

Na avaliação do extensionista, o desafio da cadeia leiteira não está apenas em ampliar o acesso a tecnologias, mas em criar condições para que os produtores permaneçam na atividade e consigam transformar inovação em rentabilidade. Para a agricultura familiar, a modernização começa pela adoção de soluções compatíveis com a realidade econômica de cada propriedade e pela melhoria contínua dos processos de produção.

Fonte: Jornal do Comércio

Mostrar mais
Botão Voltar ao topo