Chuvas testam lavouras de trigo em safra com área 30% menor

A sequência de chuvas que atinge o Rio Grande do Sul começa a colocar à prova as lavouras de trigo recém-estabelecidas. Embora o excesso de umidade já provoque redução no ritmo de desenvolvimento das plantas e aumente as condições favoráveis ao surgimento de doenças, a Emater/RS-Ascar avalia que ainda é cedo para projetar perdas de produtividade na safra, cujo plantio está praticamente concluído no Estado.

Há uma semana, o levantamento da entidade indicava que 93% da área estimada de 814,2 mil hectares já havia sido semeada. A expectativa é de que apenas pequenas áreas remanescentes, principalmente em regiões de maior altitude e de plantio mais tardio, ainda estejam sendo implantadas.

Segundo o analista de trigo da Emater/RS-Ascar, Célio Colle, os efeitos mais imediatos decorrem da combinação entre excesso de umidade e baixa luminosidade provocada pelos dias consecutivos de céu encoberto. “A planta está parada para se desenvolver“, resume.

Conforme o especialista, a menor incidência de luz reduz a fotossíntese e, consequentemente, o crescimento das lavouras. Ao mesmo tempo, as folhas inferiores começam a apresentar amarelecimento em razão da elevada umidade, enquanto o ambiente se torna mais favorável à ocorrência de doenças.

Apesar disso, Colle afirma que o cenário ainda não altera a estimativa inicial de produtividade, projetada em aproximadamente 2,7 mil quilos por hectare. Segundo ele, a maior parte das lavouras permanece em estágio vegetativo e ainda dispõe de tempo para recuperar o desenvolvimento, caso as condições climáticas evoluam de forma favorável nas próximas semanas.

Se o rendimento projetado for mantido, a produção gaúcha do cereal deve chegar a 2,2 milhões de toneladas, quase 40% menor que a anterior, de 3,6 milhões.

Mais do que os efeitos diretos da chuva sobre as plantas, a principal preocupação dos técnicos está na capacidade das lavouras de suportar eventos de precipitação cada vez mais intensos e frequentes.

Segundo Colle, propriedades que investiram em práticas como terraceamento, descompactação do solo, plantio direto e manutenção de cobertura vegetal têm apresentado maior capacidade de absorver grandes volumes de água, reduzindo erosão, escoamento superficial e perda de nutrientes.

Por outro lado, áreas com solo compactado ou sem estruturas de conservação ficam mais expostas ao carregamento de terra e à formação de erosões, fatores que podem comprometer o potencial produtivo da cultura.

O que a gente consegue verificar é que esses eventos estão acontecendo mais seguido“, observa.

Para o analista, a sucessão de extremos climáticos reforça a necessidade de um manejo voltado para a resiliência das propriedades. Entre as práticas recomendadas estão a rotação de culturas, o uso de plantas de cobertura, a formação de palhada e a melhoria da estrutura física do solo, permitindo maior infiltração e armazenamento de água tanto em períodos de chuva intensa quanto durante estiagens.

Rotação de culturas, uso de plantas de cobertura, formação de palhada e melhoria da estrutura física do solo. Essas ações fazem parte das tecnologias difundidas pelo Plano ABC+ e também integram o programa Operação Terra Forte, do governo do Estado, que busca ampliar a capacidade das propriedades de enfrentar os impactos das mudanças climáticas. Segundo Colle, a adesão dos produtores às práticas tem sido positiva.

O episódio de chuvas ocorre em uma safra que já começou sob um cenário de cautela. Em junho, o primeiro levantamento da Emater estimou redução de 30,1% na área cultivada com trigo no Rio Grande do Sul. A decisão dos produtores refletiu a combinação entre preços pouco atrativos, restrições de crédito, elevado endividamento e previsões climáticas menos favoráveis para o segundo semestre.

Fonte: Jornal do Comércio

Mostrar mais
Botão Voltar ao topo