Produtores de noz-pecã buscam retomar exportações em cenário de incerteza

A cadeia brasileira da noz-pecã recuperou a produção em 2026 após dois anos difíceis, mas encontra um cenário internacional que tem dificultado a concretização de novos negócios. Embora clientes internacionais continuem procurando fornecedores brasileiros e solicitando cotações, a instabilidade geopolítica, as incertezas tarifárias e mudanças regulatórias em mercados importantes têm levado muitos importadores a adiar decisões de compra.

Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Pecanicultura (IBPecan), Claiton Wallauer, o problema não está na falta de demanda pelo produto, mas na dificuldade de transformar consultas comerciais em contratos.

As pessoas têm interesse, têm clientes lá fora que fazem cotação. Mas muitas vezes o cliente não bate o martelo, não fecha“, afirma.

O momento é especialmente sensível porque o setor volta a contar com maior disponibilidade de produto. A safra já colhida deve fechar entre 6,5 mil e 7 mil toneladas em 2026, embora os números finais ainda estejam sendo consolidados. O volume representa uma recuperação após os impactos das enchentes de 2024, que comprometeram 80% da produção gaúcha, e de uma safra de 2025, ainda marcada pela reconstrução da atividade, alcançando 5,2 mil toneladas.

Hoje, cerca de 80% da produção nacional de noz-pecã está concentrada no Rio Grande do Sul. O consumo interno é estimado entre 4 mil e 5 mil toneladas anuais, deixando um excedente potencial para exportação próximo de 2 mil toneladas.

Entre os fatores que mais pesam sobre as vendas externas está o aumento dos custos logísticos provocado pelos conflitos no Oriente Médio.

Segundo Wallauer, os fretes marítimos subiram pelo menos 50% nos últimos meses. A instabilidade na região alterou rotas comerciais e encareceu o transporte para diversos destinos, especialmente para os países árabes, mercado que historicamente figura entre os compradores da noz-pecã brasileira.

O impacto é ampliado pelo perfil das exportações brasileiras. Como os embarques são relativamente pequenos e pulverizados entre diferentes mercados, o setor não consegue obter ganhos de escala na contratação do transporte internacional.

Se alguns mercados enfrentam dificuldades, os Estados Unidos aparecem simultaneamente como oportunidade e fonte de incerteza. O país é o maior consumidor mundial de noz-pecã descascada e registrou produção abaixo do esperado no último ciclo, assim como o México. O cenário abriu espaço para consultas comerciais junto a fornecedores brasileiros.

Apesar disso, ainda não há clareza sobre os efeitos das tarifas anunciadas pelo governo norte-americano para produtos sul-americanos, que entraram em vigor nesta quarta-feira (22).

Wallauer explica que a situação é agravada pela forma como a noz-pecã brasileira é classificada no comércio exterior. “Como o produto não possui uma categoria específica utilizada nas exportações para os Estados Unidos, ele acaba enquadrado em uma classificação genérica, o que mantém dúvidas sobre a incidência das novas tarifas. Não está claro ainda“, resume.

Outro mercado relevante para o setor, a União Europeia passou a exigir parâmetros mais rigorosos para a importação de nozes. Segundo Wallauer, a mudança reduziu os limites permitidos para a presença de níquel nos produtos, dificultando o atendimento das exigências por exportadores de diferentes países.

O dirigente observa que as regras vêm sendo debatidas pelos países do bloco, com expectativa de revisão dos critérios.

Já a Rússia, considerada um mercado com potencial para a noz-pecã brasileira, continua impactada pelas restrições comerciais associadas à guerra na Ucrânia”, acrescenta.

Com isso, três dos mercados considerados estratégicos pelo setor — Oriente Médio, União Europeia e Rússia — atravessam um período de maior complexidade para os exportadores.

Diante desse cenário, o IBPecan e empresas do setor intensificaram as ações de prospecção comercial em diferentes regiões do mundo. O trabalho inclui contato com importadores, envio de amostras e aproximação com traders internacionais.

Wallauer avalia que o comércio global atravessa um momento de espera.

Parece que o pessoal está tentando ver o que vai acontecer.”

Mesmo diante das dificuldades, o setor mantém a expectativa de ampliar a presença internacional nos próximos anos. Além do Brasil, Argentina e Peru figuram entre os principais produtores de noz-pecã da América do Sul, enquanto Paraguai e Uruguai ampliam gradualmente suas áreas cultivadas.

Fonte: Jornal do Comércio

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