Soja reage no RS após safra de estiagem, mas clima trava desempenho
A safra 2025/2026 de soja representou uma recuperação para o Rio Grande do Sul em relação ao ciclo anterior, marcado pela estiagem, mas voltou a evidenciar a dificuldade do Estado em converter o potencial produtivo das lavouras em uma safra cheia. A produção foi estimada pela Emater/RS-Ascar em 18,1 milhões de toneladas, volume 32,9% superior ao colhido no ciclo anterior. Ainda assim, a produtividade média estadual ficou em 2.707 quilos por hectare, 14,8% abaixo do projetado antes do plantio, reflexo da distribuição irregular das chuvas ao longo do ciclo.
Para o presidente da Emater/RS, Claudinei Baldissera, o comportamento climático foi determinante para reduzir o potencial produtivo da cultura, embora o Estado tenha encerrado uma das maiores safras de sua série histórica.
“Ela se posicionou como uma safra dentro de um volume comparado a outras safras. Ficou entre as quatro ou cinco maiores em volume da nossa série histórica.”
Segundo Baldissera, praticamente todas as regiões produtoras foram afetadas pela irregularidade das precipitações, ainda que em intensidades diferentes. Enquanto algumas áreas registraram produtividades próximas ou até superiores às expectativas iniciais, outras sofreram perdas significativas, especialmente na Fronteira Oeste e em parte das regiões Central e Sul.
Essa variabilidade também foi observada pelos produtores. O presidente da Aprosoja-RS, Ireneu Orth, afirma que a distribuição das chuvas produziu cenários bastante distintos.
“Dentro da mesma propriedade, dentro do mesmo município, existem regiões e pessoas que colheram extremamente bem. E ao lado ou próximo, outros agricultores tiveram colheitas muito ruins. Isso porque a chuva foi muito manchada.”
Na avaliação de Orth, a recuperação em relação ao ciclo anterior não elimina os efeitos acumulados das sucessivas frustrações provocadas pelo clima nos últimos anos, que ainda limitam a capacidade de investimento e a competitividade da sojicultura gaúcha.
Mais do que o balanço da safra, Baldissera avalia que o principal aprendizado do ciclo 2025/2026 está na necessidade de aumentar a resiliência das lavouras diante da maior frequência de eventos climáticos extremos. Segundo ele, práticas de manejo capazes de melhorar a estrutura física do solo deverão ganhar protagonismo nas próximas temporadas.
“Percebo e acredito muito nesse momento que a agricultura, produção de grãos do Rio Grande do Sul, passa do debate para a estruturação dos solos.”
O presidente da Emater defende que práticas como a descompactação, o aumento da infiltração de água e o aprofundamento do sistema radicular das plantas deixem de ser tratadas como recomendações técnicas e passem a integrar a estratégia econômica das propriedades, reduzindo perdas tanto em períodos de estiagem quanto de excesso de chuvas.
Baldissera também associa esse processo ao fortalecimento dos instrumentos de gestão de risco da atividade. Para ele, ampliar o acesso ao crédito rural e ao seguro agrícola é condição para que o produtor consiga manter investimentos diante da maior volatilidade climática.
“A lavoura tem que ser segurada.”
Se o clima limitou parte do potencial produtivo, o cenário de comercialização tornou-se mais favorável nas últimas semanas. Segundo o coordenador de Inteligência de Mercado na Hedgepoint, Luiz Fernando Roque, os preços pagos ao produtor gaúcho giram atualmente em torno de R$ 134 por saca, acima da faixa de R$ 120 observada durante boa parte do primeiro semestre.
“No segundo semestre a gente tem essa tendência de uma melhora no preço, de uma melhora nos prêmios, por conta da forte demanda.”
Roque destaca que a China continua liderando as compras de soja brasileira e que o País deverá encerrar o ano exportando entre 114 milhões e 115 milhões de toneladas, movimento que reduz a disponibilidade do grão no mercado interno e contribui para sustentar as cotações, mesmo em um cenário de dólar menos favorável.
Segundo o analista, as atenções do mercado agora se voltam para o desenvolvimento da safra norte-americana e para o início do plantio da nova temporada brasileira, previsto para setembro. O comportamento do clima nos Estados Unidos e a evolução do El Niño serão fatores determinantes para a formação dos preços nos próximos meses.
Fonte: Jornal do Comércio

