Cooperativismo fortalece citricultura no Norte gaúcho
As pequenas propriedades de agricultura familiar são a marca da produção estadual de laranjas que se concentra majoritariamente na Metade Norte do Rio Grande do Sul. Em Liberato Salzano, a citricultura comercial começou a ser implantada no final da década de 1980, por meio de parcerias da prefeitura com uma indústria de Bento Gonçalves. “Nesse meio tempo, tivemos altos e baixos, programas estaduais que incentivaram o plantio, mas a grande questão foi a busca pela diversificação da agricultura familiar, geração de renda e melhor aproveitamento da mão de obra. Entraram outras culturas também, como fumo e uva, mas a citricultura foi uma das que mais se desenvolveu na região”, conta o citricultor e presidente da Cooperativa Mista de Agricultores Familiares de Liberato Salzano (Coopsalzano), Leandro Rubini.
A partir de 2011, a instalação de uma indústria de suco concentrado no município deu um impulso ainda maior à atividade. Essas são algumas das explicações para a tradição do município do Rio da Várzea, que há anos se enquadra entre os maiores produtores de laranja no Estado.
“Na época, chegou ao nosso conhecimento a existência do mercado justo, mas para participar só poderia ser através de uma associação ou cooperativa. Então um grupo de produtores, na época 132 agricultores de Liberato Salzano, se organizou e, em 2012, já fizeram as primeiras vendas. Com o tempo surgiu a necessidade de expandir para outras cidades, o que a associação não permitia, então resolvemos montar a cooperativa“, explica.
Foi criada, assim, a Coopsalzano, em 2019. Devido à pandemia de Covid-19 e outras dificuldades, contudo, as atividades só iniciaram em 2021. Em cinco anos de efetiva operação, a cooperativa já reúne 126 cooperados, de 11 municípios, principalmente do Rio da Várzea, mas também do Alto Uruguai.
A cooperativa tem o foco exclusivo na citricultura, principalmente no ramo da laranja, com o objetivo do comércio da produção dos cooperados. Hoje, eles somam cerca de 400 hectares de laranja, majoritariamente comercializada com a cooperativa, que então destina a produção para as indústrias de dentro e fora do Estado. Além disso, a cooperativa oferece insumos específicos para a citricultura e assistência técnica.
A média de área cultivada pelos associados é de cerca de três hectares por produtor. A maior parte faz o manejo e a colheita com mão de obra própria. Ou seja, praticamente a totalidade da cooperativa é formada por produtores da agricultura familiar, como as famílias Fillippini, que estão há mais de 20 anos na citricultura, e também a exemplo do próprio presidente da Coopsalzano, que produz laranjas em 4,5 hectares numa pequena propriedade em Liberato Salzano. Em conjunto, trabalha com a suinocultura integrada, na qual aproveita os dejetos provenientes da citricultura.
O interesse pelos citros vem de família. O pai de Rubini foi um dos pioneiros do ramo no município. Depois de alguns anos vivendo no Mato Grosso, Leandro retornou em 2006 e assumiu a propriedade desde então. “Tenho cerca de 300 plantas ainda originais de 1987, então a produção delas já não é das melhores. Alguns pomares ainda não estão em plena produção também. Mas, no geral, consigo tirar em torno de 80 toneladas por safra“, relata.
Para este ano, a Coopsalzano espera uma produção em torno de 8 mil toneladas de laranja. “É uma expectativa. Nem tudo isso passa pela cooperativa. No ano passado, a estimativa era próxima disso e comercializamos 4 milhões de quilos pela cooperativa. Neste ano, vamos ver se conseguimos melhorar esse número”, ressalta Rubini.
O início da safra de laranja, segundo ele, está mais atípico do que as demais, com as indústrias começando agora a compra da fruta. “Em outros anos, principalmente até 2024, iniciavam em abril, início de maio. Mas, neste ano, o mercado está bem retraído, os preços estão muito abaixo do que esperávamos. Os custos de produção aumentaram bastante por causa da guerra, insumos, combustível e tudo mais”, aponta Rubini, ao destacar ainda que os preços praticados para o produtor não estão cobrindo os custos.
Outra preocupação é com o envelhecimento dos produtores e a dificuldade de sucessão familiar. Então, muitos precisam contar com mutirões de vizinhos ou até contratar diaristas. “O custo disso aumentou muito nos últimos anos porque a disponibilidade de mão de obra diminuiu bastante”, pontua.
Agroecologia e empreendedorismo feminino em Severiano de Almeida
Em Severiano de Almeida, na região Norte, Gessica Steffens e o marido Giomar Nhevinski trabalhavam nos finais de semana no pomar de laranjas da família para conseguirem se manter na universidade: além de produtores rurais, hoje Gessica é arquiteta e urbanista e Giomar, engenheiro agrônomo.
Com a pandemia e o nascimento do filho Camilo, o casal decidiu adquirir a outra porção do sítio pelo Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNCF): uma área de oito hectares, na qual dois hectares são reservados à produção de laranjas.
Trata-se de um pomar antigo, numa área de plantio de laranjas Valência de aproximadamente 40 anos de idade, além de outra área com laranjas Salustianas mais recentes, de 16 anos. Atualmente, Gessica e Giomar contam com produção orgânica e certificada pela Rede Ecovida de Agroecologia e a mão de obra é predominantemente familiar.
O grande esforço da família, segundo Gessica, é destinado à venda das frutas como orgânicas. Para isso, participam de associações, cooperativas e entidades de assessoria técnica. O contexto não é simples, no entanto. A produtora relata que, como commodity, a laranja oscila muito e metade da produção ainda é vendida ao mercado convencional, principalmente as laranjas padrão suco.

Giomar e Gessica, com o filho Camilo, contam com produção orgânica Gessica Steffens/Arquivo Pessoal/JC
“Estamos trabalhando ano a ano para melhorar a sanidade e o padrão das nossas frutas e sabemos que nossa região tem um enorme potencial e várias unidades produtivas estão migrando gradativamente para esta atividade. Resta muito trabalho para pensar todo o circuito em volta disso, fortalecer os espaços que trabalham com agroecologia, fomentar as vendas institucionais, o empreendedorismo urbano acerca das inúmeras demandas de trabalho que existem nas unidades produtivas”, ressalta Gessica, que sonha também com uma política de preço mínimo, porque hoje o preço da laranja orgânica ou convencional chega a render menos do que 40 centavos ao quilo.
Para além da dificuldade de preço, Gessica destaca o trabalho invisível. Chegou a contabilizar os passos em um dia considerado “normal” de afazeres domésticos: foram mais de 10 mil passos, 7,3 quilômetros percorridos das 7h às 19h. “Nós agricultoras moramos no nosso trabalho, desde que acordamos até dormir, com cônjuge, família e todo o trabalho reprodutivo historicamente invisibilizado“, reitera.
Ainda assim, Gessica pretende mesclar no sítio atividades produtivas e de assessoria técnica, aliando temas convergentes da arquitetura e da agronomia para auxiliar pessoas interessadas em fazer transição rural. “A intenção é implementar o restante da área com frutas até 2032. Ainda estamos avaliando as espécies que plantaremos, mas certamente não serão apenas laranjas, visto que um dos princípios para manter uma unidade produtiva é diversificar os cultivos e a renda”, finaliza.
Fonte: Jornal do Comércio

