Agricultura de precisão avança no mundo com foco em dados e gestão

A agricultura de precisão vive uma transição em que o diferencial deixa de ser apenas a adoção de novas tecnologias e passa a ser a capacidade de transformar dados em decisões mais eficientes para o produtor rural. A avaliação marcou o primeiro dia da 17ª Conferência Internacional de Agricultura de Precisão e Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão e Digital, que começou nesta segunda-feira (13), na PUCRS, em Porto Alegre. O evento segue até quinta-feira (16), reunindo pesquisadores, empresas e produtores de diversos países para discutir agricultura digital, inteligência artificial, automação e sustentabilidade.

Para o presidente da Associação Brasileira de Agricultura de Precisão e Digital (AsBraAP), Márcio Albuquerque, a agricultura digital deixou de representar uma tendência para se tornar uma necessidade diante das margens mais apertadas da atividade e dos efeitos das mudanças climáticas.

A agricultura de precisão digital é mais do que uma tendência, é uma necessidade“, afirmou.

Segundo ele, o principal desafio passa a ser substituir decisões baseadas apenas na experiência por escolhas apoiadas em informações geradas dentro da própria propriedade.

O produtor precisa deixar de decidir porque sempre fez daquela forma ou porque o vizinho fez. A decisão precisa ser sustentada pelos dados da própria fazenda“, disse.

Albuquerque também defendeu o avanço da experimentação nas propriedades rurais, utilizando ferramentas capazes de medir os resultados obtidos em pequenas áreas antes da adoção em escala comercial.

Ao apresentar aos visitantes internacionais um panorama da agricultura brasileira, o dirigente destacou a contribuição do Rio Grande do Sul para a expansão do conhecimento agrícola no País, citando a tradição em cooperativismo, mecanização, plantio direto e formação de profissionais que ajudaram a difundir essas tecnologias para outras regiões.

Entre os destaques da programação, o pesquisador Davide Cammarano, da Aarhus University, da Dinamarca, abordou o uso da agricultura de precisão para atender às exigências ambientais da União Europeia. O rigor no controle da atividade agrícola e a busca por uma produção sustentável e eficiente fazem parte do dia a dia da atividade no continente europeu. A geração de dados tem permitido aos produtores comprovar, de forma objetiva, o cumprimento das normas de sustentabilidade.

Professor da Esalq/USP, José Paulo Molin mostrou que a agricultura de precisão na América Latina acumula cerca de 25 anos de evolução, mas ainda apresenta forte concentração nas grandes propriedades produtoras de grãos e cana-de-açúcar. Na avaliação do pesquisador, a próxima etapa será ampliar o acesso às tecnologias pelos pequenos produtores, utilizando ferramentas como drones, sensoriamento remoto, inteligência artificial e zonas de manejo adaptadas à realidade dessas propriedades.

Representando a Auburn University, dos Estados Unidos, Simerjeet Virk apresentou a evolução da agricultura de precisão norte-americana, que passou da utilização do GPS e da aplicação em taxa variável para uma nova fase baseada em automação, conectividade e inteligência artificial.

Apesar desse avanço, o pesquisador observou que os obstáculos permanecem semelhantes aos encontrados em outros países. O custo das tecnologias, a dificuldade de integrar equipamentos e plataformas de diferentes fabricantes, a necessidade de capacitação e as dúvidas sobre propriedade dos dados continuam entre os principais entraves à adoção.

Segundo Virk, as tecnologias que apresentam retorno financeiro mais rápido, como piloto automático e aplicação em taxa variável de fertilizantes, seguem liderando a adoção pelos produtores. Já soluções que exigem maior processamento e interpretação de dados ainda avançam em ritmo mais lento.

Mesmo com realidades distintas entre os continentes, as apresentações convergiram para um mesmo diagnóstico: o futuro da agricultura de precisão dependerá menos da oferta de novas tecnologias e mais da capacidade de transformar informações em decisões que aumentem a eficiência, a rentabilidade e a sustentabilidade da produção agropecuária.

Fonte: Jornal do Comércio

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