Fim da hiperglobalização abre janela para o agro brasileiro

O fim da hiperglobalização abre uma nova janela de oportunidades para o agronegócio brasileiro. A avaliação é do economista Eduardo Giannetti da Fonseca, que abriu, nesta quinta-feira, o II Campo das Ideias, promovido pelo Senar-RS e realizado no Bourbon Country, em Porto Alegre.

Na palestra de abertura, ele afirmou que a reorganização da economia mundial favorece países capazes de oferecer segurança geopolítica, alimentos, energia renovável e recursos naturais — combinação que, segundo o economista, coloca o Brasil em posição privilegiada para ampliar sua presença nos mercados internacionais.

“Estou profundamente confiante no cenário que essa mudança da ordem econômica mundial traz para o Brasil. Nós temos uma oportunidade e uma situação global que nos recolocam como relevantes naquilo de que o mundo precisa“, afirmou.

Para Giannetti, o Brasil reúne condições para negociar simultaneamente com Estados Unidos, China e União Europeia, aproveitando a rivalidade entre as grandes potências para atrair investimentos, tecnologia e agregar valor à produção nacional.

O economista sustentou que o ciclo da hiperglobalização — marcado pela concentração da produção em países de menor custo, especialmente a China, e pela formação de cadeias globais altamente integradas — chegou ao fim. Segundo ele, esse processo começou com a crise financeira de 2008, aprofundou-se com a pandemia de Covid-19, que expôs a vulnerabilidade das cadeias globais de suprimento, e ganhou novo impulso com a política comercial adotada pelo presidente norte-americano Donald Trump, aumentando a incerteza nas regras do comércio internacional.

Na avaliação de Giannetti, o novo ambiente faz com que segurança, diversificação de fornecedores e estabilidade geopolítica passem a pesar tanto quanto eficiência e custo nas decisões de investimento. Nesse contexto, o Brasil desponta como fornecedor estratégico de alimentos, energia renovável e minerais críticos, além de reunir uma das maiores biodiversidades do planeta. “O mundo precisará de nós. E nós precisamos do mundo“, resumiu.

Ao responder sobre as perspectivas para o Rio Grande do Sul, Giannetti destacou que o principal diferencial competitivo do Estado é o cooperativismo, que permite a pequenos e médios produtores ganhar escala e competir em mercados internacionais. Também apontou a expansão dos biocombustíveis — incluindo novas rotas para produção de etanol e combustíveis sustentáveis para aviação — como uma das principais oportunidades para a economia gaúcha.

Entre os principais desafios, afirmou que a sucessão de eventos climáticos extremos torna indispensável o fortalecimento da política de gestão de riscos no campo. Para ele, o atual sistema de seguro rural é insuficiente e dificilmente o mercado privado de seguros conseguirá atender sozinho às necessidades do setor. Giannetti defendeu a criação de mecanismos públicos de garantia para perdas provocadas por eventos climáticos severos e incentivou o setor a construir uma proposta consistente nessa direção.

O economista também ressaltou que ciência, tecnologia e inovação voltadas às condições brasileiras serão decisivas para elevar a competitividade do agronegócio. Segundo ele, diferentemente de tecnologias de uso universal, como a inteligência artificial, a pesquisa agropecuária precisa ser adaptada às características de solo, clima, disponibilidade de água e biodiversidade de cada região.

Embora considere o cenário internacional favorável, Giannetti afirmou que o Brasil precisará avançar em infraestrutura logística, qualificação da mão de obra e equilíbrio das contas públicas para transformar essa oportunidade em crescimento sustentado. Na avaliação do economista, o ajuste fiscal deve ser enfrentado logo no início do próximo governo, criando condições para reduzir juros, ampliar investimentos e fortalecer a confiança na economia.

Além da palestra de abertura de Giannetti, o II Campo das Ideias reuniu representantes da FAO, da COP30, da Farsul, da Be8, da Lactalis Brasil e da CropLife Brasil em painéis sobre sustentabilidade ambiental e alimentar, participação do agronegócio no crescimento econômico e expansão do mercado externo.

Fonte: Jornal do Comércio

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