Silvicultura permite gerar renda onde a agricultura intensiva apresenta limitações

A silvicultura passou a ser vista por muitos agricultores familiares como uma alternativa capaz de complementar a renda tradicional obtida com grãos e pecuária, pois, ao contrário das culturas anuais, a produção florestal permite receitas em períodos distintos do ano e ao longo de diferentes fases do ciclo produtivo, contribuindo para um fluxo de caixa mais equilibrado nas propriedades. Outro aspecto que favorece o interesse dos produtores é o aproveitamento de áreas antes consideradas improdutivas.

“O plantio florestal permite gerar renda em locais onde a agricultura intensiva apresenta limitações, sem competir diretamente com outras atividades da propriedade”, afirma o extensionista rural, coordenador estadual das áreas de silvicultura e sistemas agroflorestais da Emater/RS-Ascar, Antônio Carlos Leite de Borba.

A atividade vem se consolidando impulsionada pelo aumento da demanda por madeira, pela simplificação da legislação ambiental e pela ampliação de programas de incentivo e assistência técnica.

Em função disso, a atividade apresenta perspectiva de crescimento em diversas regiões do Estado com expansão gradual do cultivo de florestas comerciais em pequenas propriedades rurais, especialmente em regiões como Serra do Botucaraí, Centro-Serra, Médio Uruguai e região Sul.

“Nessas áreas, fatores como tradição florestal, presença de cadeias produtivas ligadas à madeira e disponibilidade de áreas degradadas ou de menor aptidão agrícola favorecem o avanço da atividade”, explica.

A atividade também apresenta retorno financeiro considerado compatível com a realidade da agricultura familiar, pois, em plantios destinados à produção de lenha e madeira de menor diâmetro, o produtor pode começar a obter receita em três ou quatro anos. Já cultivos voltados para madeira de maior valor agregado, como toras, possuem ciclos mais longos, entre 16 e 20 anos.

De acordo com o extensionista da Emater, o retorno depende diretamente do manejo adotado, da escolha correta das espécies e da utilização de mudas de qualidade. Entre as espécies mais utilizadas no Estado estão eucalipto, pinus, acácia-negra e também a erva-mate.

Além disso, a assistência técnica tem papel central no avanço da silvicultura entre agricultores familiares por meio do trabalho da Emater, que atua desde o planejamento do uso da terra até o manejo e comercialização da produção.

Muitos produtores enxergam a floresta como uma reserva patrimonial da família, um investimento de médio e longo prazo que pode ser utilizado em momentos de necessidade, pois o setor vem crescendo no País.

“A produção florestal brasileira bateu recordes recentes de valor econômico, puxada principalmente pela silvicultura e pela cadeia da celulose”, afirma o secretário executivo da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Fetag/RS), Kaliton Prestes.

Investimentos iniciais relativamente elevados estão entre os gargalos

Apesar das perspectivas positivas, o setor ainda enfrenta desafios importantes. Um dos principais gargalos apontados é a necessidade de investimentos iniciais relativamente elevados para uma atividade de retorno de médio e longo prazo.

Embora existam linhas de financiamento, especialmente por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), produtores ainda enfrentam dificuldades relacionadas ao acesso ao crédito, à oscilação do preço da madeira e aos custos de colheita e transporte. A logística é considerada um dos principais entraves para pequenos produtores, especialmente em regiões onde há pouca estrutura industrial ou grande distância dos centros consumidores.

“O transporte da madeira e as operações de colheita exigem equipamentosespecializados e podem comprometer parte da rentabilidade”, explica o coordenador estadual das áreas de silvicultura e sistemas agroflorestais da Emater/RS-Ascar, Antônio Carlos Leite de Borba. Outro desafio está na escala de produção, pois pequenos volumes individuais dificultam a negociação direta com grandes compradores, o que reforça a necessidade de fortalecimento de cooperativas, associações e arranjos produtivos locais.

Em volumes maiores, a madeira segue para polos regionais e indústrias ligadas à produção de energia, serrarias e celulose | TÂNIA MEINERZ/JC

Em volumes maiores, a madeira segue para polos regionais e indústrias ligadas à produção de energia, serrarias e celulose TÂNIA MEINERZ/JC

“Hoje, a cadeia produtiva da madeira no Estado funciona de forma descentralizada. Parte significativa da produção familiar é absorvida localmente, seja por propriedades vizinhas, pequenas serrarias, agroindústrias ou pela demanda ligada à armazenagem de grãos e à pecuária”. Em volumes maiores, a madeira segue para polos regionais e indústrias ligadas à produção de energia, serrarias e celulose. Ainda assim, o setor avalia que a cadeia precisa avançar em organização, infraestrutura e integração dos pequenos produtores.

A expansão da silvicultura também vem acompanhada de debates sobre sustentabilidade e conservação ambiental. Segundo a Emater, a atividade pode ser conciliada com a preservação dos recursos naturais desde que o plantio siga critérios técnicos e respeite a legislação ambiental.

As orientações incluem implantação das florestas fora de Áreas de Preservação Permanente (APPs), manutenção da vegetação nativa em nascentes e margens de rios, planejamento adequado do uso da terra e adoção de práticas de conservação do solo e da água. Entre as medidas recomendadas estão o plantio em áreas degradadas, manutenção da cobertura vegetal, redução da compactação do solo e planejamento das estradas internas e operações mecanizadas.

A instituição também destaca que a silvicultura pode contribuir para proteção ambiental ao aumentar a infiltração e armazenamento de água no solo, reduzir erosão e auxiliar na mitigação de eventos climáticos extremos. “Além das espécies exóticas de rápido crescimento, como eucalipto e pinus, cresce o incentivo ao plantio de espécies nativas, especialmente em projetos de recuperação ambiental, sistemas agroflorestais e silvipastoris”, completa Borba.

Segundo o extensionista rural Sérgio Morgensten, do Escritório Municipal da Emater/RS-Ascar de Novo Barreiro, no Norte do Estado, o sistema de integração florestas-pecuária por meio de florestas comerciais também contribui para o bem-estar animal. “É uma alternativa para o produtor trabalhar com sombreamento para o gado de leite e de corte. Além disso, representa uma importante fonte de geração de renda”, explica. Morgensten destaca que o pinus, por exemplo, possui múltiplas finalidades, podendo ser utilizado na produção de móveis, pallets, caixas, palanques e até como fonte de energia e combustível.

Fonte: Jornal do Comércio

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