Grãos e vitivinicultura buscam acordo para reduzir deriva no RS

Representantes da vitivinicultura e dos produtores de grãos do Rio Grande do Sul articulam a criação de um grupo de trabalho para buscar soluções para a deriva de herbicidas hormonais. A construção envolve o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) e a Federação da Agricultura do Estado (Farsul), com a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação como possível mediadora.

A iniciativa ocorre em meio a divergências sobre a dimensão dos prejuízos e o alcance das medidas de controle. O debate ganhou força após a divulgação, na semana passada, de um estudo contratado pelo Consevitis-RS e executado por pesquisadores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) – Campus Bento Gonçalves, que estima em R$ 210,2 milhões as perdas da vitivinicultura entre 2018 e 2025 em seu cenário intermediário.

A Farsul reconhece episódios de deriva e prejuízos, mas questiona a consistência da pesquisa para sustentar valores dessa magnitude e considera que os problemas estão concentrados em determinadas regiões. O Consevitis argumenta que as ocorrências atingem diferentes áreas produtoras do Estado.

O grupo ainda não foi formalizado e não há prazo para o início dos trabalhos. Segundo o vice-presidente do Consevitis, Luciano Rebellatto, a expectativa é que a Secretaria da Agricultura faça a mediação entre os setores e participe da implementação das medidas que dependam de regulamentação estadual. Entre os temas que podem entrar na discussão estão restrições ao uso de herbicidas hormonais em determinadas áreas e períodos e alternativas para reduzir os riscos de deriva.

Apesar das diferenças, as duas entidades afastam a ideia de confronto entre as cadeias. Assessora ambiental da Farsul, Paula Hofmeister relata que produtores de soja presentes na apresentação do estudo, em Dom Pedrito, manifestaram apoio às culturas sensíveis e à diversificação produtiva.

Rebellatto também defende a convivência entre as atividades. “De forma alguma somos contra a atividade de grãos. Nós precisamos conviver, de forma pacífica e harmônica, entre as partes”, afirma. Segundo ele, há propriedades onde soja e uva são cultivadas lado a lado sem problemas.

Os R$ 210,2 milhões correspondem ao cenário intermediário entre três estimativas feitas pelos pesquisadores.

  • No mais conservador, baseado nos casos confirmados pela Secretaria, as perdas são calculadas em R$ 161,7 milhões.
  • No cenário mais abrangente, chegam a R$ 357,3 milhões.

Os valores maiores procuram considerar a possibilidade de que parte dos episódios não tenha sido oficialmente registrada. O estudo recomenda que os números sejam interpretados como estimativas diante das limitações dos dados disponíveis.

Mais de 90% do impacto econômico estimado está concentrado na Campanha Gaúcha. Rebellatto ressalta, porém, que isso não significa que as ocorrências estejam restritas à região. Segundo ele, o levantamento analisou mais de 400 registros, com episódios também nas Missões, Campos de Cima da Serra e Região Central.

Para o Consevitis, a recorrência também afeta decisões de investimento. “Quando um vinhedo é impactado por 2,4-D, ele tem um prejuízo que se arrasta por mais anos, inclusive com o replantio da muda”, afirma Rebellatto.

A entidade defende regras mais rígidas nas áreas com culturas sensíveis, incluindo a possibilidade de suspensão das aplicações entre agosto e janeiro em determinadas regiões.

Farsul questiona cálculo e defende ações localizadas

A Farsul questiona a base utilizada pelo estudo. “A gente achou o trabalho muito frágil”, afirma Paula. Um dos pontos levantados pela entidade é o número de entrevistados — oito produtores e dois técnicos. “É óbvio que teve prejuízo, a gente sabe que teve, mas a gente precisa de dados concretos, oficiais, com bases científicas sólidas para conseguir, de fato, repercutir esse trabalho.”

As entrevistas, porém, não são a única fonte usada para calcular as perdas. O estudo combina registros oficiais, informações sobre produção e área dos vinhedos, entrevistas e outros parâmetros. Os próprios pesquisadores reconhecem limitações, entre elas a possível subnotificação dos episódios e o uso de parâmetros médios e ajustes para calcular as perdas.

A Farsul também diverge sobre a abrangência das medidas necessárias. A entidade sustenta que as ações devem se concentrar onde os problemas são conhecidos, comoJaguari, Dom Pedrito e Santana do Livramento, sem uma restrição generalizada ao uso do produto.

A gente tem que atuar, de fato, nos locais onde temos problemas, e não restringir o uso de uma tecnologia importante, que vai gerar um impacto importante nas demais cadeias”, afirma Paula.

Ela ressalta que reduzir a deriva também interessa ao produtor que faz a aplicação, já que o produto que não atinge o alvo representa desperdício e perda de eficiência. “A gente também não quer criar deriva, porque a gente está botando o dinheiro fora”, acrescenta.

A Farsul considera a criação de zonas de uso especial uma alternativa para controlar o uso do 2,4-D em locais com problemas recorrentes. Segundo Paula, a Secretaria da Agricultura trabalha na elaboração de regras que poderão estabelecer áreas de exclusão do produto.

A entidade também mantém posição contrária ao Projeto de Lei nº 520/2025, que cria novas regras para o uso de herbicidas hormonais no Estado. A proposta, já aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa, prevê medidas como zonas de exclusão e de amortecimento, registro digital das aplicações e mecanismos de indenização. Para a Farsul, algumas das exigências são excessivas e poderiam levar produtores à irregularidade diante da dificuldade de cumpri-las.

A Secretaria da Agricultura também reconhece a ocorrência de prejuízos em algumas regiões do Estado, principalmente relacionados ao uso inadequado do 2,4-D. Ao Jornal do Comércio, a pasta informou que prepara novos instrumentos para reforçar a fiscalização e aprimorar o controle sobre o produto. Entre as medidas já adotadas estão capacitação de aplicadores, inspeção de pulverizadores, registro das coordenadas das aplicações e rastreamento dos lotes de 2,4-D.

Fonte: Jornal do Comércio

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