Arroz brasileiro busca manter exportações fortes em cenário adverso

Depois de um primeiro semestre marcado pelo avanço das exportações, o mercado brasileiro de arroz entra na segunda metade de 2026 diante do desafio de manter o ritmo dos embarques em um ambiente internacional mais adverso. Embora a perspectiva de o Brasil exportar cerca de 2 milhões de toneladas no ano seja mantida, analistas e a indústria avaliam que o comércio exterior continuará decisivo para reduzir os elevados estoques internos e dar sustentação aos preços pagos ao produtor.

Para o analista de arroz da Safras & Mercado, Evandro Silva, o desempenho das exportações é superior ao da temporada passada, mas ainda insuficiente para eliminar o desequilíbrio entre oferta e demanda. Pelos levantamentos da consultoria, que considera a temporada comercial de março a fevereiro, o Brasil exportou cerca de 670 mil toneladas (base casca) entre março e junho e importou aproximadamente 617 mil toneladas, resultando em um superávit comercial de apenas 53 mil toneladas.

Segundo Silva, o mercado ainda exige cautela. “O grande desafio do setor neste momento é colocar produto para fora“, afirma. Para atingir a meta de exportação na temporada, o País precisará manter embarques próximos de 180 mil toneladas por mês. Junho superou esse patamar, com pouco mais de 210 mil toneladas exportadas, mas o desempenho ainda precisa ganhar regularidade.

O analista ressalta que os elevados estoques continuam pressionando o mercado. “Temos demanda interna, temos demanda externa, só não temos preço“, observa. De acordo com ele, as cotações seguem abaixo dos custos de produção e até do preço mínimo oficial, cenário que leva muitos produtores a restringirem as vendas à espera de melhores condições.

Silva observa que a análise do mercado não deve considerar apenas o volume embarcado, mas também a composição das exportações. Do total enviado ao exterior entre março e junho, cerca de 275 mil toneladas correspondem a arroz quebrado, 256 mil toneladas a arroz em casca e apenas 137 mil toneladas a arroz beneficiado. Paralelamente, as importações permanecem elevadas, especialmente de arroz beneficiado e descascado, o que mantém a balança comercial relativamente equilibrada.

A Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), por sua vez, avalia que a predominância de arroz em casca e quebrado não representa uma preocupação. Segundo a entidade, por meio do projeto Brazilian Rice, essa composição acompanha um padrão histórico das exportações brasileiras e, por si só, não representa uma preocupação para a indústria, além de contribuir para sustentar o volume embarcado.

A Abiarroz pondera, contudo, que eventuais dificuldades nos mercados compradores de arroz beneficiado podem afetar o valor das exportações. O risco é maior justamente para o arroz polido, produto de maior valor agregado e destinado a mercados mais exigentes, como Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e países latino-americanos com padrão de consumo semelhante ao brasileiro.

Apesar desse cenário, a entidade mantém a expectativa de que o Brasil exporte cerca de 2 milhões de toneladas de arroz em 2026, em linha com as estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Para a indústria, entretanto, o segundo semestre exigirá atenção diante da combinação de fatores geopolíticos e comerciais.

Entre os principais riscos apontados estão a tarifa adicional de 25% sobre o arroz brasileiro anunciada pelos Estados Unidos, o aumento dos custos logísticos provocado pelas tensões no Oriente Médio e no Estreito de Ormuz e a interrupção das exportações para Cuba, principal destino do arroz polido brasileiro no primeiro semestre.

Na avaliação do analista da Safras, por outro lado, também há fatores que podem favorecer o desempenho brasileiro nos próximos meses. A redução da área cultivada nos Estados Unidos, a perspectiva de menor oferta em países asiáticos e a abertura de uma cota de importação pelo México podem ampliar o espaço do arroz brasileiro no mercado internacional.

A expectativa do setor permanece concentrada na capacidade de o comércio exterior absorver parte da produção disponível, reduzir os estoques e criar condições para uma recuperação mais consistente dos preços ao produtor.

Fonte: Jornal do Comércio

Mostrar mais
Botão Voltar ao topo