{"id":5050,"date":"2019-07-19T12:11:54","date_gmt":"2019-07-19T15:11:54","guid":{"rendered":"http:\/\/radiosul.net\/wp\/?p=5050"},"modified":"2019-07-19T12:11:56","modified_gmt":"2019-07-19T15:11:56","slug":"fronteira-com-o-uruguai-tem-influencia-do-portunhol-na-cultura-e-nos-negocios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/2019\/fronteira-com-o-uruguai-tem-influencia-do-portunhol-na-cultura-e-nos-negocios\/","title":{"rendered":"Fronteira com o Uruguai tem influ\u00eancia do &#8216;portunhol&#8217; na cultura e nos neg\u00f3cios"},"content":{"rendered":"\n<p> Quando se coloca o p\u00e9 na cal\u00e7ada, perambulando pelas ruas lim\u00edtrofes de uma fronteira como a de Santana do Livramento com Rivera, \u00e9 dif\u00edcil saber onde termina o Brasil e onde come\u00e7a o Uruguai. Entre as linhas irregulares desenhadas no mapa, h\u00e1 com\u00e9rcio ambulante, free shops e muita gente intercambiando pesos, reais e d\u00f3lares. <\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo ocorre ao se acompanhar a fala dos habitantes locais. Ora acionam o portugu\u00eas, ora o espanhol, e acabam se comunicando por meio de uma mistura de ambos, que se convencionou chamar de portunhol. A origem dessa forma de falar remonta ao per\u00edodo colonial, quando portugueses e espanh\u00f3is disputavam dom\u00ednios na Regi\u00e3o das Miss\u00f5es e do Rio da Prata. <\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s amplo predom\u00ednio do guarani, o portunhol pode ter sido l\u00edngua franca at\u00e9 o s\u00e9culo XIX, conforme apontam alguns historiadores. No s\u00e9culo seguinte, com a ascens\u00e3o dos nacionalismos, a fala mesclada ganhou um sentido pejorativo e foi desestimulada nas escolas e nos \u00e2mbitos governamentais. Mesmo assim, no dia a dia e no campo art\u00edstico, o portunhol permaneceu como via comunicativa afetiva e em constante transforma\u00e7\u00e3o. Hoje, essa forma cultural de se expressar vem sendo reconhecida como patrim\u00f4nio da fronteira, mesmo que haja controv\u00e9rsias em torno dela. <\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia pessoal do poeta, tradutor e dramaturgo Michel Croz ajuda-nos a adentrar o universo fronteiri\u00e7o. Nascido em Rivera, j\u00e1 viveu em Montevid\u00e9u e Porto Alegre. De volta \u00e0 terra natal, relata lembran\u00e7as da conviv\u00eancia com sua av\u00f3 na cozinha de casa. &#8220;As nossas av\u00f3s s\u00e3o as deposit\u00e1rias do que tem de mais sagrado da l\u00edngua e de todo o conhecimento&#8221;, afirma. Divertindo-se, Croz conta que sua av\u00f3 sempre recomendava aos netos que n\u00e3o falassem portunhol e aprendessem o espanhol e o portugu\u00eas &#8220;direitinho&#8221;. Para ela, o dialeto era &#8220;coisa de gente desocupada&#8221;, &#8220;coisa de bagaceira&#8221;. No entanto, s\u00f3 se expressava em portunhol. <\/p>\n\n\n\n<p>Michel Croz observa que existem muitos portunh\u00f3is. O falado em um bairro n\u00e3o \u00e9 o mesmo de outro. O portunhol de Artigas difere do encontrado em Bag\u00e9 ou em Jaguar\u00e3o. &#8220;A sua beleza intocada se d\u00e1 pelo fato de que ainda n\u00e3o pode ser direcionado &#8211; as palavras n\u00e3o t\u00eam dicion\u00e1rio, ou uma gram\u00e1tica. Ainda bem!&#8221;, comemora Croz. Para ele, o portunhol \u00e9 uma l\u00edngua dos afetos, que se fala para comunicar no presente, resgatando o passado. &#8220;H\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o forte, mas que se impulsa para o futuro&#8221;, conclui. <\/p>\n\n\n\n<p>Perspectiva similar est\u00e1 nos estudos do historiador Eduardo Palermo, que procura compreender o portunhol como fen\u00f4meno cultural. &#8220;\u00c9 muito dif\u00edcil tu falar espanhol 24 horas por dia, 365 dias por ano, quando tu convive mais tempo com pessoas que falam portugu\u00eas&#8221;, observa. Mesmo que as crian\u00e7as estudem em espanhol na escola, os costumes familiares n\u00e3o se modificam a ponto de deixarem de falar portunhol. <\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o historiador acredita que o fronteiri\u00e7o se identifica mais com o vizinho do pa\u00eds ao lado do que com as capitais distantes quil\u00f4metros dali. Os vetores de diferencia\u00e7\u00e3o e de integra\u00e7\u00e3o ocorrem simultaneamente. A popula\u00e7\u00e3o conhece as leis dos dois lados e faz uma adequa\u00e7\u00e3o ao dia a dia, um manejo. &#8220;Nossa estrutura mental est\u00e1 concebida em uma sorte de contrabando permanente&#8221;, acredita. Segundo o historiador riverense, o portunhol \u00e9 um patrim\u00f4nio imaterial em plena evolu\u00e7\u00e3o. &#8220;O que vai ser daqui 10 anos, n\u00e3o se sabe; o que se pode afirmar \u00e9 que h\u00e1 pelo menos 300 anos ele existe&#8221;, atesta Palermo. <\/p>\n\n\n\n<p>Essas abordagens da linguagem, afetiva e cultural, ampliaram-se na semana entre 19 e 22 de junho, por meio da poesia e da m\u00fasica, nos encontros promovidos em um festival sediado simultaneamente em Santana do Livramento e Rivera. Artistas de diversos pa\u00edses latino-americanos participaram da primeira edi\u00e7\u00e3o do Livrera &#8211; Festival Internacional de Poesia. Foram quatro dias de conviv\u00eancia e saraus coletivos, promovidos em escolas e centros culturais. Declamaram-se versos em portugu\u00eas, espanhol e portunhol. Selaram-se amizades e se aprofundaram desejos de reconhecimento e valoriza\u00e7\u00e3o m\u00fatua. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>De l\u00edngua maldita a s\u00edmbolo de integra\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"531\" src=\"http:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pan_materia_portunhol___festival_livrera_recebeu_escritores_de_cuba__colombia__espanha__venezuela__brasil_e_uruguai_foto_joao_vicente_ribas-8783687.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5051\" srcset=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pan_materia_portunhol___festival_livrera_recebeu_escritores_de_cuba__colombia__espanha__venezuela__brasil_e_uruguai_foto_joao_vicente_ribas-8783687.jpg 800w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pan_materia_portunhol___festival_livrera_recebeu_escritores_de_cuba__colombia__espanha__venezuela__brasil_e_uruguai_foto_joao_vicente_ribas-8783687-300x199.jpg 300w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pan_materia_portunhol___festival_livrera_recebeu_escritores_de_cuba__colombia__espanha__venezuela__brasil_e_uruguai_foto_joao_vicente_ribas-8783687-768x510.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Em escolas de Rivera, muitas das crian\u00e7as chegam \u00e0s salas de aula falando apenas o portunhol JO\u00c3O VICENTE RIBAS\/DIVULGA\u00c7\u00c3O\/JC <\/p>\n\n\n\n<p>Afastando-se pouco mais de tr\u00eas quil\u00f4metros a oeste da conurba\u00e7\u00e3o fronteiri\u00e7a com Santana do Livramento, deixando para tr\u00e1s as ruas de intenso com\u00e9rcio, chega-se a Paso de la Estiva, \u00e1rea de habita\u00e7\u00e3o popular no munic\u00edpio uruguaio de Rivera. A denomina\u00e7\u00e3o do bairro combina o idioma espanhol &#8220;paso de la&#8221; com o portugu\u00eas &#8220;estiva&#8221;, em refer\u00eancia aos trabalhadores do porto seco. Em Paso de la Estiva est\u00e1 a Escuela 111, de ensino p\u00fablico prim\u00e1rio, que recebeu, em junho, um sarau po\u00e9tico promovido pelo festival Livrera. <\/p>\n\n\n\n<p>No bairro, a maior parte da popula\u00e7\u00e3o fala portunhol. Muitas das crian\u00e7as chegam ao ambiente escolar sabendo apenas o dialeto. Ent\u00e3o passam a aprender o espanhol e o portugu\u00eas formais. A l\u00edngua portuguesa faz parte do curr\u00edculo desde 2010, seguindo as pol\u00edticas lingu\u00edsticas do governo uruguaio. Vanessa Lima \u00e9 a professora respons\u00e1vel pela disciplina e relata que muitos alunos usam express\u00f5es pr\u00f3prias do dialeto. Por exemplo, cadeira, que \u00e9 &#8220;silla&#8221; em espanhol, eles falam &#8220;s\u00eda&#8221; em portunhol. Contudo, a educadora n\u00e3o repreende a linguagem dos alunos. N\u00e3o est\u00e1 errado dizer &#8220;s\u00eda&#8221;. Vanessa explica que cada um tem seu jeito de se expressar. &#8220;Em casa est\u00e1 tudo bem que se comuniquem assim, mas na aula tratamos de falar o portugu\u00eas&#8221;, assegura. <\/p>\n\n\n\n<p>A mistura de idiomas foi aprovada pela escritora e professora universit\u00e1ria Eliana Luci\u00e1n, de Montevid\u00e9u, que esteve na fronteira orte para o festival. Observando a intera\u00e7\u00e3o de artistas e p\u00fablico, Eliana sugere que poderia haver mais pol\u00edticas visando \u00e0 aprendizagem da literatura brasileira. A escritora adorou conhecer a obra de Sa\u00fal Ibargoyen, o homenageado da primeira edi\u00e7\u00e3o da Livrera. Diz que, em Montevid\u00e9u, conhecem mais o escritor Fabi\u00e1n Severo, de Artigas, que escreve em portunhol e \u00e9 reconhecido dentro do c\u00e2none liter\u00e1rio nacional. <\/p>\n\n\n\n<p>Michel Croz lembra que houve um tempo em que o portunhol n\u00e3o cabia nos programas de ensino, mas que hoje h\u00e1 uma abertura maior. &#8220;H\u00e1 sociolinguistas que trabalham sobre o portunhol de forma a abrir a possibilidade de entend\u00ea-lo n\u00e3o como l\u00edngua maldita, de gente que n\u00e3o tem cultura&#8221;, reitera. Croz concorda com essa perspectiva: &#8220;O portunhol tem que ser plural, tem que ser mesti\u00e7o, porque nessa mistura est\u00e1 sua grandeza, sua forma de se vincular, sua forma de putear, sua forma de dizer coisas terr\u00edveis e coisas amorosas&#8221;. Essa carga emotiva do dialeto \u00e9 o material que sustenta seu texto dramat\u00fargico Us f\u00edo. Encenada h\u00e1 dois anos, a pe\u00e7a remonta a inf\u00e2ncia em Rivera, na d\u00e9cada de 1970. Relembra amores, trag\u00e9dias, pol\u00edtica, machismo e rela\u00e7\u00f5es fronteiri\u00e7as. &#8220;Um drama en portu\u00f1ol&#8221;, resume o autor Michel Croz. <\/p>\n\n\n\n<p>Pr\u00f3ximos desse enredo, os alunos da Escuela 111 receberam ainda, al\u00e9m do conterr\u00e2neo, os brasileiros Dilan Camargo e Richard Serraria. Nascido em Itaqui, na fronteira com a Argentina, Camargo viveu a inf\u00e2ncia em Uruguaiana. Ouvia sempre as r\u00e1dios do outro lado, mas nunca estudou espanhol. Pela experi\u00eancia, fala mesclando ao portugu\u00eas voc\u00e1bulos familiares da l\u00edngua vizinha. Desta forma, apresentou poemas do livro Rimas pra cima (Artes &amp; Of\u00edcios, 2014), interagiu e se divertiu com a plateia. <\/p>\n\n\n\n<p>No mesmo clima &#8220;pra cima&#8221;, o porto-alegrense Richard Serraria come\u00e7ou utilizando uma express\u00e3o que aprendeu com o amigo fronteiri\u00e7o Mimmo Ferreira, o &#8220;vamo arriba&#8221;. Tal chamamento n\u00e3o cont\u00e9m apenas uma sem\u00e2ntica pr\u00f3pria, mas revela um jeito de falar. A entoa\u00e7\u00e3o \u00e9 mat\u00e9ria-prima do cancionista Serraria, por isso encontra na fronteira um manancial de express\u00f5es e sotaques que gosta de incorporar em sua m\u00fasica. &#8220;A linguagem revela o contexto social e aqui isso se mostra de uma forma muito aut\u00eantica&#8221;, observa. Na \u00faltima d\u00e9cada, o artista come\u00e7ou a frequentar os pa\u00edses vizinhos, pesquisando a cultura negra. No contato com artistas como Pablo Grinjot, Tomi Lebrero, Daniel Drexler, Dany L\u00f3pez, Sebasti\u00e1n Jantos, foi percebendo a cultura como elemento vivo, que n\u00e3o obedece fronteiras geopol\u00edticas. &#8220;A can\u00e7\u00e3o \u00e9 uma arte vagabunda, digamos assim, no sentido mais elogioso poss\u00edvel; muitas vezes, ela n\u00e3o \u00e9 considerada literatura, outras vezes, ela n\u00e3o \u00e9 considerada m\u00fasica erudita, mas, ao mesmo tempo, \u00e9 um espa\u00e7o de express\u00e3o que permite muita coisa&#8221;, analisa. <\/p>\n\n\n\n<p>Serraria cantou, fez rap e obteve uma receptividade calorosa do p\u00fablico na Escuela 111, para suas can\u00e7\u00f5es repletas de g\u00edrias porto-alegrenses. O cancionista observa que muitas vezes as pessoas n\u00e3o entendem as palavras, mas o ritmo, a melodia, a entona\u00e7\u00e3o, podem ser convincentes. &#8220;Mesmo n\u00e3o entendendo a l\u00edngua, \u00e9 poss\u00edvel gostar da can\u00e7\u00e3o&#8221;, observa. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Homenagem ao escritor adepto do portunhol <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o fronteiri\u00e7a desvela-se na novela Toda la tierra (Editora E\u00f3n, 2000), a partir de hist\u00f3rias de vida marcadas pela dualidade de um espa\u00e7o rural sem linhas divis\u00f3rias. Nela, h\u00e1 uma variedade lingu\u00edstica oral, para a qual o escritor escolhe uma ortografia pr\u00f3pria. O autor dessa narrativa e de mais de 45 obras liter\u00e1rias, que incluem poesia, \u00e9 o uruguaio Sa\u00fal Ibargoyen. O escritor faleceu em janeiro deste ano no M\u00e9xico, onde havia se exilado em 1976, e foi o homenageado da primeira edi\u00e7\u00e3o do festival Livrera. Sua vi\u00fava, a dramaturga Mariluz Su\u00e1rez Herrera, afirmou que &#8220;Sa\u00fal foi profundamente fronteiri\u00e7o, amava este lugar&#8221;. Segundo Mariluz, entre o escritor e seus leitores n\u00e3o havia barreiras: &#8220;O leitor mexicano tamb\u00e9m gosta, l\u00ea em portunhol, com gloss\u00e1rio para as palavras estranhas ao espanhol&#8221;. Ibargoyen deixou um livro in\u00e9dito, que ser\u00e1 lan\u00e7ado ainda neste ano. <\/p>\n\n\n\n<p>A trajet\u00f3ria do escritor foi uma das inspira\u00e7\u00f5es para o festival, bem como a movimenta\u00e7\u00e3o em torno da literatura que marca a regi\u00e3o. Um dos organizadores, Wilson Javier Cardozo, costuma frequentar grupos de leitores e escritores. &#8220;De uns tempos para c\u00e1, come\u00e7amos a editar obras coletivas e a revista Abrelabios, homenagem \u00e0 publica\u00e7\u00e3o que teve edi\u00e7\u00e3o \u00fanica durante a ditadura militar&#8221;, relata. <\/p>\n\n\n\n<p>Para Cardozo, a parceria com Artur Montanari, de Livramento, foi essencial para realizar o evento. O brasileiro tamb\u00e9m promove a\u00e7\u00f5es culturais e feiras do livro h\u00e1 18 anos e comemora a parceria que deu certo. Sobre homenagear um escritor que se destaca no uso do portunhol, Montanari comenta que na obra de Sa\u00fal Ibargoyen se tem uma \u00f3tima express\u00e3o do quanto esse dialeto se presta \u00e0 arte, de forma livre. &#8220;Sistematizar como l\u00edngua \u00e9 matar o portunhol&#8221;, opina. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>A fala como patrim\u00f4nio social <\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"http:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F_0000559070.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5052\" srcset=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F_0000559070.jpg 800w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F_0000559070-300x200.jpg 300w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/F_0000559070-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Regi\u00e3o comercial entre Santana do Livramento e Rivera integra diversas formas de falar JO\u00c3O MATTOS\/ARQUIVO\/JC <\/p>\n\n\n\n<p>Diretor do Museu do Patrim\u00f4nio Regional de Rivera, o historiador Eduardo Palermo participou de uma campanha em 2015, que pretendia tornar o portunhol patrim\u00f4nio imaterial do Uruguai. Naquele ano, foi realizado um ciclo de confer\u00eancias, que acabou gerando a publica\u00e7\u00e3o do livro Jodido Bushinshe, dispon\u00edvel na internet. Mas n\u00e3o houve consenso das autoridades e a campanha n\u00e3o avan\u00e7ou. <\/p>\n\n\n\n<p>O historiador sustenta a tese de que, na hist\u00f3ria da regi\u00e3o, nos \u00faltimos 300 anos, o portunhol foi a l\u00edngua franca. Anteriormente, teria sido o guarani. Com os dom\u00ednios ib\u00e9ricos avan\u00e7ando, o portugu\u00eas e o espanhol foram se misturando \u00e0s l\u00ednguas de origem africana, como o bantu, e o pr\u00f3prio guarani. &#8220;A linguagem na fronteira \u00e9 uma grande mistura, sem ter uma norma, ou uma estrutura, e que vai mudando, \u00e9 extremamente din\u00e2mica&#8221;, observa. Hoje, h\u00e1 tamb\u00e9m a influ\u00eancia do espanhol de outros pa\u00edses, que v\u00eam nas dublagens de programas de TV a cabo, e se mesclam com o falar tradicional da regi\u00e3o. &#8220;Meus filhos pequenos usam muitas palavras que n\u00e3o s\u00e3o pr\u00f3prias do rio da Prata, mas de um espanhol standard de Miami&#8221;, conclui. <\/p>\n\n\n\n<p>Alguns pesquisadores preferem o termo fronteiri\u00e7o para englobar toda uma cultura em torno do falar de fronteira. Palermo considera interessante e explica que come\u00e7aram a usar o nome portunhol nos anos 1950. J\u00e1 nos anos 1960, veio o conceito de DPU (Dialetos Portugueses no Uruguai), classificando regionalismos como o bayano e o carimb\u00e1o. No entanto, o historiador acredita que o portunhol est\u00e1 \u00e0 margem das esferas oficiais. &#8220;Se tu perguntar a um uruguaio aqui em Rivera qual o idioma que ele fala, ele ir\u00e1 dizer espanhol, ou talvez o portugu\u00eas; n\u00e3o dir\u00e1 que fala portunhol&#8221;, garante. Mas repara que, no cotidiano, \u00e9 o portunhol que se fala mais. &#8220;As pessoas falam da melhor forma poss\u00edvel para se comunicar, sem que se pense nisso&#8221;, atesta. <\/p>\n\n\n\n<p>Longe dos centros urbanos, h\u00e1 outro falar misturado, que pode ser chamado de gauchesco e inclui muitas express\u00f5es ligadas ao campo. A fam\u00edlia da pesquisadora e tradutora brasileira Ana Maria Netto Machado vive no interior do Uruguai, a 160 quil\u00f4metros de Tacuaremb\u00f3. &#8220;L\u00e1 a linguagem \u00e9 do interior, o gauchesco, falam bem entreverado&#8221;, relata. Machado se criou em Montevid\u00e9u e observa que o montevideano entende menos o portugu\u00eas que o pessoal do interior. Aprendeu o espanhol no col\u00e9gio, na d\u00e9cada de 1970, e n\u00e3o misturava as duas l\u00ednguas. Durante muito tempo, a pesquisadora admite que nutria certo preconceito com o portunhol. Acreditava que era desleixo de quem n\u00e3o conseguia aprender a falar a l\u00edngua dos pa\u00edses vizinhos. Mas h\u00e1 alguns anos, a partir de uma experi\u00eancia em um evento internacional, mudou de ideia e passou a reconhecer o valor do portunhol para a comunica\u00e7\u00e3o entre os latino-americanos, numa perspectiva descolonial, que se desprende das l\u00ednguas europeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Karla M\u00fcller, Diretora da Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o da Ufrgs, pesquisa fronteiras desde fim dos anos 1990. Seus estudos abrangem os limites entre o Rio Grande do Sul, o Uruguai e a Argentina, al\u00e9m do Mato Grosso do Sul com a Bol\u00edvia e o Paraguai. Comparando os diferentes contextos, a pesquisadora acredita que nas fronteiras uruguaias h\u00e1 mais mistura de palavras. E explica que, com a Argentina e o Paraguai, historicamente, a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 mais tensa. &#8220;Tudo isso se reflete na forma de falar e na integra\u00e7\u00e3o&#8221;, observa. Assim, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria bem pr\u00f3xima, guardadas as diferen\u00e7as. &#8220;A l\u00edngua faz parte da cultura fronteiri\u00e7a, e nela \u00e9 importante demarcar quem tu \u00e9s, dizer se \u00e9 brasileiro, uruguaio, doble chapa&#8221;, afirma. <\/p>\n\n\n\n<p>Karla prefere utilizar o conceito fronteiri\u00e7o para designar a mescla de express\u00f5es que caracteriza esse linguajar. O falar do fronteiri\u00e7o toma palavras emprestadas, mas mant\u00e9m a estrutura da l\u00edngua materna. J\u00e1 no portunhol, a pesquisadora observa muito mais um atropelo na corre\u00e7\u00e3o dos idiomas, que \u00e9 muito corriqueiro nas transa\u00e7\u00f5es comerciais. &#8220;Se tu respeita a l\u00edngua do outro, tu n\u00e3o vai atropelar, vai tentar falar de uma forma clara, mesmo que seja na tua l\u00edngua, mas que ele te compreenda&#8221;, opina. <\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pelas ruas da fronteira, muitos sotaques e uma s\u00f3 cultura <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"531\" src=\"http:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pan_materia_portunhol___elida_e_maira_de_souza___foto_joao_vicente_ribas-8783670.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-5053\" srcset=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pan_materia_portunhol___elida_e_maira_de_souza___foto_joao_vicente_ribas-8783670.jpg 800w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pan_materia_portunhol___elida_e_maira_de_souza___foto_joao_vicente_ribas-8783670-300x199.jpg 300w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/pan_materia_portunhol___elida_e_maira_de_souza___foto_joao_vicente_ribas-8783670-768x510.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Elida de Souza e sua sobrinha Maira de Souza s\u00e3o bil\u00edngues JO\u00c3O VICENTE RIBAS\/DIVULGA\u00c7\u00c3O\/JC <\/p>\n\n\n\n<p>O santanense Maureci Cavalcanti tem uma banca de revistas na pra\u00e7a Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio h\u00e1 40 anos. No seu caixa, h\u00e1 sempre duas moedas, o peso e o real. Entre os jornais que vende est\u00e1 A Plateia, que publica tr\u00eas p\u00e1ginas em espanhol e circula nos dois pa\u00edses. A partir de sua experi\u00eancia, afirma que os uruguaios t\u00eam mais h\u00e1bito de leitura que os brasileiros. Tamb\u00e9m fazem sucesso entre os riverenses os \u00e1lbuns de futebol. Os colecionadores costumam se reunir na pra\u00e7a, junto \u00e0 banca, para trocar figurinhas. Cavalcanti diz que nunca teve aulas de espanhol, e que atende a clientela misturando palavras que aprende no dia a dia. &#8220;O importante \u00e9 entender e se fazer entender&#8221;, acredita. <\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado da fronteira, o leiloeiro Elio Piedra Silveira reclama que os brasileiros n\u00e3o entendem o espanhol, enquanto os uruguaios se esfor\u00e7am para entender o portugu\u00eas. Silveira lembra que para conseguir um emprego no com\u00e9rcio de Rivera, \u00e9 preciso ser bil\u00edngue. J\u00e1 em Livramento n\u00e3o h\u00e1 essa exig\u00eancia. O uruguaio se orgulha de entender o portugu\u00eas, mas lamenta que os brasileiros s\u00f3 falem o seu idioma. &#8220;N\u00e3o falo portunhol por bronca; ou me entende ou azar o teu&#8221;, contesta. <\/p>\n\n\n\n<p>No caso da fam\u00edlia Souza, que reside em Livramento, h\u00e1 facilidade com ambos idiomas. Filhas de casais uruguaio-brasileiros, Elida de Souza e sua sobrinha Maira de Souza s\u00e3o bil\u00edngues. A tia nasceu em Rivera, mas admite que no cotidiano usa mais o portugu\u00eas. A n\u00e3o ser quando vai a \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos do Uruguai. J\u00e1 Maira, que nasceu no Brasil e tem dupla cidadania, conta que em Montevid\u00e9u as pessoas estranham sua forma diferente de falar. <\/p>\n\n\n\n<p>Nas ruas que integram o com\u00e9rcio da fronteira, a vendedora uruguaia Carolina Pereira Paz declara seu amor pela regi\u00e3o e pelas rela\u00e7\u00f5es proporcionadas ali, embora tenha suas cr\u00edticas. O brasileiro seria meio desconfiado: tenta aprender palavras no espanhol, mas n\u00e3o entende o que ela fala. <\/p>\n\n\n\n<p>Paz reafirma o clima de irmandade, por\u00e9m observa a rivalidade no futebol. &#8220;Quando o Uruguai est\u00e1 perdendo, os brasileiros jogam bomba&#8221;, relata. A comerciante costuma assistir aos canais de televis\u00e3o brasileiros e ouvir as r\u00e1dios de Livramento. Aprendeu a falar um pouco de portugu\u00eas na escola e na rua, vendendo lanches na Fronteira da Paz. <\/p>\n\n\n\n[ Gloss\u00e1rio ] <\/p>\n\n\n\n<p>bagayero &#8211; vendedor ambulante de mercadoria contrabandeada <\/p>\n\n\n\n<p>bushinshe &#8211; rebuli\u00e7o, bochincho, quiproqu\u00f3 <\/p>\n\n\n\n<p>doble chapa &#8211; filho de m\u00e3e uruguaia e pai brasileiro, e vice-versa <\/p>\n\n\n\n<p>putear &#8211; repreender, xingar <\/p>\n\n\n\n<p>rompidioma &#8211; que mistura l\u00ednguas <\/p>\n\n\n\n<p>s\u00eda &#8211; cadeira <\/p>\n\n\n\n<p>us f\u00edo &#8211; os filhos <\/p>\n\n\n\n<p>vamo arriba &#8211; vamos l\u00e1<\/p>\n\n\n\n<p> Jo\u00e3o Vicente Ribas \u00e9 jornalista, doutor em Comunica\u00e7\u00e3o pela <br>Pucrs e autor do blog Pampurbana. Foi rep\u00f3rter da TVE-RS. <\/p>\n\n\n\n<p>Fonte: Jornal do Com\u00e9rcio<\/p>\n\n\n\n<p>Foto: JO\u00c3O VICENTE RIBAS\/DIVULGA\u00c7\u00c3O\/JC<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando se coloca o p\u00e9 na cal\u00e7ada, perambulando pelas ruas lim\u00edtrofes de uma fronteira como a de Santana do Livramento com Rivera, \u00e9 dif\u00edcil saber onde termina o Brasil e onde come\u00e7a o Uruguai. Entre as linhas irregulares desenhadas no mapa, h\u00e1 com\u00e9rcio ambulante, free shops e muita gente intercambiando pesos, reais e d\u00f3lares. O &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":5054,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[125,126],"tags":[],"class_list":["post-5050","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-destacados"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5050"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5050\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":5055,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5050\/revisions\/5055"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5054"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}