{"id":3982,"date":"2019-06-12T11:43:56","date_gmt":"2019-06-12T14:43:56","guid":{"rendered":"http:\/\/radiosul.net\/wp\/?p=3982"},"modified":"2019-06-12T11:43:56","modified_gmt":"2019-06-12T14:43:56","slug":"numa-tarde-de-inverno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/2019\/numa-tarde-de-inverno\/","title":{"rendered":"Numa tarde de inverno"},"content":{"rendered":"\n<p> A mem\u00f3ria humana \u00e9 altamente fal\u00edvel. J\u00e1 recorri reiteradas vezes os profundos rinc\u00f5es das lembran\u00e7as para trazer \u00e0 tona aquele fat\u00eddico encontro numa esquina de Bag\u00e9, iluminado por um l\u00e2nguido sol de inverno. Eu procurava Eron Vaz Mattos. Aquele senhor misto de lenda, de poeta, homem de campo, portador de uma rara chave com acesso ao mais rico conhecimento: a cultura regional. O encontro correu como deveria ser. Parec\u00edamos velhos amigos. O meu prop\u00f3sito era muito bem entendido por aquele a quem eu considerava \u2013 e considero \u2013 um \u00eddolo. Atento, ele escutou o que eu tinha a dizer. \u2013 \u201cTio\u201d Eron, quero escrever um livro. Penso que o mundo se transforma. Que existem novas exig\u00eancias. Que tudo aquilo que serviu de base para a constru\u00e7\u00e3o da nossa identidade est\u00e1 se perdendo. Que a cultura ga\u00facha \u00e9 muito baseada na tradi\u00e7\u00e3o oral. \u2013 Olha os exemplos dos nossos vizinhos Uruguai e Argentina. Tantas obras que valorizam as tradi\u00e7\u00f5es, o ga\u00facho. Por que n\u00e3o conseguimos seguir estes exemplos por aqui? Minhas d\u00favidas, minhas ang\u00fastias eram bem entendidas, pois, \u00e9 claro, eram as dele tamb\u00e9m. Neste momento, ganhei muitas coisas. Um exemplo, um mestre, um conselheiro, um apoiador. Naquele mesmo dia sa\u00ed com um livro em baixo do bra\u00e7o. Este, felizmente, a mem\u00f3ria ajudou a conservar! El Gaucho, documentacion e iconografia, de Horacio Jorge Becco e Carlos Dellepiane Calcena. Este livro me abriu os caminhos. Depois centenas de outras obras, viagens, museus, entrevistas, mapas, documentos&#8230;. muitas horas, dias, semanas, lendo, observando, escrevendo, apagando, riscando&#8230; at\u00e9 aquela t\u00e3o dif\u00edcil palavra, de tr\u00eas letras: Fim. Claro que ali n\u00e3o era o come\u00e7o. Tive a felicidade de crescer muito pr\u00f3ximo ao campo. Aquele cen\u00e1rio de cavalos, de gado, de tropas sempre preencheu meus pensamentos. Tive av\u00f4s campeiros. Professores. Convivi com as gentes simples que povoam a campanha. Essas viv\u00eancias sedimentaram o meu caminho. Mas depois daquele encontro, o que era um sonho distante, talvez, se tornou mais pr\u00f3ximo.. Escrever um livro, contar a nossa hist\u00f3ria. Quinze anos se passaram daquela tarde de inverno. O Influ\u00eancia ganhou nome. Ganhou o olhar m\u00e1gico de Eduardo Rocha e, atrav\u00e9s das suas lentes, materializamos \u00edndios, changadores, lanceiros que criaram vida outra vez. O projeto ganhou as ruas, as redes, o mundo. Ganhou muitos amigos, irmanados num sentimento comum: preservar nossas tradi\u00e7\u00f5es. Falamos em hist\u00f3ria. Em uma mem\u00f3ria comum. E ela \u00e9 feita de passos, de batalhas. O Projeto Influ\u00eancia trava agora uma nova luta. Com ajuda das competentes Let\u00edcia Lau e Adriana Donatto, nosso projeto foi aprovado na Lei Rouanet, o principal mecanismo de fomento \u00e0 Cultura do Brasil. Come\u00e7amos um novo caminho, a capta\u00e7\u00e3o de recursos para o financiamento do projeto. Dif\u00edcil? Certamente. Mas \u00e9 uma luta que vamos vencer. A nossa rede de apoiadores cresce. Todos, dispostos a dar voz \u00e0quelas conversas de fogo grande de galp\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Henrique Fagundes da Costa <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mem\u00f3ria humana \u00e9 altamente fal\u00edvel. J\u00e1 recorri reiteradas vezes os profundos rinc\u00f5es das lembran\u00e7as para trazer \u00e0 tona aquele fat\u00eddico encontro numa esquina de Bag\u00e9, iluminado por um l\u00e2nguido sol de inverno. Eu procurava Eron Vaz Mattos. 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