{"id":16326,"date":"2020-11-08T08:34:55","date_gmt":"2020-11-08T11:34:55","guid":{"rendered":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/?p=16326"},"modified":"2020-12-17T09:27:59","modified_gmt":"2020-12-17T12:27:59","slug":"reflexao-o-fogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/2020\/reflexao-o-fogo\/","title":{"rendered":"Reflex\u00e3o \u2013 O Fogo"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Por:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/renatoferreiramachado\/\">Renato Ferreira Machado<\/a><\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se existe um elemento natural verdadeiramente indom\u00e1vel, este elemento \u00e9 o fogo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Perigoso, com grande potencial destrutivo, o fogo \u00e9 o elemento mais transformador da natureza e seu dom\u00ednio por parte do ser humano mudou a humanidade para sempre.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Utilizado inicialmente para fazer fogueiras e iluminar a noite, trazendo maior prote\u00e7\u00e3o contra os predadores e, na sequ\u00eancia, para assar e cozinhar alimentos, pode-se afirmar que a humanidade era de um jeito antes do fogo e de outro jeito depois. Essa quest\u00e3o marca t\u00e3o fortemente nossa hist\u00f3ria que o fogo se torna um s\u00edmbolo para diferentes culturas, em todos os tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Roma antiga, por exemplo, havia o culto dom\u00e9stico aos deuses que eram chamados de <em>lares<\/em> e o sinal de devo\u00e7\u00e3o a esses deuses era uma pira que ficava permanentemente acesa dentro de casa: a <em>lareira<\/em>. Manter a <em>lareira<\/em> acesa era uma obriga\u00e7\u00e3o que passava de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o e dela dependia a honra daquela fam\u00edlia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 que nosso fogo grande, nossos fog\u00f5es, nosso fogo de ch\u00e3o, nossa chama crioula, n\u00e3o guardam pouco disso consigo?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O fogo est\u00e1 presente na hist\u00f3ria de toda humanidade, e cada cultura o interpreta de um jeito pr\u00f3prio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nestas paragens do sul, se enxerga de longe o fogo de ch\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O fog\u00e3o campeiro aquece permanentemente a \u00e1gua e acolhe o andarilho com um mate novo e uma carne assada,&nbsp; revigorando suas for\u00e7as, convidando-o para partilhar a vida e animando-o para continuar a caminhada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O fogo, na vida do ga\u00facho, \u00e9 o espelho e o esp\u00edrito que lhe mostra o passado e o desafia para o futuro, enchendo seus olhos de \u00e1gua. O fogo \u00e0s vezes \u00e9 aquele com quem o ga\u00facho conversa: o fogo fala, o fogo cala e seu calor abra\u00e7a quem est\u00e1 por perto. Quando se extingue, fica um <em>fogo morto<\/em>, que s\u00e3o as cinzas que sobram daquilo que foi queimado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A sabedoria popular ensina que n\u00e3o se deve reavivar o fogo morto, pois ele pode atrair alguma desgra\u00e7a. \u00c9 preciso acender um fogo novo, renovar a vida. Por outro lado, existe uma forte simbologia que fala das brasas dormidas, ocultas por debaixo das cinzas. Historicamente se utilizou essa met\u00e1fora diversas vezes para falar da retomada de lutas e causas que j\u00e1 se davam por perdidas. Nessas ocasi\u00f5es sempre se diz que basta uma brasa acesa para o fogo vir de novo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se n\u00e3o h\u00e1 brasa, por outro lado, pode se acender uma vela, conforme aprendemos na lenda do Negrinho do Pastoreio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesta narrativa o fogo est\u00e1 presente para iluminar o caminho do Negrinho, que procura, por exemplo, pelo baio desaparecido do patr\u00e3o. O Negrinho do Pastoreio \u00e9 uma narrativa simb\u00f3lica sobre a crueldade da escravid\u00e3o que aconteceu aqui no sul. O destino do Negrinho, que n\u00e3o ganha nome nessa lenda, \u00e9 ser devorado vivo por formigas, por puro capricho do homem que o tinha como propriedade. Mas h\u00e1 uma reden\u00e7\u00e3o para esse sofrido negrinho atrav\u00e9s de Nossa Senhora, madrinha dos sem nome, com sua luz, mais forte que a de todas as velas. O negrinho \u00e9 aquele que encontra o que se perdeu, bastando lhe oferecer a chama de uma vela. Na piedade popular se pede ao negrinho que encontre diversas coisas, mas o que ele quer encontrar \u00e9 sua dignidade, sua liberdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, o mesmo fogo que acende a vela para o negrinho pode ser motivo de temor para quem habita este lugar do continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das assombra\u00e7\u00f5es do campo mais conhecidas de nossa cultura, a M\u2019Boitat\u00e1, tamb\u00e9m est\u00e1 relacionada ao fogo. A lenda conta de uma noite grande, que come\u00e7ou com uma chuvarada que alagou tudo. Os animais subiram as coxilhas para n\u00e3o se afogarem e l\u00e1 ficaram, esperando passar a enchente. Mas a \u00e1gua n\u00e3o baixou e os animais come\u00e7aram a morrer de fome. Nisso, a Boigua\u00e7u, cobra-grande que teve sua toca inundada, saiu pelo campo para buscar comida. Encontrando as carni\u00e7as, comia seus olhos. Os olhos, que guardavam a \u00faltima luz do sol antes dele se p\u00f4r, come\u00e7aram a brilhar dentro da cobra e ela se transformou numa cobra de fogo, a M\u2019Boitat\u00e1. Com o tempo a cobra tamb\u00e9m morreu e a luz se desprendeu, fazendo o dia voltar. Mas conta-se que nas noites quentes, onde h\u00e1 carni\u00e7a, a cobra volta a procurar novos olhos para comer. Como ela prefere olhos vivos, se algu\u00e9m estiver passando por onde ela se manifestar, deve parar, fechar os olhos e ficar parado no mesmo lugar, para que a Cobra-luz n\u00e3o o veja e n\u00e3o devore seus olhos. Este mito gauchesco explica o fogo-f\u00e1tuo, fen\u00f4meno natural que ocorre com os cad\u00e1veres dos animais. E se o fogo est\u00e1 presente neste&nbsp; e em outros mitos de nossa cultura, \u00e9 porque ele se constitui em um elemento-chave para nossa vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas lendas e mitos n\u00e3o morrem com a chegada da tecnologia e do progresso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na medida em que novas tecnologias passam a fazer parte do cotidiano, tamb\u00e9m elas passam integrar nossa cosmovis\u00e3o e podem tamb\u00e9m vir a ser traduzidas em forma de met\u00e1foras. A chegada da luz el\u00e9trica no campo, por exemplo, substitui o fogo em sua fun\u00e7\u00e3o de iluminar a noite e a escurid\u00e3o em geral.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Ao mesmo tempo, por\u00e9m,&nbsp; a ades\u00e3o a novas tecnologias pode tamb\u00e9m levar a uma outra maneira de enxergar e se relacionar com a terra.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo fogo que melhorou a vida humana tamb\u00e9m pode ser utilizado para modificar a terra de formas bastante danosas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A crise ambiental, que tem nas queimadas seu mais forte s\u00edmbolo, constitui-se num problema que j\u00e1 vem de tempos, mas que ganha cada vez mais evid\u00eancia. O fogo, utilizado para derrubar matas nativas, limpa o terreno para que cres\u00e7a o pasto ou para o cultivo de monoculturas. Os ind\u00edgenas j\u00e1 utilizavam essa t\u00e9cnica, mas em escala bem menor, de maneira muito equilibrada, para plantar suas ro\u00e7as. O problema \u00e9 a propor\u00e7\u00e3o que as coisas acabaram tomando, com um crescimento das queimadas a ponto de desequilibrar o ambiente de forma dr\u00e1stica. Os efeitos s\u00e3o evidentes nas estiagens ou chuvas demasiadas, na for\u00e7a dos ventos, no desequil\u00edbrio das esta\u00e7\u00f5es.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diante disso, precisamos nos perguntar de que forma se pode progredir sem agredir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A sabedoria que nos liga \u00e0 Terra e que nasce de nossa rela\u00e7\u00e3o com ela precisa sempre estar presente em nossas decis\u00f5es, seja qual for o tempo em que vivemos. Essa sabedoria que revela a n\u00f3s o quanto a Terra e seus elementos s\u00e3o mist\u00e9rios que merecem de n\u00f3s toda rever\u00eancia e que aquilo que se manifesta na terra, como o fogo, nos mostra realidades para al\u00e9m da terra.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ou\u00e7a na \u00edntegra o programa Reflex\u00e3o:<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-spotify wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/open.spotify.com\/episode\/25BybxhjrqCmN9GboDXjtr\n<\/div><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por:\u00a0Renato Ferreira Machado Se existe um elemento natural verdadeiramente indom\u00e1vel, este elemento \u00e9 o fogo.&nbsp; Perigoso, com grande potencial destrutivo, o fogo \u00e9 o elemento mais transformador da natureza e seu dom\u00ednio por parte do ser humano mudou a humanidade para sempre.&nbsp; Utilizado inicialmente para fazer fogueiras e iluminar a noite, trazendo maior prote\u00e7\u00e3o contra &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":16328,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[717,125,126,712],"tags":[],"class_list":["post-16326","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-colunistas","category-cultura","category-destacados","category-podcast"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16326","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16326"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16326\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16329,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16326\/revisions\/16329"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/16328"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16326"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16326"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16326"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}