{"id":10936,"date":"2020-02-07T10:50:02","date_gmt":"2020-02-07T13:50:02","guid":{"rendered":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/?p=10936"},"modified":"2020-02-07T10:50:07","modified_gmt":"2020-02-07T13:50:07","slug":"festa-para-telmo-de-lima-freitas-o-guru-do-nativismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/2020\/festa-para-telmo-de-lima-freitas-o-guru-do-nativismo\/","title":{"rendered":"Festa para Telmo de Lima Freitas, o guru do nativismo"},"content":{"rendered":"\n<p> O m\u00fasico s\u00e3o-borjense Telmo de Lima Freitas completa 87 anos em 13  de fevereiro. \u00c9 dia em que recebe em sua ch\u00e1cara, em Cachoeirinha, a  visita de amigos do peito, colegas da m\u00fasica e ex-companheiros da  Pol\u00edcia Federal (PF), na qual atuou por 30 anos. A maioria n\u00e3o precisa  do pretexto de uma data para bater palmas no port\u00e3o e se aprochegar sem  medo da cachorrada amistosa. <\/p>\n\n\n\n<p> Em ocasi\u00f5es assim festivas, n\u00e3o falta um braseiro aceso nos fundos  de casa. Nem um barril de chope para alegrar os mais saudosos e  dispostos a demorar nas charlas intermin\u00e1veis do guru do nativismo. Ele  merece. <\/p>\n\n\n\n<p> A reportagem do <strong>Jornal do Com\u00e9rcio<\/strong> esteve l\u00e1\u00a0em 21  de janeiro. O dono da casa estava contente ap\u00f3s constatar que o jornal  veio \u00e0 luz no mesmo ano dele, 1933. &#8220;Estamos aqui de porteiras abertas&#8221;,  come\u00e7a ele, useiro de met\u00e1foras gauchescas. <\/p>\n\n\n\n<p> \u00c9 a mesma figura consagrada em palcos sulinos h\u00e1 d\u00e9cadas: chap\u00e9u  preto tapeado na testa, \u00f3culos claros encimando a barbona branca, len\u00e7o  verde no pesco\u00e7o, bombachas, alpargatas e a camisa c\u00e1qui &#8211; no lado  esquerdo do peito, a marca do Piquete 38, da PF, do qual \u00e9 pe\u00e3o. Ele  mostra o p\u00e9 direito inchado. A causa, explica, \u00e9 &#8220;uma neuropatia&#8221; que  lhe provoca muita dor f\u00edsica e certa afli\u00e7\u00e3o espiritual, mas n\u00e3o  desanima. Embora caminhe com dificuldade, exibe energia na voz, nos  gestos e no olhar. <\/p>\n\n\n\n<p> Como diria um comentarista esportivo ga\u00facho, Telmo de Lima Freitas  est\u00e1 animicamente muito bem. &#8220;Rezo muito&#8221;, diz ele. Reza pelos amigos,  ora pelos familiares e torce para que o Brasil pegue a trilha da  prosperidade. <\/p>\n\n\n\n<p> Chegou h\u00e1 pouco mais de 15 anos a esse recanto na divisa dos  condom\u00ednios Ch\u00e1cara das Rosas e Recanto das Hort\u00eansias. Na casa junto \u00e0  rua Aparicio Borges moram ele, a esposa Iara e a caseira Marisa. Alguns  c\u00e3es mesti\u00e7os rondam a porta da cozinha. <\/p>\n\n\n\n<p> No quintal, destacam-se uma parreira, uma mangueira e uma bau\u00ednia  cheia de flores brancas. Pombinhas catam quirera no terreiro. No final  da tarde v\u00eam os cardeais. Perto da noite, passa pulando de galho em  galho um casal de jacus. <\/p>\n\n\n\n<p> No terreno ao lado, vive sossegada uma tordilha, regalo dos olhos  do patr\u00e3o, que n\u00e3o monta mais, mas mant\u00e9m o gosto de amanunci\u00e1-la. Outro  dia, a \u00e9gua se assustou e lhe deu um encontr\u00e3o. Telmo foi ao ch\u00e3o, Iara  junto. Desde ent\u00e3o, sente que a queda lhe afetou uma das cordas vocais.  Quem escuta seu vozeir\u00e3o n\u00e3o nota a diferen\u00e7a. <\/p>\n\n\n\n<p> Visitantes v\u00e3o direto aos fundos do terreno, dominado por um galp\u00e3o  onde se misturam bancos, cepos e utens\u00edlios rurais de couro, l\u00e3, osso,  madeira e ferro. S\u00e3o bu\u00e7ais, facas, espadas, freios, la\u00e7os, chicotes,  mangos, rebenques e relhos. Uns feitos por ele, outros comprados ao  longo de suas andan\u00e7as. <\/p>\n\n\n\n<p> A primeira coisa que mostra \u00e9 a garrafa t\u00e9rmica revestida pelo  couro do saco escrotal de um touro. A cuia tamb\u00e9m tem prote\u00e7\u00e3o similar.  Em seguida, ele exibe um chap\u00e9u tran\u00e7ado com finas tiras de couro, obra  do cacique caigangue Aristides, j\u00e1 falecido. <\/p>\n\n\n\n<p> Depois, mostra um sacol\u00e3o feito do couro inteiri\u00e7o de um animal.  Bezerro? Capivara? Cervo? Rat\u00e3o do banhado? Nada disso. &#8220;Le\u00e3o baio&#8221;,  afirma. Usou a pe\u00e7a, muitas vezes, em palestras sobre sua vida de pe\u00e3o,  soldado, tropeiro, enfermeiro, m\u00fasico e policial. Sempre que convidado,  gosta de falar, sobretudo para jovens. Acredita que eles merecem ser  orientados para ser felizes sem recorrer a drogas ou apelar para a  viol\u00eancia. <\/p>\n\n\n\n<p> Por gestos e palavras, o anfitri\u00e3o vai colocando as visitas \u00e0  vontade. Mostra o cabo da bengala, um chifre de carneiro que lhe  proporciona firme empunhadura. Apontando a bengala para o rec\u00e9m-chegado,  ordena: &#8220;Puxa!&#8221;. Ao obedecer, o interlocutor se v\u00ea na ponta de uma  l\u00e2mina com meio metro de a\u00e7o. Uau! Eventualmente, como em certos filmes,  a bengala \u00e9 uma arma. N\u00e3o neste pacato reduto de Cachoeirinha, 130 mil  habitantes, uma das menores cidades da Grande Porto Alegre. <\/p>\n\n\n\n<p> No corredor do galponete, estendido no ch\u00e3o feito tapete, h\u00e1 um  couro bovino que Telmo promete transformar numa pelota igual \u00e0s feitas  dois s\u00e9culos atr\u00e1s pelos \u00edndios de Pelotas para transpor rios com os  apetrechos de um tropeiro. Sempre falando s\u00e9rio, o dono do galp\u00e3o diz  que s\u00f3 n\u00e3o fez o tal artesanato de couro porque ainda n\u00e3o se recuperou  totalmente de uma cirurgia vascular sofrida em meados de 2019, ano em  que andou t\u00e3o aperreado que nem se lembrou de festejar os 40 anos de sua  memor\u00e1vel vit\u00f3ria na Calif\u00f3rnia da Can\u00e7\u00e3o Nativa em dezembro de 1979. <\/p>\n\n\n\n<p> Ningu\u00e9m esqueceu: <em>Esquilador<\/em> (&#8220;Quando \u00e9 tempo de tosquia\/  j\u00e1 clareia o dia com outro sabor\/ as tesouras cortam em um s\u00f3 compasso\/  enrijecendo o bra\u00e7o do esquilador&#8221;) virou um cl\u00e1ssico do cancioneiro  regional por expressar n\u00e3o apenas a viv\u00eancia rural do autor, mas sua  habilidade no manejo da gaita de 8 baixos, sua mais antiga companheira,  m\u00e3e de alguns dos sons mais r\u00fasticos e primitivos do cancioneiro  nativista. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Dorival Caymmi do Pampa <\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ma210120_telmo189-8955584.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10939\" srcset=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ma210120_telmo189-8955584.jpg 800w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ma210120_telmo189-8955584-300x200.jpg 300w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ma210120_telmo189-8955584-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption> O compositor com o music\u00f3logo Daniel Tavares, que o comparou a Dorival Caymmi <br>MARCO QUINTANA\/JC <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> No dia da visita do <strong>Jornal do Com\u00e9rcio<\/strong>  ao m\u00fasico missioneiro residente em Cachoeirinha, estava l\u00e1 o music\u00f3logo  Daniel Tavares, que nasceu em Viam\u00e3o, formou-se em viol\u00e3o cl\u00e1ssico na  Ufrgs e mora no Rio de Janeiro, onde leciona m\u00fasica. Amigo da casa, ele  tem licen\u00e7a para folhear as agendas em que o poeta rascunha poemas e  can\u00e7\u00f5es. &#8220;S\u00e3o 14 agendas cheias de versos&#8221;, revela. Telmo abre uma  delas, focaliza uma letra e, estendendo a m\u00e3o, pede: &#8220;Vamos, Daniel, r\u00e9  maior!&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p> Animado pelo som do sete-cordas  fabricado por Alfredo Morais, artes\u00e3o em Porto Alegre, o compositor  solta a voz, m\u00e3o batendo na perna, em busca do compasso certo. Ele se  inflama, canta um pouco e confessa: &#8220;Escrevo todo dia. Sonho muito,  acordo no meio da noite e anoto pra n\u00e3o esquecer o sonho, a ideia ou o  que seja. No dia seguinte, passo a limpo, componho os versos e, se for o  caso, fa\u00e7o a m\u00fasica&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p> Mesmo mantendo o timbre forte semelhante  ao do cearense Belchior, Telmo j\u00e1 n\u00e3o se disp\u00f5e a gravar. N\u00e3o \u00e9 por  falta de convites. Ele acha que o mundo da m\u00fasica foi baratinado pela  parafern\u00e1lia eletr\u00f4nica, do que resultou &#8220;tanto artista passando fome  por a\u00ed&#8221;. Por isso ele gosta de autorizar amigos a gravar suas can\u00e7\u00f5es.  H\u00e1 algum tempo, o tradicional Porca V\u00e9ia lhe pediu para gravar a valsa  Lembran\u00e7as. <\/p>\n\n\n\n<p> J\u00e1 o parceiro Luiz Carlos Borges gravou 17 can\u00e7\u00f5es suas em <em>Jaguaret\u00eas<\/em>,  um CD primoroso, editado em fins de 2018. Entre os m\u00fasicos  participantes da grava\u00e7\u00e3o, estava o percussionista Kiko Freitas, um dos  quatro filhos de Telmo (os outros s\u00e3o Ana, Ione e L\u00facio) &#8211; herdeiros de  um tesouro de dimens\u00f5es incalcul\u00e1veis. <\/p>\n\n\n\n<p> Por conhecer bastante desse acervo,  Daniel Tavares concluiu que &#8220;Telmo est\u00e1 para o Rio Grande do Sul como  Dorival Caymmi est\u00e1 para a Bahia&#8221;. Foi o que disse em 2015 num congresso  sobre m\u00fasica e dan\u00e7a em Aveiro, Portugal: enquanto Caymmi cantou a vida  dos pescadores baianos, Telmo narra com autenticidade os costumes dos  ga\u00fachos rurais. Quanto a isso, ficou uma frase do folclorista Paix\u00e3o  C\u00f4rtes: &#8220;Telmo n\u00e3o precisa falar sobre a cultura tradicional ga\u00facha. Ele  \u00e9 a pr\u00f3pria&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Sina de ca\u00e7ula de fam\u00edlia pobre<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"449\" src=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/pan_telmo_de_lima_freitas_com_luiz_carlos_borges_2018_foto_andressa_camargo-8970405.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10942\" srcset=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/pan_telmo_de_lima_freitas_com_luiz_carlos_borges_2018_foto_andressa_camargo-8970405.jpg 800w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/pan_telmo_de_lima_freitas_com_luiz_carlos_borges_2018_foto_andressa_camargo-8970405-300x168.jpg 300w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/pan_telmo_de_lima_freitas_com_luiz_carlos_borges_2018_foto_andressa_camargo-8970405-768x431.jpg 768w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/pan_telmo_de_lima_freitas_com_luiz_carlos_borges_2018_foto_andressa_camargo-8970405-390x220.jpg 390w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption> Telmo de Lima Freitas com o gaiteiro Luiz Carlos Borges, que gravou 17 can\u00e7\u00f5es do compositor no \u00e1lbum Jaguaret\u00eas, lan\u00e7ado em 2018 <br>ACERVO JUAREZ FONSECA\/DIVULGA\u00c7\u00c3O\/JC <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> Telmo de Lima Freitas foi o ca\u00e7ula de 10  irm\u00e3os. Criou-se numa chacrinha comandada pela m\u00e3e Mariana, costureira,  enquanto o pai, Leonardo, dava expediente no 2\u00ba Regimento de Cavalaria  de S\u00e3o Borja, no qual se aposentou como tenente. Orgulha-se de ter sido  amamentado por Erc\u00edlia, vizinha negra que supriu a escassez de leite  materno para a 10\u00aa cria. Desde pequeno, acompanhou os irm\u00e3os em tarefas  rurais, como capinar e cuidar de cria\u00e7\u00f5es. Para se distrair, ganhou um  viol\u00e3o, no qual aprendeu a tocar as modas de Alvarenga e Ranchinho,  Tonico &amp; Tinoco. Sempre gostou de polca paraguaia, cujo andamento se  confunde com a guar\u00e2nia e at\u00e9 com o chamam\u00e9. <\/p>\n\n\n\n<p> Na adolesc\u00eancia, interessou-se por uma  gaita largada por amigos no galp\u00e3o da chacrinha, na \u00e9poca que come\u00e7ava a  fazer sucesso o gaiteiro Pedro Raymundo. &#8220;Pra tocar bem, tu precisas  enterrar as m\u00e3os num formigueiro e cantar at\u00e9 o fim uma m\u00fasica do teu  gosto&#8221;, disse-lhe Erc\u00edlia, a ama de leite. Cantando a famosa <em>Ciganinha<\/em>,  cumpriu o trote (&#8220;simpatia&#8221;, segundo a vizinha) que lhe deixou as m\u00e3os  vermelhas, marco zero de uma carreira como gaiteiro de galp\u00e3o, baile,  palco e disco. Carreira genuinamente constru\u00edda sobre viv\u00eancias: &#8220;S\u00f3  escrevo sobre o que eu conhe\u00e7o. Pra falar a verdade, nem gosto muito de  ler coisas alheias pra n\u00e3o correr o risco de praticar um pl\u00e1gio&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p> Quando algu\u00e9m lhe conta uma hist\u00f3ria  interessante, ele a registra e anota o nome da fonte, na esperan\u00e7a de  que o tempo lhe diga se o causo \u00e9 fato ou lorota. Enquanto isso, d\u00ea-lhe  verso: &#8220;Meu parceiro \u00e9 um preto velho que nunca me abandonou&#8221;, diz,  citando uma de suas mais antigas convic\u00e7\u00f5es. Possui tamb\u00e9m cren\u00e7as  po\u00e9ticas que afloram em noites de ins\u00f4nia: &#8220;Sou filho da lua nova e neto  da lua cheia&#8221;. Faz met\u00e1foras gauchescas: &#8220;Levo nas minhas esporas\/ O  que o galo me ensinou&#8221;. E adverte: &#8220;N\u00e3o existe valente\/ Que ganha  sempre&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p> D\u00e1-lhe gosto puxar da mem\u00f3ria as  lembran\u00e7as mais remotas. Eis uma hist\u00f3ria at\u00e9 agora n\u00e3o registrada nos  anais da m\u00fasica nativista: &#8220;Comecei como &#8216;verdureiro'&#8221;, conta Telmo,  esclarecendo que &#8216;verdureiro&#8217; era o apodo aplicado aos guris incumbidos  do trabalho mais ch\u00e3o nas fainas de tosa ovina, na fronteira. No calor\u00e3o  dos ver\u00f5es da campanha ga\u00facha, cabia-lhe recolher as bolotinhas de  esterco das ovelhas submetidas \u00e0 esquila numa \u00e1rea que precisava ser  mantida limpa, em defesa da qualidade da l\u00e3. Ainda bem que a tarefa  ecol\u00f3gica se cumpria \u00e0 sombra de cinamomos, eucaliptos e umbus. <\/p>\n\n\n\n<p> Na famosa can\u00e7\u00e3o premiada, que descreve o  trabalho da comparsa (&#8220;Um descascarreia, outro j\u00e1 maneia e vai  levantando para o tosador&#8221;), n\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia \u00e0 atividade original do  catador de bosta de ovelha. Em outra can\u00e7\u00e3o, no entanto, Telmo sa\u00fada o  amigo Julio Machado, cuja comparsa ficou famosa em Uruguaiana ao  tosquiar 102 ovelhas num dia &#8211; n\u00e3o com a m\u00e1quina el\u00e9trica dos tempos  modernos, mas com a primitiva ferramenta manual, chamada de  tesoura-martelo por fazer um ru\u00eddo met\u00e1lico (tec tec tec) durante a  tosa. Numa parede do seu galp\u00e3o, Telmo mant\u00e9m v\u00e1rias tesouras penduradas  em pregos. S\u00e3o como trof\u00e9us que servem ainda para ilustrar hist\u00f3rias  sobre a evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica da ovinocultura. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">De agente federal treinado nos EUA a bolicheiro de Barbosa Lessa<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ma210120_telmo261-8955592.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10941\" srcset=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ma210120_telmo261-8955592.jpg 800w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ma210120_telmo261-8955592-300x200.jpg 300w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/ma210120_telmo261-8955592-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption> O guru do nativismo em seu galp\u00e3o na ch\u00e1cara em Cachoeirinha <br>MARCO QUINTANA\/JC <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> Por viver trabalhando em est\u00e2ncias e  lavouras, o jovem Telmo chegou \u00e0 idade do servi\u00e7o militar sem ter ido  al\u00e9m do curso secund\u00e1rio, mas deixou o quartel de S\u00e3o Borja como cabo.  Em busca de novos horizontes, chegou a passar uma temporada em Goi\u00e1s,  onde ajudou um amigo a implantar uma fazenda de gado. &#8220;Isso foi antes de  Bras\u00edlia&#8221;, ressalta o gaud\u00e9rio. <\/p>\n\n\n\n<p> De volta \u00e0 quer\u00eancia, engrenou por nove  anos como auxiliar de enfermagem. Prestava servi\u00e7o num posto do antigo  Samdu (Servi\u00e7o de Assist\u00eancia M\u00e9dica Domiciliar e de Urg\u00eancia) em Porto  Alegre quando foi convidado para se tornar funcion\u00e1rio da Pol\u00edcia  Federal (PF). &#8220;Convite, n\u00e3o concurso&#8221;, ressalva. Corria o ano de 1964. O  major autor do convite achou gra\u00e7a quando o ex-cabo, aos 31 anos, disse  que, antes de aceitar, precisava ir a S\u00e3o Borja para conversar com a  m\u00e3e vi\u00fava. Explicou ao major: n\u00e3o precisava de licen\u00e7a, s\u00f3 queria a  b\u00ean\u00e7\u00e3o materna, era um costume de fam\u00edlia. <\/p>\n\n\n\n<p> Ap\u00f3s um curso em Bras\u00edlia, ao lado de  uma dezena de ga\u00fachos, estudou em Washington, onde foi aluno de  instrutores do departamento de narc\u00f3ticos do governo norte-americano,  que vinha ditando as regras e oferecendo verbas para \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a  de todo o continente. Para dar conta da nova carreira, encostou o  instrumento com que ganhara, no final da d\u00e9cada 1950, o t\u00edtulo de melhor  gaiteiro do Grande Rodeio Coringa, o programa de maior audi\u00eancia do  r\u00e1dio ga\u00facho, mantido pela Farroupilha. <\/p>\n\n\n\n<p> Atuando principalmente como agente da  Interpol na fronteira ga\u00facha, o compositor prestou servi\u00e7o em v\u00e1rios  setores da PF. Por seu pendor art\u00edstico e vi\u00e9s tradicionalista, passou a  ser requisitado para acompanhar autoridades e t\u00e9cnicos em eventos  culturais. &#8220;Andei muito pelo Rio Grande e at\u00e9 para fora com os  folcloristas Paix\u00e3o C\u00f4rtes e Barbosa Lessa&#8221;, diz. <\/p>\n\n\n\n<p> Nessa mescla de trabalho e divertimento, tornou-se amigo do autor do <em>Negrinho do pastoreio<\/em> e <em>Quero-quero<\/em>.  &#8220;Quando voltou para o Estado, em meados dos anos 1970, Lessa foi  trabalhar na Epatur (empresa de turismo da prefeitura de Porto Alegre)  e, em todo evento, montava um bolicho para ganhar uns pilas&#8221;, conta  Telmo, revelando que, muitas vezes, por cren\u00e7a ou farra, atuou como  bolicheiro na tenda do inventor do tradicionalismo ga\u00facho. De um modo ou  de outro, estava contribuindo para divulgar a cultura da sua terra. Foi  o que o ajudou a descontar o atraso com que largara na carreira  musical. <\/p>\n\n\n\n<p> No in\u00edcio da vida como funcion\u00e1rio  federal, ele n\u00e3o podia receber nenhum provento extra, tanto que duas de  suas primeiras composi\u00e7\u00f5es &#8211; <em>Baile de rancho<\/em> e <em>Roubo da gaita velha<\/em>  &#8211; foram gravadas pelo cantor emergente Jos\u00e9 Mendes (1939-1974),  devidamente autorizado pela esposa de Telmo. Al\u00e9m de alavancar a fugaz  carreira do cantor-espelho do \u00eddolo Teixeirinha, a hist\u00f3ria da gaita  velha revelaria o talento do poeta s\u00e3o-borjense no manejo das palavras. <\/p>\n\n\n\n<p> Na letra em que apela pela devolu\u00e7\u00e3o do  instrumento roubado num com\u00e9rcio de carreiras, detalha: &#8220;Tinha o som de  abelha mestra\/ Trabalhando nas colmeias.\/ Tinha dezenove teclas\/ Oito  baixos de bot\u00e3o\/ Um torniquete do lado\/ Pra diminuir o assopr\u00e3o\/ Quando  eu puxava ela toda\/ Media o meio da sala\/ Mostrando furos e rombos\/ E  alguns buracos de bala&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p> Anos depois, revogada a restri\u00e7\u00e3o, Telmo come\u00e7ou sua tardia carreira discogr\u00e1fica. O primeiro disco (<em>O canto de Telmo de Lima Freitas<\/em>) saiu em 1973, insuflado pela <em>Prece ao minuano<\/em>,  can\u00e7\u00e3o premiada em segundo lugar na Calif\u00f3rnia de 1971. A prece foi  gravada por Paix\u00e3o C\u00f4rtes e Rolandro Boldrin, entre outros. <\/p>\n\n\n\n<p> Meio s\u00e9culo depois, Telmo diz que perdeu  a conta das can\u00e7\u00f5es que comp\u00f4s, dos discos que gravou e das m\u00fasicas que  licenciou para execu\u00e7\u00e3o de terceiros. Tampouco faz quest\u00e3o de saber,  porque, assegura, doa a entidades os proventos oriundos da arte, pois  acredita que &#8220;n\u00e3o \u00e9 direito ganhar dinheiro com um dom dado por Deus&#8221;,  como disse certa vez em palestra na Academia Wolf. <\/p>\n\n\n\n<p> Feliz com o reconhecimento que orna sua  obra, vive basicamente da aposentadoria como agente federal de pol\u00edcia,  sua atividade de sobreviv\u00eancia at\u00e9 1994. Se deixou a fun\u00e7\u00e3o, nunca p\u00f4s  de lado os h\u00e1bitos adquiridos na corpora\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p> Foi assim que passou a mesclar suas  apresenta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas com palestras em CTGs e escolas sobre as  contradi\u00e7\u00f5es da modernidade que atormentam jovens e adultos. A\u00ed entra um  dos assuntos que mais conhece &#8211; o tr\u00e1fico de narc\u00f3ticos e o mercado da  drogadi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p> No final dessas charlas, &#8220;sempre v\u00eam  dois ou tr\u00eas dizendo que gostariam de se libertar do v\u00edcio&#8221;. A sa\u00edda n\u00e3o  \u00e9 f\u00e1cil, alerta o velho agente da lei: &#8220;Os jovens precisam ser ajudados  com informa\u00e7\u00e3o e apoio. Se n\u00e3o conhecem as coisas, como v\u00e3o descobrir o  caminho certo?&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p> Para um deles, &#8220;engraxate emergencial\/  Abra\u00e7ado com o medo\/ sem escola\/ Sem rem\u00e9dio\/ sem nenhum caminho seu&#8221;,  escreveu a letra de <em>Ciranda<\/em>, uma can\u00e7\u00e3o (ainda n\u00e3o gravada) que  termina com uma interroga\u00e7\u00e3o comum nos arrabaldes brasileiros: &#8220;O que  far\u00e1 aquela turma da esquina\/ Marionetes sem brinquedo\/ Depois que a  noite cair?&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Criando &#8216;uns bichinhos&#8217; em Glorinha<\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"600\" src=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/pan_telmo_de_lima_freitas_por_joao_sampaio-8970418.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10943\" srcset=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/pan_telmo_de_lima_freitas_por_joao_sampaio-8970418.jpg 800w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/pan_telmo_de_lima_freitas_por_joao_sampaio-8970418-300x225.jpg 300w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/pan_telmo_de_lima_freitas_por_joao_sampaio-8970418-768x576.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption> A polca A\u00e7ougueiro, do disco A mesma fu\u00e7a (2013), ganhador de dois pr\u00eamios A\u00e7orianos, \u00e9 dedicada ao sogro carneador <br>JO\u00c3O SAMPAIO\/DIVULGA\u00c7\u00c3O\/JC <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> Telmo se mudou para Cachoeirinha para  ficar perto da fam\u00edlia de Iara, sua mulher. O pai dela, conhecido como  Z\u00e9 Grande, era a\u00e7ougueiro na vizinha Glorinha, t\u00e3o competente no of\u00edcio  que se tornou fornecedor de bifes j\u00e1 cortados para a cozinha da Varig,  &#8220;nos bons tempos da Panair&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p> Em sua homenagem, o compositor lhe dedicou a polca <em>A\u00e7ougueiro<\/em>, gravada no disco <em>A mesma fu\u00e7a<\/em>  (2013), ganhador de dois pr\u00eamios A\u00e7orianos. &#8220;Ele cortava 500 bifes numa  velocidade&#8221;, lembra Telmo, cujos versos descrevem a habilidade do  sogr\u00e3o: &#8220;S\u00f3 vendo com que destreza\/ Sangra, coureia e desmancha.\/ E  segue pedindo cancha\/ A munheca do Z\u00e9 Grande&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<p> Com a morte do grande carneador, Telmo  passou a tomar conta da pequena propriedade familiar de Glorinha, onde,  por custeio e entretenimento, orienta a cria\u00e7\u00e3o de &#8220;uns bichinhos&#8221;. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Tem fogo, amigo? <\/h4>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"533\" src=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/F_0000264810-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10944\" srcset=\"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/F_0000264810-1.jpg 800w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/F_0000264810-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-content\/uploads\/2020\/02\/F_0000264810-1-768x512.jpg 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><figcaption> M\u00fasico s\u00e3o-borjense recorda do Centro de Cultura Ga\u00facha Pito Aceso, onde aprendeu a dan\u00e7ar <br>GABRIELA DI BELLA\/ARQUIVO\/JC <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p> Telmo de Lima Freitas recorda o Centro  de Cultura Ga\u00facha Pito Aceso, criado em S\u00e3o Borja por Pedro Caldeira da  Silva (1885-1970) na \u00e9poca em que surgia em Porto Alegre o pioneiro 35  CTG, fundado em abril de 1948 por um grupo de estudantes do Col\u00e9gio  Julio de Castilhos. <\/p>\n\n\n\n<p> Enquanto o 35 inspirou a funda\u00e7\u00e3o de  centenas de clubes de dan\u00e7as ga\u00fachas no Brasil e em outros pa\u00edses, o  centro s\u00e3o-borjense desapareceu, e sua exist\u00eancia n\u00e3o consta da hist\u00f3ria  do cetegismo. Mas foi l\u00e1 que o adolescente Telmo aprendeu a dan\u00e7ar ao  lado de outros jovens. <\/p>\n\n\n\n<p> Aos domingos, o centro (que funcionando  em \u00e1rea do antigo T\u00eanis Clube) ministrava aulas sobre a confec\u00e7\u00e3o de  cangas, a feitura de la\u00e7os e outras pr\u00e1ticas da vida ga\u00facha, inclusive o  preparo do chimarr\u00e3o &#8211; tudo voltado para jovens. Num arroubo de  brabeza, Telmo pergunta: &#8220;Mas onde estavam os tradicionalistas que nada  fizeram para salvar o Pito Aceso? E cad\u00ea a mem\u00f3ria de sua exist\u00eancia?&#8221;.  Para ele, os CTGs se tornaram mais comerciais do que culturais. <\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Letra da c\u00e9lebre can\u00e7\u00e3o Esquilador<\/h4>\n\n\n\n<p><em>&#8220;Quando \u00e9 tempo de tosquia j\u00e1 clareia o dia com outro saborAs tesouras cortam em um s\u00f3 compasso enrijecendo o bra\u00e7o do esquiladorUm descascarreia, o outro j\u00e1 maneia e vai levantando para o tosadorAvental de estopa, faixa na cintura e um gole de pura pra espantar o calor\u00a0Alma branca igual ao velo, tosando a martelo quase envelheceuHoje perguntando para a pr\u00f3pria vida pr&#8217;onde foi a lida que ele conheceuQuase um pesadelo, arrepia o pelo do couro curtido do esquiladorAo cambiar de sorte levou cimbrona\u00e7o ouvindo o compasso tocado a motor\u00a0A vida disfar\u00e7a lembrando a comparsa quando alinhavava o seu pr\u00f3prio ch\u00e3oEnvidou os pagos numa s\u00f3 parada, 33 de espada, mas perdeu de m\u00e3oNesta vida guapa vivendo de inhapa, vai voltar aos pagos para remo\u00e7arQuem vendeu tesouras na ilus\u00e3o povoeira, volte pra fronteira para se encontrarVolte pra fronteira para se encontrar&#8221;<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><strong>Fonte: Jornal do Com\u00e9rcio<\/strong><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O m\u00fasico s\u00e3o-borjense Telmo de Lima Freitas completa 87 anos em 13 de fevereiro. \u00c9 dia em que recebe em sua ch\u00e1cara, em Cachoeirinha, a visita de amigos do peito, colegas da m\u00fasica e ex-companheiros da Pol\u00edcia Federal (PF), na qual atuou por 30 anos. A maioria n\u00e3o precisa do pretexto de uma data para &hellip;<\/p>\n","protected":false},"author":9,"featured_media":10937,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_monsterinsights_skip_tracking":false,"_monsterinsights_sitenote_active":false,"_monsterinsights_sitenote_note":"","_monsterinsights_sitenote_category":0,"_uf_show_specific_survey":0,"_uf_disable_surveys":false,"footnotes":""},"categories":[125,126],"tags":[],"class_list":["post-10936","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cultura","category-destacados"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10936","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/users\/9"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10936"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10936\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10945,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10936\/revisions\/10945"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10937"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10936"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10936"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/radiosul.net\/wp\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10936"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}