Chuvas comprometem qualidade do trigo e afetam mercado no RS

As chuvas frequentes durante a colheita do trigo no Rio Grande do Sul estão comprometendo a qualidade dos grãos e afetando a comercialização do cereal. A redução do peso hectolitro (PH), a germinação dos grãos e outros danos causados pelo excesso de umidade dificultam o atendimento às exigências da indústria moageira. O problema ocorre em uma safra já marcada pela redução da área plantada e cuja produção deve cair 37,5% em relação ao ano passado.

Segundo o Informativo Conjuntural da Emater/RS-Ascar de 29 de outubro, a colheita havia alcançado 34% da área cultivada, enquanto 44% das lavouras estavam em maturação. As precipitações persistentes dificultam o avanço das máquinas e aumentam o risco de perdas de produtividade e qualidade. A produção gaúcha está estimada em 2,16 milhões de toneladas, diante de 3,46 milhões em 2025.

O especialista em inteligência de mercado da Safras & Mercado, Thiago Oleto, observa que o problema não se restringe ao Rio Grande do Sul. No Paraná, onde a colheita já estava praticamente concluída, as chuvas também comprometeram a classificação dos grãos. Em São Paulo, temporais provocaram perdas expressivas nas lavouras. A combinação desses fatores reduz a disponibilidade de trigo com características adequadas à fabricação de farinha, mesmo quando há produto no mercado.

“Se falta trigo bom, sobra trigo ruim“, resume Oleto. Segundo ele, os problemas de qualidade estão ampliando a diferença de preços entre os lotes. Enquanto o trigo adequado à panificação encontra compradores dispostos a pagar mais, aquele que não atende às exigências dos moinhos sofre descontos e precisa buscar outros mercados. Em determinadas operações, o trigo entregue à indústria está custando entre 30% e 40% mais do que no ano passado. Essa valorização, porém, não chega necessariamente ao produtor, sobretudo quando o cereal colhido apresenta problemas de classificação.

A dificuldade de encontrar trigo adequado à moagem também reforça a necessidade de importações. A Safras & Mercado projeta que o Brasil precisará comprar 9,75 milhões de toneladas do cereal no exterior durante a safra 2026/2027, acima dos 9 milhões de toneladas mencionados pela Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo). Segundo Oleto, o volume poderá chegar a 10,5 milhões de toneladas caso se agravem as perdas nas lavouras do Paraná e do Rio Grande do Sul. A Argentina permanece como principal fornecedora do mercado brasileiro.

Levantamento elaborado pelo engenheiro-agrônomo Célio Alberto Colle, doutor em Economia e responsável pela área de crédito rural e gestão agrícola da Emater/RS-Ascar, ajuda a dimensionar esse contraste. Apesar da quebra de produção, o Rio Grande do Sul deverá colher cerca de 2,7 vezes seu consumo anual de trigo, estimado em 800 mil toneladas.

O excedente potencial de 1,36 milhão de toneladas poderá abastecer moinhos de outros estados ou seguir para exportação, mas sua destinação dependerá da qualidade dos lotes. O trigo adequado à panificação encontra compradores que remuneram melhor, enquanto grãos inferiores podem ser destinados à fabricação de biscoitos ou à alimentação animal.

No Estado, a área destinada à cultura recuou de 1,16 milhão para 763,1 mil hectares, queda de 34,6%, conforme a Emater. A retração já era esperada desde o plantio, diante dos preços baixos, dos custos elevados e da preocupação dos produtores com os riscos climáticos. A produtividade média está projetada em 2.833 quilos por hectare, mas o resultado ainda depende das condições até o encerramento da colheita.

A situação também pressiona a rentabilidade. De acordo com Colle, ao preço médio de R$ 73,69 por saca registrado em 22 de outubro, lavouras conduzidas com alta tecnologia precisam produzir aproximadamente 2.930 quilos por hectare para cobrir os custos. O rendimento médio estadual projetado, porém, está abaixo desse patamar. Além disso, apenas 17% da área cultivada conta com cobertura de Proagro ou seguro rural.

Canola amplia produção e atrai interesse da indústria

Enquanto o trigo enfrenta dificuldades, a canola amplia sua participação na safra de inverno gaúcha. A área cultivada passou de 174,4 mil para 379,9 mil hectares, crescimento de 117,8%, conforme a Emater/RS-Ascar. A produção está estimada em 508,9 mil toneladas, avanço de 78,3% sobre 2025, apesar das perdas provocadas pelas condições climáticas.

No levantamento de 29 de outubro, a colheita da oleaginosa havia alcançado 65% da área, enquanto outros 31% estavam em maturação. A produtividade esperada foi reduzida de 1.619 para 1.340 quilos por hectare em relação à estimativa inicial. Chuvas intensas, granizo e ventos fortes provocaram perdas localizadas, incluindo casos de lavouras com rendimento muito abaixo do esperado.

Para Oleto, da Safras, a expansão da canola está associada à busca dos agricultores por alternativas ao trigo e ao interesse crescente da indústria de óleos vegetais e biodiesel. A demanda industrial vem oferecendo condições comerciais atrativas. Na região de Ijuí, o analista menciona preços próximos de R$ 135 por saca, além de negociações com prêmios de 5% a 10%. O cenário ajuda a explicar o avanço da oleaginosa, mesmo em uma safra marcada por perdas de produtividade.

Trigo no Rio Grande do Sul — últimas cinco safras

SafraÁrea (ha)Produção (t)Produtividade (kg/ha)
20221.474.364  5.299.994 3.595
20231.505.807  2.620.493 1.751
20241.322.167  3.754.159 2.839
20251.166.163  3.458.083 2.968
2026* 763.121  2.161.922 2.833

*Estimativa
Fonte: Emater-RS/Ascar

Fonte: Jornal do Comércio

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