
Crônicas Do Reflexão – Morte, Memória e Saudade
O dia 02 de novembro, o Dia de Finados, carrega consigo uma série de significados que remetem a tradições e rituais religiosos diversos, mas, sobretudo, ao entendimento de nossa própria humanidade. Antes de haver uma data fixa, os cristãos rezavam pelos seus mortos em diferentes épocas do ano, geralmente no terceiro dia após o sepultamento ou no aniversário de falecimento. A unificação da data ocorreu no ano de 998 d.C., quando Santo Odilo, abade francês, determinou que todos os mosteiros da sua ordem na França dedicassem o dia 2 de novembro à oração pelas almas. Inicialmente a denominação desta data era chamada de “Dia de todas as Almas”. Mais tarde, em 1311, a data foi implantada por Roma em todo mundo católico como Dia de Finados. Séculos depois, este é um dia que mobiliza milhares de pessoas em celebrações e visitações a cemitérios, lembrando dos entes queridos que já faleceram.
O que isso significa para nós, hoje?
O grande drama do ser humano é a consciência sobre a própria finitude. Estamos vivos e sabemos que vamos morrer um dia. Hoje somos. Amanhã já não mais seremos. Diante disso, a grande questão que surge é sobre o sentido de viver esta vida finita, que se desgasta a cada dia. O fenômeno religioso vai surgir exatamente desta inquietação existencial: sabendo-se finito, o ser humano se lança ao infinito, transcendendo os próprios limites vitais. Historicamente isso se desdobrará em diversas tradições religiosas. Cada uma, à sua maneira buscará responder à pergunta sobre o sentido da vida diante da morte.
Muito mais do que estabelecer se existe ou não vida após a morte, as tradições religiosas se constituem espaços de compreensão do viver em função de algo maior do que a vida biologicamente compreendida. Isso será simbolizado em rituais, narrativas e, sobretudo, em atitudes. A partir disso, o que acaba respondendo à pergunta sobre a vida diante da morte não é mais uma afirmativa, mas outra pergunta: em função de que eu vivo? Ou seja: viver ultrapassa os limites da finitude corporal na medida em que o campo relacional, por exemplo, amplia a compreensão da existência. E aqui chegamos a um ponto de reencontro com a primeira ideia deste texto: se vivemos conscientes da nossa finitude, apenas conseguimos nos estabelecer na vida porque contamos com a presença de outras pessoas junto de nós. Muitas dessas pessoas, responsáveis por nos tornarmos quem estamos nos tornando, já não estão mais vivas fisicamente, mas continuam vivendo como memória. Memória essa que não é uma simples lembrança do passado, mas referência que permite a cada um reconhecer seu próprio rosto ao se olhar no espelho.
Ao pensarmos no campo da cultura e da arte, por exemplo, lembraremos de pessoas que deixaram enormes legados, influenciando gerações que vieram depois de seu tempo de vida na terra. No campo da música regionalista do Rio Grande do Sul, facilmente recordaremos de artistas como Pedro Ortaça, Bagre Fagundes, Ricardo Martins e Tasso Bangel, apenas para lembrar de alguns que faleceram em 2026. Essa recordação, como dissemos anteriormente, vai além de uma simples lembrança: é memória viva, que constitui nossa cultura e alimenta de inspirações esta vida breve, mas cheia de significados.
Por isso, 02 de novembro, o Dia de Finados, ainda que traga a dor da perda de pessoas que amamos, é uma data que se reveste também de um compromisso: não deixar que estas pessoas sejam esquecidas. O esquecimento, este sim, é aniquilação existencial. Para mantermos viva a memória amorosa destes entes queridos, portanto, nos permitamos viver o sentimento que nos mantém próximo deles e que pode nos inspirar a seguir em sua presença de maneira transcendente: a saudade!

