Vinhedo em São José dos Ausentes aposta em terroir dos cânions
Um investimento de aproximadamente R$ 2,5 milhões busca transformar as condições particulares de solo e clima dos cânions de São José dos Ausentes, nos Campos de Cima da Serra, em um diferencial para a produção de vinhos. O empreendimento do contador Alexandre Carvalho, de 51 anos, tem 2,83 hectares de videiras plantadas e espera realizar a primeira colheita própria em 2027. A Vinícola Cannion, criada para comercializar os futuros vinhos, já atua no mercado com uvas adquiridas de outros produtores e projeta faturamento anual de cerca de R$ 1 milhão quando estiver em plena operação.
O vinhedo fica a cerca de 1.200 metros de altitude, nas proximidades da borda do Cânion Amola Faca, em um ambiente de ventos fortes, elevada umidade, nevoeiros e geadas tardias. Carvalho considera o terroir singular e aposta na possibilidade de que essas condições resultem em vinhos com características próprias. Mas reconhece que ainda não sabe como as uvas cultivadas ali se comportarão. A primeira safra será um teste tanto da viabilidade agrícola quanto da identidade que pretende dar à produção.
O projeto começou longe das planilhas de uma vinícola. Em julho de 2017, durante uma viagem a passeio com a família, Carvalho se encantou com São José dos Ausentes e decidiu procurar um lugar para a aposentadoria. Comprou cinco hectares em outubro daquele ano, outros cinco em janeiro de 2018 e, mais tarde, três hectares vizinhos, aí já destinados ao futuro receptivo turístico. A propriedade soma 13 hectares.
A ideia de plantar uvas veio de uma visita à Vinícola Pericó, em São Joaquim (SC). O agrônomo e enólogo Jefferson Nunes foi chamado para avaliar a viabilidade. Segundo Carvalho, atribuiu nota dois, numa escala de zero a dez, às chances de êxito. O empreendedor decidiu apostar na possibilidade de sucesso.
A decisão teve um limite financeiro calculado. “Se nada desse certo, não iria me quebrar. Obviamente ia sangrar a poupança da família, mas não ia me quebrar”, diz. O investimento de R$ 2,5 milhões inclui terras, construções, máquinas, acessos, infraestrutura de água e energia, plantio e manutenção. “Está dentro da terra”, resume.
Foram cerca de dois anos de preparação e correção do solo antes do plantio, iniciado em setembro de 2021. A primeira tentativa fracassou: as variedades enxertadas não se estabeleceram, embora os porta-enxertos tenham sobrevivido. A equipe passou então a fazer enxertias no próprio campo, com material fornecido pela Pericó.
Hoje são 2,83 hectares plantados com Cabernet Sauvignon, Merlot e Sauvignon Blanc. A expectativa é que cerca de um hectare produza uvas na safra de 2027, com colheita prevista para abril, se o clima permitir. A quantidade e a qualidade ainda são incógnitas. Carvalho estima potencial de produção de aproximadamente 8 mil garrafas por safra quando o vinhedo estiver plenamente desenvolvido, mas a projeção depende do desempenho das videiras.
Para Carvalho, não se trata de competir em volume. O objetivo é aproveitar as condições particulares do local para produzir vinhos com identidade própria, embora os resultados ainda dependam da primeira colheita. O empreendedor e a esposa, Fabiana, veterinária aposentada, pretendem mudar-se para São José dos Ausentes nos próximos dois ou três anos, quando esperam que o projeto esteja mais próximo da consolidação.
A Vinícola Cannion começou a construir seu mercado antes mesmo de colher as primeiras uvas em São José dos Ausentes. Por orientação dos consultores, Alexandre Carvalho decidiu criar uma marca e formar clientela enquanto implantava o vinhedo. “Eu sou teimoso, mas não sou burro”, diz sobre a decisão de antecipar a operação comercial.
Atualmente, a empresa compra uvas de Monte Belo do Sul, Santana do Livramento e São Joaquim (SC), utilizando instalações de parceiros para a vinificação. Comercializa entre 6 mil e 7 mil garrafas anuais, principalmente em restaurantes, hotéis e diretamente a consumidores de São Paulo e Campos do Jordão. Os rótulos também chegam a Belo Horizonte (MG), Jericoacoara (CE) e Campina Grande (PB).
Sem loja virtual, a Cannion recebe pedidos pelo Instagram, com participação de Beatriz, filha mais nova de Carvalho, na administração da página. O contato segue diretamente para o celular do empreendedor.
Vinhos de maior valor agregado exigem atenção ao caixa

Vista aérea da propriedade da Vinícola Cannion, em São José dos Ausentes, mostra os parreirais próximos à borda do Cânion Amola Faca ARQUIVO PESSOAL/VINÍCOLA CANNION/JC
A pequena escala orienta o posicionamento. Em vez de disputar preço com grandes produtores, Carvalho aposta em vinhos de maior valor agregado. A estratégia exige atenção ao capital de giro: os gastos com uvas, elaboração e embalagens se concentram no início do ciclo, enquanto as vendas se distribuem pelos meses seguintes.
“No mundo vitivinícola, a entrada de recursos é no conta-gotas. E a saída de recursos é num cano de quatro polegadas”, compara.
Para ilustrar, apresenta um exemplo hipotético de R$ 100 mil desembolsados de uma vez e R$ 250 mil de faturamento ao longo de um ano. Não são números da Cannion nem representam lucro líquido, mas demonstram como margens comerciais elevadas podem conviver com dificuldades de caixa.
Quando a produção própria começar, a intenção é criar uma linha ligada ao terroir dos cânions e preservar parte dos rótulos atuais. A Chardonnay, por exemplo, continuará vindo de outros produtores, porque Carvalho considera seu cultivo muito vulnerável às geadas tardias.
Outros R$ 500 mil previstos para a próxima etapa incluem uma pequena estrutura de vinificação e um espaço de degustação com vista para os cânions. Carvalho não planeja hotel nem restaurante: quer oferecer vinhos acompanhados de produtos regionais, complementando o turismo local.
A projeção de faturamento de R$ 80 mil a R$ 85 mil mensais vale para a operação consolidada, não para o estágio atual. Carvalho pretende que a atividade sustente seus custos e o projeto de aposentadoria, sem expansão ilimitada.
Fonte: Jornal do Comércio

