Embrapa e empresas vão criar padrão para trigo de baixo carbono
A Embrapa Trigo lançará em 11 de novembro, em São Paulo, o Programa Trigo Baixo Carbono, em parceria com Cotrijal, Be8, Bunge e UPL. Ao longo de quatro anos, a iniciativa pretende medir as emissões associadas ao cultivo em diferentes regiões do País e criar um protocolo de certificação. O trabalho deverá levar à concessão de um selo para o trigo que atender aos critérios estabelecidos. A expectativa é que essa identificação torne o produto mais competitivo e abra oportunidades de valorização para o agricultor.
O programa começará pela definição de indicadores que permitam medir e verificar a pegada de carbono do grão — a quantidade de gases de efeito estufa associada à sua produção. Depois da fase de pesquisa e validação do protocolo, está prevista sua aplicação no mercado. Segundo informações divulgadas pela UPL, a certificação será voluntária e conduzida por organizações independentes habilitadas pela Embrapa. Os critérios para receber o selo ainda serão desenvolvidos.
A busca por novas formas de diferenciar o trigo ocorre em um momento de retração do cultivo. No Rio Grande do Sul, a Emater/RS-Ascar projeta 814,2 mil hectares plantados em 2026, queda de 30,18% em relação aos 1,1 milhão de hectares do ano passado. No País, a Conab estima uma colheita de 5,74 milhões de toneladas, 27,1% abaixo da safra anterior.
A pesquisa do programa terá como ponto de partida um estudo anterior da Embrapa, realizado em 61 propriedades do Sudeste do Paraná na safra 2023/2024. Na região avaliada, a pegada média foi estimada em 0,50 quilo de dióxido de carbono equivalente por quilo de trigo, abaixo da referência mundial de 0,59 quilo utilizada pelos pesquisadores. O levantamento acompanhou também o transporte dos grãos e sua transformação em farinha em uma moageira paranaense.
Embora favorável na comparação internacional, o resultado do Paraná não representa, por si só, toda a triticultura brasileira. As propriedades estudadas cultivam trigo de sequeiro, em rotação de culturas e plantio direto. Para construir um padrão aplicável a outras regiões, será necessário reunir dados de lavouras submetidas a diferentes condições de clima, solo e manejo.
“Nos primeiros estudos, que já definiram essa linha de base entre emissão e sequestro desses gases de efeito estufa, demonstram que os nossos números são muito competitivos quando comparados internacionalmente”, afirma a pesquisadora da Embrapa Trigo Vanderlise Giongo. Segundo ela, o programa busca fortalecer os diferentes elos da cadeia do cereal.
No estudo anterior, os fertilizantes nitrogenados apareceram entre as principais fontes de emissões da lavoura. Os pesquisadores também avaliaram combinações de tecnologias e práticas de manejo, incluindo alternativas de adubação e o uso de cultivares mais produtivas. Nos cenários analisados, estimaram um potencial de redução de até 38% na pegada de carbono.
Vanderlise afirma que tecnologias ainda em desenvolvimento, relacionadas ao uso de nitrogênio e ao manejo de pragas e doenças, poderão contribuir para novas reduções. A produtividade também entra no cálculo: quando uma lavoura produz mais grãos com os recursos empregados, as emissões por quilo de trigo podem diminuir. Caberá ao protocolo definir como apurar esses efeitos nas propriedades e comprovar os resultados de forma independente.
As quatro parceiras deverão apoiar a execução do trabalho. A UPL informou que contribuirá financeiramente, participará da governança, indicará áreas-piloto e compartilhará sua experiência em iniciativas de certificação. Consultadas pelo JC, Cotrijal, Be8 e Bunge não responderam até a publicação desta reportagem.
Fonte: Jornal do Comércio

