Projeto busca usar arroz gaúcho no combate às mudanças climáticas
Na condição de maior produtor de arroz em casca do Brasil, com uma produção média de 7,9 milhões de toneladas entre 2020 e 2022, segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Rio Grande do Sul recebe agora uma chance de transformar um dos principais problemas associados ao cultivo do cereal em áreas irrigadas: a emissão de gases de efeito estufa.
A iniciativa, encabeçada pela Terradot, empresa norte-americana especializada em intemperismo aprimorado de rochas, em parceria com o Google, um de seus investidores, pretende combinar duas estratégias de mitigação climática com efeitos em diferentes escalas de tempo, com a redução das emissões de metano, um gás de forte impacto no curto prazo, e a remoção de gás carbônico (CO2) da atmosfera no longo prazo.
Miguel Ivan Lacerda de Oliveira, chefe-geral da Embrapa Arroz e Feijão, destaca que, até pouco tempo, esse tipo de projeto de compensação era realizado somente em florestas. Com essa tecnologia, o foco passa a ser a cultura do cereal, e será aplicada em mais de 200 mil hectares de arrozais gaúchos.
O arroz em áreas irrigadas favorece a ação de microrganismos que produzem metano. De acordo com uma avaliação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o cultivo é responsável por 8% das emissões de metano causadas pela atividade humana no mundo. A partir disso, a primeira parte da iniciativa adota a Alternate Wetting and Drying (AWD), Alternância de Umedecimento e Secagem em português, uma prática que drena periodicamente os arrozais alagados, reduzindo o consumo de água e diminuindo a emissão do gás. A estratégia produz um impacto climático imediato, embora de curta duração.
Simultaneamente, a segunda parte utiliza uma técnica conhecida como intemperismoaprimorado de rochas, que busca acelerar o processo natural de reação com o CO2 presente na atmosfera.
Segundo Oliveira, com a combinação das duas técnicas, a Terradot pretende gerar um impacto climático equivalente a quase 2 milhões de toneladas de CO2e associadas às emissões dos campos de produção de arroz. “Nessa linha, o Google entra como um importante agente, ao adquirir 1 milhão de toneladas de impacto de metano a curto prazo até 2030 e 1 milhão de toneladas de impacto de remoção de carbono até 2040, como forma de compensação da energia gasta em data centers.”
Ele explica ainda que a viabilidade do projeto vai muito além da questão ambiental. “Há todo um custo de logística e de construção, ainda assim, essas aplicações são vantajosas ao produtor, pois reduzem os custos com água e insumos, além de melhorar a saúde do solo e dar ao arrozeiro uma participação direta no impacto climático que suas terras ajudam a criar. É um projeto cíclico”,explica.
Arroz gaúcho pode ganhar uma nova fonte de renda além da comercialização
A escolha do Rio Grande do Sul para a aplicação da proposta se dá justamente pelo potencial da produção de arroz no Estado. Além disso, os solos tropicais, o clima quente e úmido e os sistemas de arrozais alagados favorecem o processo de intemperismo, enquanto pedreiras de basalto estão localizadas próximas às áreas agrícolas onde a rocha será aplicada. A expectativa é que, futuramente, o projeto também seja levado a outras regiões produtoras de arroz ao redor do mundo.
Para Oliveira, a iniciativa reúne condições para se tornar uma das alternativas de compensação de emissões em escala global. “Vamos poder aproveitar esse potencial ambiental que tem a produção irrigada de arroz a partir da união entre a ciência, a natureza e o empreendedorismo para atacar um problema sério e, ao mesmo tempo, gerar ainda mais renda para o produtor rural”.
Segundo ele, diante do momento vivido pelo setor, iniciativas que busquem alternativas de renda para além da comercialização do grão se tornam ainda mais necessárias. “Essa é uma oportunidade de o arroz prestar um serviço ambiental. O potencial do arroz e dessas tecnologias de captura de CO2 equivalente, tanto pelo manejo voltado à redução do metano quanto pela incorporação de pó de rocha, pode abrir uma nova fronteira para gerar renda ao produtor para além da produção do grão e do alimento”, salienta.
Fonte: Jornal do Comércio

