Área de arroz pode cair 10% na próxima safra, com pressão de custos

A próxima safra de arroz no Rio Grande do Sul deve ser marcada por decisões mais conservadoras no campo, com risco de redução de área e menor investimento diante do aperto financeiro dos produtores. A combinação de custos elevados, crédito restrito e preços pressionados desenha um cenário de incerteza para o novo ciclo.

O presidente da Federarroz, Denis Dias Nunes, já indicava a possibilidade de manutenção ou redução da área plantada, em meio ao endividamento crescente e à dificuldade de financiamento. Apesar de uma recuperação recente, os preços ainda são considerados insuficientes para recompor margens, o que tem levado produtores a reter a produção à espera de melhores cotações.

A leitura ganha contornos mais concretos com a análise do diretor de Mercado da entidade, Juandres Antunes, que projeta um possível ajuste produtivo. “Se permanecer os preços como estão, no mínimo 10%”, afirma, ao se referir à redução potencial da área. Segundo ele, trata-se de uma imposição econômica. “Não é redução porque eu quero, é porque eu não consigo.”

O quadro de oferta reforça a pressão. A safra gaúcha deve atingir cerca de 7,6 milhões de toneladas, volume considerado dentro da normalidade, mas que se soma a estoques elevados do ciclo anterior, mantendo o mercado abastecido e com preços pressionados.

No primeiro trimestre, o Brasil exportou cerca de 300 mil toneladas, desempenho considerado positivo. Antunes ressalta, porém, que a maior parte desse volume ainda é da safra passada. “Isso não pode enganar”, observa, ao indicar que o excedente atual permanece elevado.

Diante desse cenário, a cadeia produtiva volta sua atenção aos mecanismos de apoio à comercialização. O governo federal sinalizou a liberação de R$ 56 milhões para operações de PEP e Pepro, a serem executadas pela Companhia Nacional de Abastecimento, mas os recursos ainda não foram operacionalizados. “Disseram que iam anunciar, mas não anunciaram ainda. Deve sair”, relata Antunes.

Esses instrumentos são considerados essenciais para viabilizar exportações, sobretudo em regiões com fretes mais elevados, como a Fronteira Oeste. Sem subvenção, parte dos produtores fica fora do mercado externo, já que o custo logístico compromete a competitividade.

A estratégia do setor, portanto, combina ações de curto e médio prazo: reduzir o excedente interno e aguardar um possível ajuste global de oferta. No horizonte imediato, porém, há poucas alternativas para reagir à pressão de preços. “O que está na mão é fazer exportação”, resume Antunes, ao indicar que o escoamento externo é hoje o principal instrumento disponível.

No mercado internacional, há expectativa de redução de área em países produtores, como os Estados Unidos, o que pode sustentar uma reação de preços no médio prazo. Ainda assim, o efeito no Brasil tende a ser limitado pela queda do dólar, que reduz a competitividade das exportações.

No campo, o comportamento do produtor reflete a pressão financeira. Muitos optam por postergar a venda, mesmo diante da necessidade de caixa. “Se eu vender hoje, não consigo honrar todos os compromissos. Então é melhor esperar”, afirma Antunes, ao descrever a lógica que contribui para a lentidão na comercialização.

Além das variáveis econômicas, o clima aparece como fator adicional de risco. A possibilidade de ocorrência de El Niño no próximo ciclo está historicamente associada a queda de produtividade, embora o impacto ainda seja incerto neste momento.

Com isso, a próxima safra se desenha sob um conjunto de condicionantes — financeiros, comerciais e climáticos — que devem influenciar tanto a área plantada quanto o nível de tecnologia empregado. O resultado dependerá, sobretudo, da capacidade de reduzir estoques no curto prazo e da evolução do mercado internacional ao longo do ano.

Fonte: Jornal do Comércio

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