Missão cubana visita Serra Gaúcha para abrir mercado à maçã brasileira

A visita de uma missão oficial de Cuba ao Rio Grande do Sul, na semana passada, avançou nas tratativas para a abertura do mercado do país caribenho à maçã brasileira e já apresenta sinalizações positivas tanto no campo técnico quanto comercial. A comitiva, formada por representantes da Organização Nacional de Proteção Fitossanitária (ONPF) — o presidente Rafael Antonio Dortas Perez e a fiscal Ines Graciela Diaz Aquino — esteve em Vacaria, nos Campos de Cima da Serra, principal polo produtor da fruta no Estado.

Durante a agenda, os auditores avaliaram pomares, estruturas de beneficiamento e sistemas de armazenamento, além de acompanhar apresentações técnicas sobre manejo fitossanitário, certificação e rastreabilidade. A análise in loco buscou verificar se o Brasil atende às exigências para exportação.

Segundo o superintendente do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) no Rio Grande do Sul, José Cléber Dias de Souza, o resultado foi favorável. “No nosso caso, da maçã, ficou tudo acertado, faltando apenas a formalização”, afirmou. De acordo com ele, os técnicos cubanos consideraram que os manejos adotados no País são suficientes para atender às exigências sanitárias. O prazo para abertura efetiva ainda depende de Cuba e pode variar entre 180 dias e um ano, embora haja expectativa de avanço mais rápido.

A avaliação técnica contou com o acompanhamento da Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul (Seapi), responsável por apresentar os protocolos de certificação e defesa vegetal adotados no Estado. A chefe da Divisão de Defesa Sanitária Vegetal, Deise Feltes Riffel, destacou que o sistema produtivo gaúcho oferece segurança quanto à rastreabilidade e ao cumprimento das normas internacionais. “O trabalho desenvolvido junto aos produtores trouxe o respaldo que os técnicos cubanos estavam buscando”, afirmou.

A percepção da indústria é convergente. Gerente comercial nacional e internacional da Rasip Agro, Ronaldo Grosselli afirma que a visita confirmou a viabilidade do negócio e avançou inclusive para a fase operacional. “Dentro da precificação que a gente passou para eles, entendo que é possível tranquilamente a gente fazer negócios”, disse.

A aproximação com Cuba começou há cerca de três meses, a partir de contatos comerciais e da estratégia da Rasip de ampliar a presença internacional. Segundo Grosselli, a diversificação de mercados é uma forma de reduzir riscos diante de instabilidades geopolíticas e comerciais. “A gente sente que tem muito mais oportunidade capilarizando o canal do que focando em um mercado só”, afirmou.

A empresa colheu aproximadamente 60 mil toneladas de maçã nesta safra, entre as variedades Gala e Fuji, e destina atualmente entre 15% e 20% de sua produção à exportação, com negócios junto a cerca de 30 países e movimentação para ampliar ainda mais o leque de parceiros. A meta da Rasip é elevar essa participação para até 30% nos próximos anos, ampliando a inserção internacional.

Nesse contexto, Cuba surge como um mercado complementar. O país pretende importar entre 2 mil e 3 mil toneladas neste ano, volume considerado pequeno no cenário global, mas estratégico para diversificação. Hoje, o abastecimento é concentrado no Chile, e a expectativa é que novos fornecedores passem a dividir esse espaço. “Eles querem também criar um outro potencial fornecedor para não ficar na mão de um só”, disse Grosselli.

Durante a visita, os representantes cubanos conheceram as operações da Rasip e da Bortolon Agro Comercial e demonstraram surpresa com o nível tecnológico da produção brasileira. Foram apresentados sistemas de mitigação de pragas, uso de telas para reduzir defensivos, pomares protegidos contra granizo e técnicas de armazenamento com controle rigoroso de temperatura. “Ficaram muito impressionados com o trabalho que é feito na maçã e com o sabor da fruta brasileira”, relatou o executivo.

A avaliação positiva se estendeu ao conjunto do sistema produtivo, incluindo rastreabilidade e padrões sanitários já adotados para outros mercados internacionais. O Jornal do Comércio apurou que já ao final da missão, houve sinalização de avanço imediato por parte dos cubanos. Na reunião de encerramento, os auditores indicaram a liberação do processo para tramitação formal.

No plano macro, a possível abertura ocorre em um momento de recuperação da produção nacional. A safra brasileira de maçã 2025/2026 deve atingir entre 1 milhão e 1,1 milhão de toneladas, retornando à média histórica após anos de perdas climáticas e consolidando um cenário de maior oferta e qualidade da fruta.

Com a validação técnica praticamente concluída, o próximo passo é a formalização por parte do governo cubano, por meio do envio de um ofício ao Brasil com os termos da abertura. A expectativa do setor é de que, superada essa etapa, as negociações comerciais avancem rapidamente, consolidando mais um destino para a maçã gaúcha no mercado internacional.

Fonte: Jornal do Comércio

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