Alta nas exportações para a China acende alerta no setor de carnes
O ritmo acelerado das exportações brasileiras de carne bovina para a China reacendeu a pressão do setor frigorífico sobre o governo federal para a criação de um mecanismo de controle dos embarques. Dados oficiais compartilhados pelo Ministério do Comércio (MOFCOM) e a Administração Geral das Alfândegas da China (GACC) indicam que 33,6% da cota anual já foi utilizada apenas no primeiro bimestre de 2026, cenário que preocupa empresas e entidades do segmento.
O gigante asiático anunciou na virada do ano que passaria a definir uma cota de 1,1milhão de toneladas do produto brasileiro ao ano. E que sobre o volume excedente incidiria uma tarifa de 55%. Somente entre janeiro e fevereiro, o Brasil já embarcou 372 mil toneladas àquele destino.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (ABIEC) avalia que, mantida a atual velocidade, o volume autorizado poderá se esgotar ainda no primeiro semestre, o que traria impactos relevantes para toda a cadeia pecuária. Entre os principais riscos estão a redução da atividade nos frigoríficos, devido à falta de destinos para exportação, e a pressão sobre os preços da carne no mercado interno.
Na avaliação do presidente-executivo do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do RS (Sicadergs), Ronei Lauxen, o movimento já reflete uma disputa acelerada entre as empresas. Segundo ele, há uma “corrida desenfreada” das indústrias para ampliar embarques enquanto ainda é possível exportar dentro da cota, sem a incidência da tarifa adicional.
De acordo com Lauxen, esse comportamento tem sido observado também no Rio Grande do Sul, que registrou crescimento nos embarques nos primeiros meses do ano. Ele lembra que chegou a ser discutida, inclusive com o governo federal, a adoção de um sistema de divisão de cotas por empresa com base no histórico de exportações, medida que acabou não avançando.
“Seria uma forma de evitar essa corrida e dar mais organização ao fluxo de exportações”, afirmou.
O executivo alerta que, caso a cota seja esgotada até maio, o cenário tende a se deteriorar rapidamente no segundo semestre. “Com a tarifa extra, praticamente se inviabiliza a exportação brasileira, o que pode complicar bastante o mercado”, disse.

Brasil já embarcou 372 mil toneladas de carne bovina para a China, somente entre janeiro e fevereiro de 2026
O setor defende a implementação de um sistema oficial que organize os embarques ao longo do ano, distribuindo os volumes entre as empresas habilitadas e evitando uma corrida antecipada para vendas dentro da cota. A proposta já foi apresentada ao governo e projeta maior previsibilidade logística e comercial, especialmente diante do tempo de transporte até a China.
Embora a entidade adote tom cauteloso em suas comunicações, o alerta é claro: a ausência de regulação pode gerar desequilíbrios no segundo semestre. Com a China consolidada como principal destino da carne bovina brasileira, a perda de receita externa tende a pressionar custos e pode resultar em reajustes ao consumidor.
A expectativa do setor é que o tema avance na pauta da Câmara de Comércio Exterior, responsável por deliberar sobre medidas de comércio exterior. Para os exportadores, a adoção de mecanismos de acompanhamento será decisiva não apenas para 2026, mas também para garantir estabilidade nos próximos anos, já que os volumes de importação chineses estão definidos até 2028.
Fonte: Jornal do Comércio

