Arena Agrodigital aborda plano de longo prazo para enfrentar estiagens

A necessidade de ampliar a irrigação, recuperar a qualidade do solo e estimular a inovação produtiva foi apontada como central para tornar o agronegócio mais resistente às variações climáticas no Rio Grande do Sul. O tema foi discutido no painel “Avanços para um Agro mais Resiliente”, realizado nesta quarta-feira (11), na Arena Agrodigital da Expodireto Cotrijal.

O debate reuniu a diretora de Ambientes de Inovação da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia, Andréia Dullius, o secretário de Desenvolvimento Rural, Gustavo Paim, e o diretor geral da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, Joel Maraschin.

Um dos pontos destacados no painel foi o impacto recorrente dos eventos climáticos extremos sobre a produção agropecuária no Estado. Maraschin lembrou que nos últimos 10 anos foram registradas três estiagens severas e duas moderadas, além de períodos de chuvas intensas, o que teria provocado perdas estimadas em mais de R$ 100 bilhões na economia gaúcha. O agronegócio responde por cerca de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) estadual.

Para enfrentar esse cenário, a irrigação foi apontada como uma das principais estratégias estruturais. Maraschin citou o lançamento da terceira fase do programa estadual de irrigação e a elaboração de um plano diretor para o setor, com horizonte de até 10 anos. Nas duas primeiras etapas da política pública, foram incorporados cerca de 24 mil hectares irrigados. Embora considere o avanço relevante, ele observou que o número ainda é pequeno diante dos quase 8 milhões de hectares cultivados na safra de verão no Estado.

O secretário Gustavo Paim reforçou que o desafio central é a escala dos investimentos necessários. Segundo ele, a expansão da irrigação no Rio Grande do Sul exigiria recursos estimados em cerca de R$ 60 bilhões ao longo de uma década. “O problema é escala. O nosso problema é de dezenas de bilhões de reais”, afirmou.

Diante dessa necessidade, Paim defendeu a ampliação do apoio federal e a possibilidade de postergar o pagamento da dívida do Estado com a União para liberar recursos destinados a investimentos estruturais. O secretário destacou que o Rio Grande do Sul paga aproximadamente R$ 5 bilhões por ano em serviço da dívida, valor que poderia ser direcionado temporariamente a programas de adaptação climática e reconstrução econômica.

Além da irrigação, o secretário apresentou o programa Terra Forte, voltado à melhoria da qualidade do solo na agricultura familiar. A iniciativa prevê investimento inicial de R$ 300 milhões, com recursos do fundo de reconstrução do Estado. A primeira etapa deve atender cerca de 15 mil propriedades, com apoio de até R$ 30 mil por produtor para correção de solo, a partir de análise técnica realizada com apoio da Emater/RS-Ascar.

Segundo Paim, a compactação e a perda de fertilidade reduzem a capacidade de infiltração e retenção de água no solo, agravando os efeitos das estiagens. A melhoria do manejo e da fertilidade, acrescentou, pode aumentar a produtividade e reduzir a vulnerabilidade das lavouras enquanto os investimentos estruturais em irrigação avançam.

A diretora Andréia Dullius, que também é responsável pelo Centro de Inteligência do Agro, ressaltou que a construção de um agronegócio resiliente também depende da integração entre inovação, sustentabilidade e novos modelos produtivos. Ela citou iniciativas ligadas à agricultura regenerativa, bioinsumos e às diretrizes do Plano ABC+.

Segundo a dirigente, inovação no agro não se restringe à tecnologia digital, mas inclui mudanças nos sistemas de produção e no manejo agrícola. Entre os projetos em desenvolvimento, ela mencionou pesquisas que utilizam inteligência artificial para desenvolver sistemas de irrigação voltados à pequena agricultura, além de uma iniciativa binacional entre Brasil e Uruguai voltada à melhoria das previsões meteorológicas aplicadas ao agronegócio.

Maraschin também destacou investimentos do governo estadual em infraestrutura hídrica no meio rural. Entre as ações citadas estão a construção de microaçudes em mais de 380 municípios, a perfuração de poços artesianos em 187 cidades por meio do programa Avançar Poços e a distribuição de cisternas para propriedades da agricultura familiar, somando cerca de R$ 150 milhões.

O dirigente mencionou ainda a aplicação de mais de R$ 100 milhões na melhoria de estradas vicinais para facilitar o escoamento da produção e ressaltou a estrutura de defesa sanitária do Estado, considerada referência nacional, citando a rápida resposta a ocorrências como casos recentes de gripe aviária.

Fonte: Jornal do Comércio

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