Corrida pela cota chinesa acelera embarques de carne e pressiona mercado

A imposição, no fim de 2025, de uma cota de 1,1 milhão de toneladas para a carne bovina brasileira pela China, com tarifa de 12% dentro do limite e sobretaxa de 55% para o excedente, alterou de forma imediata a dinâmica das exportações no início de 2026. O que tradicionalmente seria um período mais lento, marcado pelo Ano Novo chinês, transformou-se em semanas de embarques acelerados, contratos antecipados e valorização expressiva das cotações.

Levantamento da consultoria Agrifatto indica que o dianteiro bovino saiu de US$ 5.550 por tonelada em 30 de dezembro para US$ 6.105 na primeira semana de janeiro. No fim do mês, alcançou US$ 6.850 e, em fevereiro, chegou a picos de US$ 7.000 por tonelada em cortes específicos — alta superior a 20% em poucas semanas.

A CEO da consultoria, Lygia Pimentel, afirma que o movimento reflete a tentativa dos importadores chineses de garantir produto dentro da tarifa menor enquanto há disponibilidade. “As exportações deverão continuar firmes, mesmo que esbarrem na cota chinesa. O motivo é a competitividade do Brasil, que segue alta”, disse ao Jornal do Comércio. Segundo ela, fevereiro de 2026 já supera o mesmo período do ano passado antes mesmo do encerramento do mês, sinalizando a força do produto brasileiro no comércio internacional.

A corrida não ocorre apenas do lado chinês. Exportadores brasileiros também buscam ocupar a maior parcela possível da cota enquanto o espaço está aberto. De acordo com o analista da Safras & Mercado, Fernando Iglesias, cerca de 11% da cota destinada ao Brasil já foi utilizada apenas em janeiro.

Eles querem preencher a maior fatia da cota possível enquanto isso for uma possibilidade”, afirmou. Mantido o ritmo atual, a estimativa é que o volume autorizado possa se esgotar entre julho e agosto.

Esse cenário levanta uma preocupação central: o que ocorre com o mercado se a cota for consumida ainda no meio do ano? Sem espaço para exportar com tarifa competitiva, parte dos frigoríficos poderia reduzir embarques ou redirecionar produção ao mercado interno, criando um movimento inverso ao observado no primeiro semestre.

É nesse ponto que surge a discussão, no âmbito do governo federal, sobre a eventual adoção de limites trimestrais de embarque, distribuídos por empresa com base no histórico recente de exportações.

Na prática, a medida funcionaria como um “escalonamento” da cota anual. Em vez de permitir que os 1,1 milhão de toneladas sejam utilizados livremente nos primeiros meses, o volume seria fracionado ao longo do ano, garantindo previsibilidade tanto para compradores quanto para vendedores. Cada frigorífico teria um teto definido por período, evitando uma corrida concentrada no início do calendário.

Iglesias avalia que o mecanismo poderia suavizar oscilações. “Seria importante para dar mais previsibilidade ao setor, para não construir picos muito acentuados de preço ou vales muito profundos quando o mercado não tiver condições de exportar para a China”, afirmou. Na visão dele, a ausência de coordenação pode gerar forte volatilidade: alta da arroba no primeiro momento e, posteriormente, queda expressiva se o fluxo externo for interrompido.

No Rio Grande do Sul, a percepção é semelhante. O presidente executivo do Sicadergs, Ronei Lauxen, relata que janeiro foi marcado por movimentação intensa.

O Estado — que passou a acessar aquele mercado apenas em abril de 2025 — exportou, em janeiro de 2026, 4.305 toneladas de carne bovina em 2026, das quais 1.529 toneladas — 35% do total — tiveram como destino a China, gerando receita de US$ 9,6 milhões.

Segundo ele, a definição de cotas por empresa ajudaria a evitar distorções internas. “Inicialmente estava havendo uma corrida muito grande das empresas para conseguir enviar o volume máximo ainda dentro das cotas sem a sobretaxa”, disse. Para Lauxen, a organização do fluxo pode prevenir desequilíbrios na oferta de animais para abate e reduzir tensões concorrenciais.

Mercado interno impõe freio à escalada de preços

O avanço das exportações ocorre em um contexto de consumo doméstico sensível a preços. Iglesias observa que a renda do consumidor brasileiro limita novos reajustes. “O consumidor brasileiro já não vai conseguir absorver mais reajustes e vai simplesmente migrar para proteínas mais baratas”, afirmou.

Lauxen faz avaliação semelhante. Ele reconhece que altas expressivas poderiam gerar retração nas vendas internas, ao mesmo tempo em que eventual esgotamento precoce da cota pode provocar movimento contrário mais adiante. “Se provocasse um aumento de preços considerável, nós teríamos problemas no mercado interno”, disse, ponderando que o cenário ainda é imprevisível.

Enquanto o debate sobre a gestão da cota avança, o setor aguarda definições. Procurada, a Abiec informou que não irá se manifestar neste momento por considerar o tema sensível e que aguardará eventual decisão do governo para se posicionar.

No pano de fundo, permanece um fator estrutural apontado pelas consultorias: a competitividade brasileira no mercado internacional. Mesmo diante de restrições, o País mantém posição relevante no comércio global e tem buscado ampliar mercados, reduzindo a dependência de um único destino.

O desafio para 2026 será equilibrar três vetores simultâneos: o aproveitamento da cota chinesa, a estabilidade dos preços internos e a previsibilidade para frigoríficos e pecuaristas. A forma como o governo optar por administrar o fluxo de exportações poderá definir o ritmo e a intensidade dessas variáveis ao longo do ano.

Evolução dos preços médios à China (US$/t)

  • 30/12/2025: 5.550
  • 7/1/2026: 6.105
  • 21/1/2026: 6.850
  • Pico em fevereiro: 7.000

Exportações brasileiras à China

  • 2025: 1,676 milhão t | US$ 8,9 bilhões
  • Jan/2026: 132,1 mil t | US$ 657 milhões

Fonte: Agrifatto e Abiec

Rio Grande do Sul – Jan/2026

  • Total exportado: 4.305 t
  • Para a China: 1.529 t (35%)
  • Receita com a China: US$ 9,6 milhões

Fonte: Sicadergs

Mercado interno impõe freio à escalada de preços

O avanço das exportações ocorre em um contexto de consumo doméstico sensível a preços. Iglesias observa que a renda do consumidor brasileiro limita novos reajustes. “O consumidor brasileiro já não vai conseguir absorver mais reajustes e vai simplesmente migrar para proteínas mais baratas”, afirmou.

Lauxen faz avaliação semelhante. Ele reconhece que altas expressivas poderiam gerar retração nas vendas internas, ao mesmo tempo em que eventual esgotamento precoce da cota pode provocar movimento contrário mais adiante. “Se provocasse um aumento de preços considerável, nós teríamos problemas no mercado interno”, disse, ponderando que o cenário ainda é imprevisível.

Enquanto o debate sobre a gestão da cota avança, o setor aguarda definições. Procurada, a Abiec informou que não irá se manifestar neste momento por considerar o tema sensível e que aguardará eventual decisão do governo para se posicionar.

No pano de fundo, permanece um fator estrutural apontado pelas consultorias: a competitividade brasileira no mercado internacional. Mesmo diante de restrições, o País mantém posição relevante no comércio global e tem buscado ampliar mercados, reduzindo a dependência de um único destino.

O desafio para 2026 será equilibrar três vetores simultâneos: o aproveitamento da cota chinesa, a estabilidade dos preços internos e a previsibilidade para frigoríficos e pecuaristas. A forma como o governo optar por administrar o fluxo de exportações poderá definir o ritmo e a intensidade dessas variáveis ao longo do ano.

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Evolução dos preços médios à China (US$/t)

  • 30/12/2025: 5.550
  • 7/1/2026: 6.105
  • 21/1/2026: 6.850
  • Pico em fevereiro: 7.000

Exportações brasileiras à China

  • 2025: 1,676 milhão t | US$ 8,9 bilhões
  • Jan/2026: 132,1 mil t | US$ 657 milhões

Fonte: Agrifatto e Abiec

Rio Grande do Sul – Jan/2026

  • Total exportado: 4.305 t
  • Para a China: 1.529 t (35%)
  • Receita com a China: US$ 9,6 milhões

Fonte: Jornal do Comércio

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