Novo período de estiagem reduz potencial da safra gaúcha de grãos
A estiagem que atinge grande parte do Rio Grande do Sul nas últimas semanas já compromete o potencial produtivo das lavouras, especialmente em regiões onde o déficit hídrico coincidiu com fases decisivas do desenvolvimento das plantas. Na soja, a colheita projetada em mais de 21 milhões de toneladas pela Emater-RS/Ascar e superior a 22 milhões de toneladas pela Conab pode não deverá passar de 18 milhões, ainda dependendo do clima.
Técnicos e produtores relatam perdas consolidadas em parte das áreas. De acordo com o diretor técnico da Emater-RS/Ascar, Claudinei Baldissera, o período que antecedeu as chuvas registradas no último fim de semana foi marcado por precipitações muito abaixo da média e temperaturas elevadas em praticamente todo o Estado. A combinação de calor acentuado, baixa umidade relativa do ar e alta demanda evaporativa criou um ambiente desfavorável às culturas de verão.
Segundo ele, o impacto foi mais sensível na soja, justamente porque a maior parte das áreas se encontra em fase reprodutiva. “Praticamente 80% dos 6,74 milhões de hectares cultivados no Rio Grande do Sul estão na fase reprodutiva”, afirmou. Esse estágio compreende floração, formação de vagens e enchimento de grãos, etapas que exigem disponibilidade hídrica constante.
Baldissera relata que o estresse hídrico provocou sintomas como murchamento, abortamento de flores, perda de vagens, redução da área foliar e queda de folhas. “Esse conjunto de fatores provocou uma onda de estresse hídrico na cultura da soja bastante consistente”, disse. Embora ainda não arrisque mensurar com precisão o tamanho das perdas, ele reconhece que parte do potencial produtivo já foi comprometido de forma irreversível.
O cenário, conforme a Emater, é heterogêneo. Há municípios com volumes razoáveis de chuva e lavouras preservadas, enquanto áreas vizinhas registram perdas significativas. O resultado é um mosaico produtivo, que dificulta estimativas uniformes.
No setor privado, a percepção reflete essa irregularidade. Presidente da Aprosoja/RS, Ireneu Orth projeta que a safra deverá mesmo ficar entre 17 milhões e 18 milhões de toneladas e pondera que será necessário chover para alcançar esses números. “Nós ainda precisamos de chuva até final de março. Se não chover – e a perspectiva é pouca chuva daqui para frente –, esse número ainda pode cair”, alertou.
No ano passado, o Rio Grande do Sul colheu 13,6 milhões de toneladas. Em safras favoráveis, a produção já se aproximou de 21 milhões.
Orth, que recebe cerca de 500 mensagens de Whatsapp de produtores de todo o Estado diariamente com relatos sobre a situação nas diferentes regiões, ressalta que o impacto não será homogêneo. “A safra pode ser maravilhosa para alguns e desastrosa para outros”, disse, ao reforçar que a distribuição irregular das chuvas resultou em lavouras com desempenhos muito distintos dentro da mesma região.
Da janela do escritório, ele enxerga a lavoura bem formada na área que arrenda a terceiro em Tapera, no norte gaúcho. Cerca de 15 quilômetros dali, na vizinha Victor Gröeff, há plantações em que sequer valerá a pena colher, com plantas queimadas e grãos murchos. O cenário de apreensão se repete nas regiões Noroeste, Central e Fronteira Oeste, por exemplo.
O reflexo da estiagem no campo é descrito pelo produtor Eliseu Busse, de Bossoroca, nas Missões. Na propriedade de 440 hectares dedicados à soja, ele enfrentou 40 dias sem chuva até o início da semana. Embora tenha registrado 40 milímetros na segunda-feira (16), afirma que a precipitação foi insuficiente para reverter o quadro. “A perda é muito grande”, resumiu.
Busse esperava colher cerca de 3,6 mil quilos por hectare, acima da média geral anteriormente projetada para o RS, de 3,2 mil quilos. Agora, a projeção gira em torno de 1,8 mil quilos, caso haja continuidade das chuvas. “Tem que torcer pra colher a outra metade”, afirmou, ao estimar perdas superiores a 50%. Segundo ele, há lavouras em situação ainda mais crítica na região, onde volumes recentes de precipitação ficaram entre 5 e 15 milímetros.
Endividamento limita avanço da irrigação no RS
Além do impacto produtivo, a estiagem pressiona a situação financeira dos agricultores, que acumulam frustrações recentes. O nível de endividamento limita investimentos em alternativas como a irrigação. Ireneu Orth, que acompanhou a missão do governo gaúcho ao estado americano de Nebraska no ano passado, para conhecer ferramentas de manejo de água para produção de alimentos, reconhece que o sistema pode elevar a estabilidade produtiva, mas exige infraestrutura, disponibilidade de água e capital. “Tecnologia, capacidade humana, nós temos. O que não tem é o dinheiro e a condição financeira de fazer tudo isso”, afirmou.
Atualmente, a estimativa é de que apenas entre 7% e 8% das áreas de sequeiro no Estado contem com irrigação. Para ampliar esse percentual, representantes do setor defendem alongamento das dívidas e condições de crédito mais compatíveis com a realidade da agricultura gaúcha. Esses temas, promete o dirigente, estarão na pauta da Expodireto Cotrijal, que acontece de 9 a 13 de março, em Não-Me-Toque.
Enquanto isso, o desempenho da safra seguirá atrelado ao regime de chuvas das próximas semanas. Em um cenário marcado por contrastes regionais e incerteza climática, o resultado final dependerá da regularidade das precipitações até o fim do ciclo das culturas de verão.
Fonte: Jornal do Comércio

