Arroz paraguaio amplia presença no Brasil e pressiona mercado gaúcho

O avanço da produção e das exportações de arroz do Paraguai passou a influenciar de forma direta o equilíbrio do mercado brasileiro e a competitividade do produto gaúcho nos principais centros consumidores do País. Com forte direcionamento ao Brasil, o arroz paraguaio já é visto por analistas como uma espécie de reserva nacional.

Cerca de 70% das exportações paraguaias têm como destino o mercado brasileiro. “Eles praticamente não têm consumo. Produzem com foco na exportação para o Brasil. Ou seja, é o nosso segundo estoque”, afirmou o analista de arroz da Safras & Mercado, Evandro Silva.

O crescimento é expressivo. Em 2005, Minas Gerais comprava aproximadamente 5 mil toneladas de arroz do Paraguai. E o produto gaúcho, hoje em desvantagem competitiva, predominava nas indústrias daquele estado. Ao longo dos anos, o volume aumentou de forma consistente.

  • Em 2025, as exportações totais do país vizinho somaram cerca de 1,13 milhão de toneladas na temporada, em base casca.
  • Na safra 2024/2025, a produção paraguaia superou 1,4 milhão de toneladas, consolidando o país como fornecedor relevante ao mercado regional.

A expansão está associada ao aumento de área e investimentos em tecnologia. Entre 2009 e 2019, a área plantada no Paraguai cresceu cerca de 240%, impulsionada por irrigação e abertura de novas fronteiras agrícolas.

Enquanto isso, o Rio Grande do Sul — responsável por aproximadamente 70% da produção brasileira de arroz — registrou retração de área nas últimas duas décadas. Há cerca de 20 anos, o Estado cultivava mais de 1,2 milhão de hectares. Nas safras recentes, a área gira em torno de 900 mil hectares, número que deverá se confirmar ainda menor na coletiva de divulgação dos dados da atual semeadura, agendada para esta quinta-feira (13) pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga).

A combinação entre expansão externa e redução relativa da base produtiva gaúcha tem ampliado a concorrência nos principais mercados consumidores fora da Região Sul, especialmente Minas Gerais e São Paulo, que juntos concentram quase 70 milhões de habitantes.

Segundo a assessora executiva do Sindicato da Indústria do Arroz de Pelotas (Sindapel), Daniele Braga, além do aumento da oferta externa, há diferenças tributárias que impactam a competitividade do produto do RS. “O arroz gaúcho, quando vendido a Minas Gerais, paga cerca de 7% de ICMS efetivo. Já o arroz paraguaio entra em Minas sem pagar nada”, afirmou.

De acordo com a dirigente, também há vantagens tributárias na entrada do produto estrangeiro em São Paulo. Essa assimetria, na avaliação do setor, contribui para a perda de espaço do arroz beneficiado no Rio Grande do Sul nos dois maiores mercados consumidores do País.

Diante desse cenário, entidades representativas da cadeia arrozeira solicitaram ao governo do Estado a prorrogação do crédito presumido de ICMS concedido às vendas interestaduais de arroz beneficiado. O benefício, previsto no Decreto 58.296/2025 e vigente desde agosto do ano passado, vence no final deste mês.

Pelo decreto estadual, o crédito presumido corresponde a

  • 2% nas vendas destinadas a São Paulo
  • 3% nas destinadas a Minas Gerais

O percentual de 3% também pode ser aplicado nas operações para outros Estados, exceto Maranhão e Ceará.

A demanda foi apresentada na terça-feira (10) em reunião com o secretário-chefe da Casa Civil, Arthur Lemos. A principal reivindicação é que o mecanismo seja mantido ao menos até o fim do ano, como forma de preservar competitividade.

O secretário se comprometeu em fazer outra reunião com a (Secretaria da) Fazenda para que façamos a apresentação da necessidade e não perdermos a competitividade, devido a um ano difícil que estamos enfrentando, com as indústrias de Minas Gerais e São Paulo”, afirmou o presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do RS (Federarroz), Denis Dias Nunes.

No mercado interno, a saca de 50 quilos de arroz em casca foi cotada a R$ 54,58 na terça-feira, segundo o Cepea/Esalq, da Universidade de São Paulo (USP), com variação mensal positiva de 1,06%, posto nas indústrias do Rio Grande do Sul. Apesar da leve alta no mês, o setor avalia que o ambiente segue ajustado diante da concorrência interestadual e internacional.

Não só com a lavoura arrozeira, como a cadeia toda com o beneficiamento do arroz gaúcho dentro do Rio Grande do Sul. Isto é o que nós teremos que justificar e convencer a Secretaria da Fazenda”, declarou Nunes.

Também participaram do encontro representantes da Federação das Cooperativas de Arroz do RS (Fearroz) e do Sindicato da Indústria do Arroz no Estado do RS (Sindarroz-RS). Uma nova reunião com a Secretaria da Fazenda deverá ocorrer para apresentação de dados técnicos que fundamentem o pedido. Até o momento, o governo estadual não anunciou decisão sobre a continuidade do benefício.

Fonte: Jornal do Comércio

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