Safra recorde de olivas projeta ano histórico para azeite gaúcho

A safra de olivas de 2026 se desenha como a mais expressiva da história do Brasil e do Rio Grande do Sul, principal polo produtor do País. Após dois anos marcados por frustrações climáticas e forte oscilação de volumes, produtores e entidades do setor projetam recuperação consistente, com aumento significativo da produção de azeite extravirgem e manutenção do padrão de alta qualidade que caracteriza o produto nacional.

A avaliação é compartilhada por representantes institucionais e por empresas do setor, que relatam condições climáticas favoráveis, pomares mais maduros e colheita com início antecipado em fevereiro. A expectativa é de volumes recordes, com impacto direto na oferta ao mercado e na consolidação do azeite brasileiro no segmento premium.

Segundo o presidente do Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva), Flávio Obino Filho, a expectativa é de uma safra histórica tanto no Rio Grande do Sul quanto no Brasil. O dirigente atribui o cenário ao conjunto de fatores climáticos observados ao longo de 2025, especialmente no Estado. “Nós tivemos no Rio Grande do Sul a maior média de frio dos últimos 20 anos, o que é muito bom para a oliveira. Depois, uma primavera com poucas chuvas permitiu uma grande floração e um bom pegamento”, explica.

O principal risco citado é a ocorrência pontual de granizo, sem potencial de comprometer o resultado geral da safra. A colheita no Estado começou no início de fevereiro e deve ganhar intensidade ao longo do mês, com expectativa de se estender até o final de abril, em função do elevado volume de frutos nos pomares.

O setor vem de um período de forte instabilidade. Em 2023, o Brasil alcançou o recorde de 640 mil litros de azeite, sendo cerca de 590 mil litros no Rio Grande do Sul. No ano seguinte, o excesso de chuvas e a alta umidade provocaram uma quebra severa no Estado, com a produção recuando para aproximadamente 190 mil litros. O volume nacional ficou em torno de 340 mil litros, sustentado principalmente pela região da Mantiqueira.

Em 2025, a safra voltou a ser frustrante, com números semelhantes aos do ano anterior. Para 2026, no entanto, a projeção é de superar os recordes anteriores. “Nós vamos superar os 640 mil litros de 2023 e não dá para descartar a possibilidade de o Brasil chegar a um milhão de litros”, projeta Obino.

O presidente do Ibraoliva destaca que a irregularidade produtiva dos últimos anos acendeu um alerta no setor. “Não podemos ter uma safra recorde e depois despencar, porque mercados que se conquista acabam se perdendo por não ter produto”, observa.

O Brasil conta atualmente com cerca de 10 mil hectares de oliveiras, área que permanece praticamente estável nos últimos dois anos. No Rio Grande do Sul, são aproximadamente 6,5 mil hectares, distribuídos em 110 municípios. Ao todo, os pomares estão presentes em cerca de 200 municípios brasileiros.

Encruzilhada do Sul concentra a maior área plantada do País, com cerca de 1 mil hectares. Mesmo sem expansão recente da área, o avanço da idade produtiva dos pomares contribui para o aumento natural da produção, potencializado pelas condições climáticas favoráveis do atual ciclo.

O aumento da produção ocorre em um contexto de posicionamento consolidado do azeite brasileiro no segmento premium e super premium. Segundo o Ibraoliva, o setor atua por opção estratégica nesse nicho, uma vez que não há escala para competir com azeites de média e baixa qualidade produzidos em sistemas intensivos nos países do Mediterrâneo.

Nós nunca vamos conseguir competir em volume com os países do Mediterrâneo, então a nossa opção sempre foi produzir azeite super premium”, explica Obino. A colheita antecipada, o processamento rápido e o uso de lagares modernos resultam em menor rendimento por fruto, mas garantem elevado padrão de qualidade.

Diferentemente dos azeites commodity importados, cujos preços variaram fortemente nos últimos anos, os azeites brasileiros mantiveram maior estabilidade. “O nosso preço segue outra lógica, não a da commodity”, observa o presidente do Ibraoliva.

Atualmente, o azeite nacional responde por cerca de 1% do consumo total no Brasil, mas já concentra aproximadamente metade do mercado de azeites super premium. As vendas seguem concentradas em canais especializados, como venda direta, feiras e empórios, mas começam a ganhar espaço também em áreas segmentadas de alguns supermercados.

Empresas projetam alta produção e qualidade

Entre os produtores, a Prosperato projeta uma das maiores safras de sua história. Com olivais em Caçapava do Sul, São Sepé, Sentinela do Sul e Barra do Ribeiro, a empresa estima produzir ao menos 50 mil litros de azeite em 2026, o dobro do volume registrado em 2025. De acordo com o diretor da empresa e mestre de lagar, Rafael Marchetti, o desempenho da safra está diretamente ligado ao bom comportamento do clima desde o inverno. “O período de frio foi adequado, garantindo uma floração abundante, polinização eficiente e uma carga de frutos muito promissora”, relata.

As chuvas registradas entre o final de dezembro e a primeira quinzena de janeiro são apontadas como decisivas para o atual estágio de desenvolvimento das azeitonas. Elas vieram no momento certo, quando os frutos já estavam formados e a lipogênese começa a ocorrer afirma Marchetti.

A colheita deve começar nesta semana. A empresa monitora o regime de chuvas neste período, uma vez que a redução da umidade facilita o manejo e preserva os atributos sensoriais. “As azeitonas são colhidas e em poucas horas já estão no lagar, o que é fundamental para evitar fermentação e perda de qualidade”, acrescenta.

O Lagar H, com pomares em Cachoeira do Sul, também projeta uma safra excepcional em 2026. A expectativa é processar cerca de 500 toneladas de azeitonas, com rendimento estimado em aproximadamente 60 mil litros de azeite, volume próximo do dobro do recorde histórico da empresa.

A diretora e azeitóloga Glenda Haas avalia que o ciclo atual representa uma recuperação expressiva após o desempenho abaixo do esperado em 2025. “Este ano a safra será fantástica, quase o dobro do nosso recorde até agora”, afirma.

Segundo ela, a colheita deve começar já na próxima semana. Glenda ressalta que o ano passado ficou muito aquém do esperado, refletindo um problema generalizado no País. “Assim como todos os produtores brasileiros, ficamos muito abaixo do potencial”, recorda. Para 2026, no entanto, a avaliação é de forte retomada. “Estamos crescendo em vendas ano a ano e a safra de azeites brasileiros neste ano será espetacular”, completa.

Já a Estância das Oliveiras, com sede em Viamão, também confirma a expectativa de um ciclo acima da média em 2026. Após produzir cerca de 7 mil litros de azeite em 2025, a estimativa é alcançar aproximadamente 15 mil litros nesta safra, mais que o dobro do volume anterior, impulsionada por condições climáticas favoráveis e pela elevada carga de frutos nos olivais.

Abertura da colheita será em abril e terá feira de negócios

A abertura oficial da colheita de olivas está marcada para 17 de abril, no Azeite Milonga, em Triunfo. Tradicionalmente realizada em fevereiro, a programação foi transferida para abril para ampliar a participação dos produtores.

Além do caráter simbólico, o evento passa a incorporar uma feira de negócios, reunindo fornecedores de insumos, máquinas, embalagens, tecnologia, distribuidores e varejistas. A mudança reforça o processo de profissionalização da cadeia e o foco em geração de negócios, acompanhando o crescimento e a maturidade do setor olivícola gaúcho.

Fonte: Jornal do Comércio

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