Crédito caro e clima hostil mantêm mercado de terras travado no RS

O mercado de terras para atividades agropecuárias no Rio Grande do Sul encerrou 2025 em um cenário de fortes contrastes. Enquanto os valores pedidos por hectare seguem elevados em diversas regiões, a efetivação de negócios permanece lenta, com baixa liquidez. A análise consta na 45ª edição do relatório Terras, da Scot Consultoria, com dados apurados entre agosto e dezembro de 2025, e indica que a situação gaúcha é mais delicada quando comparada à de outros grandes estados produtores do País.

No Rio Grande do Sul, o mercado de terras está travado, com pouca liquidez e produtores menos capitalizados”, afirma Gustavo Duprat, engenheiro agrônomo e analista de mercado da Scot Consultoria, um dos responsáveis pelo levantamento. Segundo ele, o comportamento reflete uma tendência nacional de maior cautela, impulsionada pela taxa Selic em 15% ao ano, que encareceu o crédito e reduziu o apetite por investimentos de maior risco.

No caso gaúcho, entretanto, fatores locais agravaram o cenário. As enchentes de 2024 comprometeram propriedades rurais, somando-se aos impactos das estiagens recorrentes dos anos anteriores. Além disso, os preços de culturas importantes, como o arroz, atingiram em 2025 os níveis mais baixos dos últimos cinco anos, limitando a capacidade de investimento dos produtores.

Essa conjuntura elevou o número de propriedades colocadas à venda, sem aumento proporcional da demanda. “Houve um volume elevado de ofertas no Estado. O que não houve foi um registro de procura efetiva pelas terras”, explica Duprat. Segundo ele, muitos produtores avaliam vender parte ou a totalidade das áreas, mas encontram dificuldades para concretizar os negócios.

O relatório mostra que outros estados produtores apresentam maior dinamismo, ainda que enfrentem seus próprios desafios. Em São Paulo, o mercado segue aquecido, sustentado especialmente pelo arrendamento para cana-de-açúcar e grãos. No Mato Grosso do Sul, apesar do crédito caro e da inadimplência no setor, a liquidez foi favorecida por safra recorde em 2025 e por investimentos em infraestrutura logística e industrial. Já em Mato Grosso, a procura por áreas de pastagem esteve mais aquecida, apoiada pelo preço firme do boi gordo.

No RS, o contraste é evidente. O mercado de arrendamento é descrito como praticamente inexistente, com sobra de áreas e ausência de interessados, reflexo direto da descapitalização e do endividamento dos produtores rurais.

Apesar da baixa liquidez, os preços das terras no Estado não cederam. Entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, as áreas destinadas à agricultura valorizaram 9,6%, enquanto as de pastagem tiveram alta de 7,6%, segundo a Scot Consultoria. No mesmo período, a valorização média nacional foi de 9,4% para agricultura e 14,5% para pastagem.

Mesmo com uma liquidez baixa, nós vemos os preços ainda se mantendo. Eles não tendem a ceder como acontece em outros mercados”, observa Duprat. A resistência está associada à percepção da terra como ativo de segurança, além de fatores como qualidade do solo, infraestrutura e proximidade de agroindústrias.

Na avaliação do economista-chefe da Farsul, Antonio da Luz, esse comportamento reforça o papel da terra como reserva de valor. “A terra é um ativo real que tende a preservar valor no longo prazo, especialmente quando analisado em equivalência com sacas de grãos”, afirma. Segundo ele, mesmo em períodos de baixa rentabilidade operacional, o imóvel rural mantém relevância patrimonial para o produtor.

Na prática, o mercado imobiliário rural tem funcionado como um mecanismo de reorganização patrimonial para produtores em dificuldade. Para o corretor de imóveis rurais Nilo Ouriques, a terra segue sendo o principal elemento de sustentação financeira no campo.

Não existe liquidação generalizada de terras no Estado. O que vemos são negócios pontuais, normalmente quando surge uma área boa em uma região onde quase não há oferta”, explica. Segundo ele, em muitos casos, produtores vendem áreas mais valorizadas para quitar dívidas e recompor patrimônio em regiões com preços mais baixos, mantendo a atividade produtiva.

Terra mantém atratividade em cenário de incerteza econômica

Ouriques destaca que, ao longo do tempo, a valorização da terra supera o resultado líquido da produção. Em sua avaliação, em um horizonte de cerca de 20 anos, o produtor raramente consegue extrair da atividade agrícola ou pecuária mais de 40% do ganho patrimonial proporcionado pela valorização do imóvel, o que reforça a atratividade da terra como ativo palpável, especialmente em momentos de incerteza econômica.

O valor médio do hectare para agricultura no RS alcança R$ 53.600, acima da média nacional de R$ 36.732,55, ficando atrás apenas de estados como São Paulo, Paraná e Goiás. A heterogeneidade regional, no entanto, é marcante. No Noroeste, especialmente no entorno de Passo Fundo, o preço pode chegar a R$ 137.500 por hectare, enquanto no Sudoeste, na região de Uruguaiana, a média fica em R$ 34.900.

Nas áreas de pastagem, o hectare médio no Estado custa R$ 25.614,29, valor inferior ao de outros estados pecuaristas, mas ainda acima da média nacional. A região Metropolitana de Porto Alegre apresenta os preços mais elevados, enquanto o Centro Ocidental registra os menores valores.

Para 2026, a expectativa é de continuidade do ritmo lento nos negócios. “Com taxa de juros elevada e custo do crédito alto, fica difícil projetar uma retomada significativa da liquidez”, avalia Duprat. A tendência é de ajustes pontuais de preços, sem grandes mudanças no volume de transações.

A recuperação da capacidade de investimento do produtor, aliada às condições climáticas e à evolução da política monetária, será determinante para que o mercado de terras no Rio Grande do Sul deixe o atual compasso de espera.

Preços de Terras para Agricultura e Pastagem (R$/ha) – agosto a dezembro de 2025

EstadoPastagemAgricultura
São Paulo53.60068.540
Paraná32.42066.320
Goiás30.70057.166,67
Santa Catarina29.38053.140
Rio Grande do Sul25.614,2953.600
Mato Grosso do Sul19.41045.100
Mato Grosso16.52543.562,50
Média Brasil21.635,3836.732,55

Preços de Terras no RS por Mesorregião (R$/ha) – agosto a dezembro de 2025

MesorregiãoPastagemAgricultura
Metropolitana de Porto Alegre35.70052.200
Nordeste (Caxias do Sul)24.90077.200
Noroeste (Passo Fundo)23.80074.100
Sudeste (Pelotas)26.80042.000
Sudoeste (Uruguaiana)24.00034.900
Centro Oriental (Cachoeira do Sul)22.90044.000
Centro Ocidental (Santa Maria)21.20050.800

Fonte: Scot Consultoria

Terra segue atrativa em cenário de incerteza econômica

Ouriques destaca que, ao longo do tempo, a valorização da terra supera o resultado líquido da produção. Em sua avaliação, em um horizonte de cerca de 20 anos, o produtor raramente consegue extrair da atividade agrícola ou pecuária mais de 40% do ganho patrimonial proporcionado pela valorização do imóvel, o que reforça a atratividade da terra como ativo palpável, especialmente em momentos de incerteza econômica.

O valor médio do hectare para agricultura no RS alcança R$ 53.600, acima da média nacional de R$ 36.732,55, ficando atrás apenas de estados como São Paulo, Paraná e Goiás. A heterogeneidade regional, no entanto, é marcante. No Noroeste, especialmente no entorno de Passo Fundo, o preço pode chegar a R$ 137.500 por hectare, enquanto no Sudoeste, na região de Uruguaiana, a média fica em R$ 34.900.

Nas áreas de pastagem, o hectare médio no Estado custa R$ 25.614,29, valor inferior ao de outros estados pecuaristas, mas ainda acima da média nacional. A região Metropolitana de Porto Alegre apresenta os preços mais elevados, enquanto o Centro Ocidental registra os menores valores.

Para 2026, a expectativa é de continuidade do ritmo lento nos negócios. “Com taxa de juros elevada e custo do crédito alto, fica difícil projetar uma retomada significativa da liquidez”, avalia Duprat. A tendência é de ajustes pontuais de preços, sem grandes mudanças no volume de transações.

A recuperação da capacidade de investimento do produtor, aliada às condições climáticas e à evolução da política monetária, será determinante para que o mercado de terras no Rio Grande do Sul deixe o atual compasso de espera.

Fonte: Jornal do Comércio

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