China retira suspensão na importação de carne de frango do RS
A avicultura do Rio Grande do Sul começa 2026 com um alívio relevante no comércio exterior. A China suspendeu oficialmente, em 16 de janeiro, as restrições sanitárias à importação de carne de frango do Estado, encerrando um embargo que estava em vigor desde julho de 2024, após a confirmação de um foco da doença de Newcastle no município de Anta Gorda.
A decisão foi formalizada por meio de comunicado da Administração Geral das Alfândegas da China (GACC), com base em análise de risco sanitário, reconhecendo a erradicação da ocorrência e a efetividade das medidas adotadas pelo sistema sanitário brasileiro. No Brasil, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) confirmou a reabertura do mercado nesta semana.
Antes da suspensão, o Rio Grande do Sul mantinha um fluxo mensal de embarques entre 45 mil e 60 mil toneladas de carne de frango, tendo a China como principal destino desse volume. A perda desse mercado reorganizou a estratégia comercial das indústrias, afetando a logística, o mix de produtos exportados e a rentabilidade do setor ao longo de 2024.
Embora a liberação sanitária já esteja em vigor, parte das plantas frigoríficas gaúchas ainda enfrenta entraves operacionais, ligados à atualização dos sistemas entre os dois países. A expectativa é que a GACC reative gradualmente as habilitações das unidades exportadoras nos próximos dias, permitindo a retomada plena dos embarques.
O secretário de Comércio e Relações Internacionais do Mapa, Luis Rua, que acompanhou as negociações, avalia que a decisão encerra definitivamente as restrições ao Estado. “Com esse anúncio, não resta mais qualquer tipo de restrição aos embarques de carne de frango, seja do Brasil seja do Rio Grande do Sul”, afirmou.
Para o presidente executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), José Eduardo dos Santos, o fim do embargo encerra um período de forte apreensão no setor. Ele avalia que os embarques podem ser retomados em cerca de cinco dias após a normalização dos sistemas e que a China tende a reassumir, no curto prazo, uma participação próxima de 6% nas exportações de carne de frango do Estado, patamar observado antes da suspensão.
“As indústrias já iniciaram seu processo de prospecção e atendimento a muitos pedidos que ficaram represados e pendentes. Existe toda uma carteira de clientes fidelizados na China que também vinham trabalhando insistentemente para que houvesse essa reabertura, já que atuam há anos com empresas do Rio Grande do Sul”, afirma Santos.
A retomada, no entanto, não deve ocorrer de forma imediata. Durante o período de embargo, parte da produção foi redirecionada para filiais em outros estados ou para mercados alternativos, exigindo agora um novo ciclo de negociação comercial.
Ainda assim, Santos entende que não ficam desgastes na relação com a China e que o episódio deixa lições importantes. “Estávamos angustiados com essa morosidade após ser solucionado o caso de Influenza Aviária – ocorrido em maio de 2024, em uma granja comercial de Montenegro – e ter ficado essa pendência de comunicação em relação à doença de Newcastle. Serve de aprendizado para que haja soluções rápidas e técnicas e para que o setor siga investindo cada vez mais em biosseguridade”, avalia.
O posicionamento institucional é reforçado pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que atribui a reabertura ao trabalho técnico e diplomático conduzido pelo Mapa, em diálogo permanente com as autoridades chinesas. Para a entidade, a decisão reafirma a credibilidade do sistema sanitário brasileiro, a transparência do processo e a capacidade de resposta do País diante de ocorrências sanitárias pontuais, além de marcar mais um passo no processo de normalização plena dos fluxos comerciais.
China paga acima da média e sustenta a rentabilidade da avicultura gaúcha

Perda do mercado da China levou o setor a uma reorganização em busca de novos compradores
ABPA/DIVULGAção/JC
Além do volume, o retorno da China tem peso direto sobre a rentabilidade do setor. Segundo o analista do setor de carnes da consultoria Safras & Mercado, Fernando Iglesias, o país asiático historicamente remunera melhor a carne de frango brasileira do que a média global, o que explica sua centralidade na estratégia das empresas gaúchas. Em janeiro de 2023, por exemplo, os embarques ao mercado chinês alcançaram um valor médio de US$ 2.593 por tonelada, enquanto a média global ficou em US$ 2.051.
Iglesias lembra que, antes da suspensão, a China era o principal comprador da carne de frango produzida no Rio Grande do Sul e que a perda desse mercado obrigou o setor a uma reorganização. Ainda assim, ele avalia que o ajuste para a retomada não deve ser traumático. Isso porque o perfil de compras chinês é bastante específico, com forte demanda por produtos como o pé de frango, corte com menor aceitação em outros destinos.
Durante o período de embargo, o Estado precisou alterar o mix exportado, priorizando peito, coxa e asa, ao mesmo tempo em que buscou novos mercados. Com a reabertura, esse movimento tende a se tornar complementar. A retomada da China deve ocorrer sem necessariamente comprometer os parceiros conquistados no período, ampliando o leque de possibilidades comerciais.
Na avaliação do analista, a normalização do comércio deve ser gradual, mas com horizonte relativamente claro. A expectativa é que, entre julho e agosto, o fluxo esteja mais próximo do padrão observado antes da suspensão, restabelecendo a corrente de comércio que existia até meados de 2024.
Com a reabertura do mercado chinês, o setor avícola gaúcho passa a vislumbrar não apenas a recomposição de perdas, mas também a possibilidade de ampliar o volume total exportado. Para 2026, a Asgav projeta crescimento entre 3% e 4% nas exportações de carne de frango e avanço entre 10% e 20% no segmento de ovos, números que agora voltam a contar com o principal mercado externo do Estado.
Fonte: Jornal do Comércio

