La Niña: diminuição das chuvas pode trazer desafios para agronegócio gaúcho
Na última quinta-feira (9), a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera dos Estados Unidos (NOAA, em inglês) confirmou o retorno do La Niña, que deve reduzir as chuvas na Região Sul do Brasil. A chegada do fenômeno provocará impactos na agricultura gaúcha.
“O La Niña é o resfriamento do Oceano Pacífico Equatorial que provoca alterações no clima global. No Rio Grande do Sul, deixa a chuva mais irregular e falhada. Então, o intervalo entre uma chuva e outra acaba sendo mais espaçado, sobretudo nos meses de verão, o que muitas vezes se reverte em estiagem”, explica a meteorologista Estael Sias, da MetSul Meteorologia.
Isso, contudo, não é regra. A atuação do La Niña varia conforme o momento de sua chegada, podendo interferir também nas temperaturas e alterar a circulação dos ventos na atmosfera.
Desta vez, o diferencial está na baixa intensidade e curta duração do fenômeno. “Para nós, o maior reflexo vai ser a diminuição da chuva durante os meses de novembro e dezembro. Durante o verão, nos meses de janeiro e fevereiro, a tendência é de gradativamente voltar à normalidade”, afirma o meteorologista Flávio Varone, da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação do Estado (Seapi).
Os impactos na agricultura gaúcha, portanto, devem ser mais amenos. E, em alguns casos, a mudança pode até favorecer as colheitas das safras de inverno.
“A colheita da safra de inverno, não finalizou ainda. Algumas culturas devem ter uma condição melhor para a colheita, por exemplo, em meados de novembro, porque, com a diminuição da chuva, não há problema de doença, não há problema de umidade demais no campo. Então o pessoal pode colher tranquilamente”, destaca Varone.
Embora a safra de verão precise de chuva durante a primavera, o meteorologista da Seapi aponta que os acumulados registrados no mês de setembro devem ter ido suprido as demandas hídricas iniciais. Para o restante da estação, as chuvas regulares devem ser suficientes.
“O La Niña pode deixar a chuva irregular ou até provocar estiagem. Essa é a preocupação. Mas, em princípio, o que os modelos têm projetado para esse período é de chuva dentro da média e, em algumas áreas, até acima da média”, diz Estael.
Mesmo assim, a época do ano, por si só, demanda atenção redobrada, principalmente, para o cultivo da soja, que tem maior demanda hídrica.
“O calor do verão aumenta a transpiração das plantas. Se perde muita umidade para atmosfera em função do aumento da temperatura. Isso pode trazer alguns problemas em algumas áreas do Estado, onde não choveu tanto em setembro e outubro. Nesse sentido, temos que ter um pouco mais de cuidado”, completa Varone.
Atenção é palavra-chave para lidar com o La Niña
No Boletim de Informações nº 75, do Conselho Permanente de Agrometeorologia do Estado do Rio Grande do Sul (Copaaergs), divulgado no início deste mês, a confirmação do fenômeno exige “maior atenção e investimento na captação de água, ampliação de reservatórios e manutenção das estruturas de armazenamento de água“. Além disso, é essencial adotar práticas de manejo e conservação do solo.
Entre as orientações gerais listadas pela Copaaergs, destacam-se:
- Adotar sistemas de irrigação, monitorando as necessidades hídricas de cada cultura;
- Implantar e manter plantas de cobertura para melhoria e recuperação do solo;
- Consultar a assistência técnica da Emater/RS, IRGA, Cooperativas e outras, para implantação e manejo das culturas;
- Consultar os serviços de previsão de tempo e clima, para o planejamento, manejo e execução das operações agrícolas;
- Escalonar a época de semeadura/plantio e utilizar cultivares de ciclos diferentes seguindo o Zoneamento Agrícola de Risco Climático;
- Implantar as culturas em condições adequadas de umidade e temperatura do solo;
- Dar ênfase ao monitoramento de doenças e pragas;
- Aderir às políticas de seguro agrícola para minimizar perdas decorrentes de situações climáticas adversas.
“É ruim, mas não é o pior dos cenários“, afirma Alencar Rugeri, assistente técnico estadual da área de culturas da Emater/RS-Ascar. Para ele, a recomendação é escalonar o plantio, evitando o plantio antecipado de certas culturas. No entanto, o maior segredo para o sucesso da safra é estar atento às previsões meteorológicas durante a tomada de decisão.
“O que eles devem fazer é aquela velha estratégia de escalonar o plantio. Se as previsões se confirmarem, vamos ter um janeiro com uma volta da normalidade. Então, o plantio não vai dar para ser antecipado, porque as condições climáticas não estão favoráveis. Vai da decisão do produtor, mas ele tem que se apropriar dessa informação“, aconselha Rugeri.
Fonte: Jornal do Comércio

