Embate sobre uso do 2,4-D opõe fruticultores e produtores de soja no RS

A discussão sobre o uso do herbicida hormonal 2,4-D voltou a acirrar o campo no Rio Grande do Sul. De um lado, produtores de grãos, sobretudo soja, que dependem do produto para o controle de plantas daninhas resistentes. De outro, fruticultores e vitivinicultores, que relatam perdas expressivas provocadas pela deriva do defensivo em pomares e vinhedos. O impasse, que há anos ronda as safras gaúchas, ganhou contornos mais dramáticos nas últimas semanas, após decisões conflitantes da Justiça.

A primeira delas partiu da juíza Patrícia Antunes Laydner, da Vara Regional do Meio Ambiente, que acolheu pedido da Associação Gaúcha de Produtores de Maçã (Agapomi) e da Associação dos Produtores de Vinhos Finos da Campanha Gaúcha. A decisão determinou a proibição da aplicação de 2,4-D em toda a região da Campanha e estabeleceu restrições de proximidade para áreas com vinhedos e pomares em outras regiões do Estado.

Dias depois, no entanto, o desembargador Francesco Conti, da 4ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do RS, concedeu efeito suspensivo ao recurso do governo estadual. Com isso, a decisão anterior foi revertida, permitindo novamente o uso do herbicida até que um novo regramento seja estabelecido. A medida atendeu a pedido da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação, que argumentou estar construindo, em conjunto com entidades e Ministério Público, uma normativa mais clara e protetiva.

Há um trabalho em andamento para convergência de ações, envolvendo órgãos reguladores, entidades de produtores e a Assembleia Legislativa. O objetivo é elaborar critérios técnico-científicos e operacionais que deem mais segurança às culturas sensíveis”, informou o órgão em nota.

Para entidades ligadas à vitivinicultura e à olivicultura, a decisão que liberou o uso do 2,4-D em plena primavera representa um risco elevado. O diretor executivo da Federação das Cooperativas Vinícolas do Rio Grande do Sul (Fecovinho), Hélio Marchioro, relata que a deriva já causou danos comprovados a vinhedos em anos anteriores. O dirigente, que também é membro da Aliança pela Fruticultura do Estado e do Conselho de Planejamento e Gestão da Viticultura do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), lembrou que há uma série de normas para aplicação na própria embalagem do 2,4-D. Entre elas, a velocidade do vento menor que 10 km/h, a umidade relativa do ar superior a 55% e a temperatura ambiente menor que 30°C.

Segundo ele, o problema não atinge apenas a vitivinicultura, mas se estende a uma ampla gama de culturas e atividades de pesquisa. Marchioro ressaltou que vinhedos inteiros foram perdidos em municípios como Santa Maria, Jaguari, Bagé e Vacaria. Cooperativas já teriam registrado quedas expressivas de produção, e a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) tem tido dificuldade no desenvolvimento de pesquisas porque seus parreirais teriam vêm sendo comprometidos pela deriva do herbicida.

Para Marchioro, a sucessão de episódios de contaminação demonstra que não há mais espaço para tolerância. “É preciso proibir o uso do 2,4-D, porque as medidas de controle e fiscalização adotadas até hoje não conseguiram evitar os danos. Não se trata apenas de prejuízo econômico, mas também de perda de credibilidade em relação ao trabalho científico e à capacidade de convivência entre diferentes cadeias produtivas”, afirma.

O Instituto Brasileiro de Olivicultura (Ibraoliva) também vê com preocupação a retomada do uso. O diretor jurídico da entidade, Jorge Buchabqui, afirmou que a medida coincide com a fase de floração dos olivais, quando os impactos podem ser irreversíveis”, disse.

O Ibraoliva prepara duas frentes de ação: ingressará como amicus curiae na ação civil pública e orientou seus associados a notificarem vizinhos que utilizam herbicidas hormonais, pedindo que busquem alternativas para evitar prejuízos e eventuais disputas judiciais.

A ideia não é gerar disputa, e sim buscar convivência pacífica. Mas como estamos tendo danos, é necessário agir de forma preventiva. Se houver prejuízos, nossos produtores ingressarão em juízo para reparação”, destacou Buchabqui.

Produtores de grãos pedem equilíbrio

Na outra ponta, a Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (Aprosoja-RS) defende o uso do 2,4-D como ferramenta indispensável ao manejo de plantas daninhas resistentes. O presidente da entidade, Ireneu Orth, reconhece que há casos de deriva e prejuízos a culturas sensíveis, mas defende que a solução passe por regras claras e treinamento.

O setor precisa de equilíbrio. Não se pode inviabilizar a produção de soja, mas também não se pode ignorar os danos aos vizinhos. É necessário aperfeiçoar a regulamentação, exigir responsabilidade e fortalecer as boas práticas”, disse.

O dirigente sugeriu que os produtores avisem previamente os vizinhos sobre a aplicação do 2,4-D e adotem medidas conciliatórias, com o objetivo de prevenir danos às culturas vizinhas e manter a convivência pacífica entre diferentes cadeias produtivas.

Entidade que congrega 35 cadeias produtivas do agro gaúcho, a Federação da Agricultura do Estado (Farsul), destaca que o problema não é a molécula em si, mas a aplicação inadequada. “O 2,4-D é registrado e autorizado em todo o País. O que precisa ser reforçado é a capacitação do aplicador e o cumprimento rigoroso das condições de uso. A solução não virá da proibição, mas da fiscalização e da educação técnica”, diz a assessora ambiental Paula Hofmeister.

Indústria defende inovação

Do lado da indústria, a Corteva Agriscience informa que deixou de comercializar formulações isoladas de 2,4-D sal amina em 2022 e que tem apostado em tecnologias de menor volatilidade. A companhia oferece ao mercado o Enlist Colex-D, nova formulação de 2,4-D sal colina, com promessa de reduzir em até 90% o potencial de deriva quando aplicado com ponta de indução de ar. “Trata-se de uma evolução tecnológica, que alia eficácia no controle de plantas daninhas a menor impacto ambiental”, destacou a empresa em nota.

Já a CropLife Brasil, entidade que reúne empresas do setor, afirmou que a decisão da juíza Patrícia Laydner trouxe preocupação ao simplificar uma questão complexa que exige debate contínuo. A associação destacou a criação de uma força-tarefa em parceria com instituições públicas e privadas, voltada a capacitação em boas práticas, assistência técnica e incentivo a tecnologias mais seguras.

Debate avança no Legislativo e em eventos

Na esfera política, a Comissão de Agricultura, Pecuária, Pesca e Cooperativismo da Assembleia Legislativa criou uma subcomissão para debater o tema dos herbicidas hormonais e propor medidas de mitigação, em diálogo com produtores e órgãos técnicos. O grupo, que teve os deputados Elton Weber (PSB) como presidente e Adolfo Brito (PP) como relator, realizou uma série de audiências pelo Estado e aprovou um conjunto de 10 propostas estruturantes, que vão da transformação das instruções normativas em lei estadual à criação de zonas de exclusão e sistemas de rastreabilidade digital das aplicações. Entre as recomendações estão ainda a integração da fiscalização, alertas preventivos meteorológicos, inspeção de equipamentos e capacitação de aplicadores, além de fundos de indenização e programas de pagamento por serviços ambientais para áreas vulneráveis. O relatório, aprovado em agosto de 2025, prevê prazos de implementação que vão de seis a 10 meses e busca conciliar segurança jurídica, proteção ambiental e convivência entre diferentes cadeias produtivas.

O que são herbicidas hormonais

Herbicidas hormonais, como o 2,4-D, são produtos químicos usados para controlar plantas daninhas. Eles atuam mimetizando hormônios vegetais naturais (auxinas), provocando crescimento desordenado nas plantas-alvo, o que leva à morte das daninhas sem afetar significativamente a cultura desejada quando aplicado corretamente.

Principais vantagens
Eficiência seletiva:
 Mata plantas indesejadas sem prejudicar culturas resistentes.
Custo-benefício: São relativamente baratos e amplamente disponíveis.
Flexibilidade de aplicação: Podem ser usados em diversas fases do ciclo da cultura, desde dessecação pré-plantio até pós-emergência de algumas plantas.
Redução da competição: Mantêm o solo limpo de plantas daninhas, permitindo maior produtividade da cultura principal.
Complementam sistemas integrados de manejo: Quando combinados com práticas agrícolas corretas, auxiliam na produtividade sustentável.

Críticas e preocupações
Deriva e contaminação:
 O produto pode se deslocar pelo vento, atingindo culturas vizinhas, especialmente em regiões de produção diversificada.
Risco ambiental: Exposição em excesso ou aplicação incorreta pode afetar fauna, flora e ecossistemas locais.
Impacto em culturas sensíveis: Vinhedos, pomares de frutas e olivicultura são particularmente vulneráveis, podendo sofrer perdas totais em áreas atingidas.
Imagem e mercado: Há pressão de consumidores e de segmentos que priorizam produtos agrícolas com menor uso de químicos, o que afeta a reputação de produtores que utilizam o herbicida.

Fonte: Jornal do Comércio

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