Gardel e Le Pera a Simbiose Perfeita

Por: Fábio Verardi

Reconhecido como o maior parceiro de Gardel, Alfredo Le Pera foi um dos grandes letristas do Tango canção de todos os tempos. Seu trabalho fez com que as obras gardelianas fossem eternizadas. Ele nasceu em São Paulo, no dia 7 de junho de 1900, seus pais eram imigrantes italianos e chegaram ao sul da América com a intenção de morarem na Argentina. A escala no Brasil se deu por sua mãe estar prestes a dar a luz, assim, Le Pera nasceu brasileiro. Seis meses depois, com a epidemia de gripe que assolava o Brasil, decidiram rumar finalmente a Buenos Aires. Relata a história que Le Pera, assim como seus irmãos, sempre foram reconhecidos como alunos exemplares por seus professores no colégio. Na juventude buscou estar sempre nos círculos literários de Buenos Aires, foi aluno do dramaturgo e crítico teatral Vicente Martínez Cuitiño, o qual impressionou com uma monografia sobre literatura espanhola. Alfredo amava o teatro e tocava piano, mas, após concluir sua formação estudantil, para satisfazer seus pais, chegou a cursar 4 anos a faculdade de Medicina. Livre do encargo moral, Le Pera passou a fazer o que realmente amava, a literatura e as artes. Assim, trabalhou na redação de alguns jornais diários, como o Última Hora. Em 1923, iniciou sua paixão pelo teatro, sendo assistente em algumas companhias, e, em 1927 estreou sua primeira peça, La Sorpresa Del Año, ao lado de Humberto Cairo.

Alfredo começou a conhecer as facetas da noite portenha e se aproveitar do teatro para tecer ácidas críticas em suas colunas jornalísticas. E foi assim seu primeiro encontro com Gardel, um dia ele teve a infeliz ideia de fazer uma crítica negativa sobre um jovem cantor que interpretava em dueto canções campeiras ao final das peças de teatro, estes seriam Gardel e o uruguaio Jose Razzano. Carlitos leu a nota escrita, e no dia seguinte foi até a redação do jornal tomar satisfação do cronista. Le Pera, por sua vez, se explicou usando seu rico vocabulário, e convenceu a Gardel que a crítica era construtiva e iria ajuda-lo em sua carreira ou invés de prejudica-lo. Carlitos aceitou a explicação, apertaram as mãos, sem saberem que 10 anos mais tarde se tornariam parceiros inseparáveis. Tomás Simari, reconhecido como “o homem das mil vozes” em suas memórias, especula que possivelmente tenha sido ele a apresentar o letrista ao músico no ano de 1923. Ele tinha admiração pelo jovem Le Pera, que era concentrado e muito inteligente. Ainda muito jovem, Alfredo se apaixonou perdidamente por uma atriz que trabalhava num espetáculo de comédia, Aida Martínez, passaram a viver juntos, até que a jovem adoeceu e morreu. Desolado, Le Pera jurou nunca mais apaixonar-se por ninguém na vida.

Ele mergulhou totalmente no mundo do teatro e dos palcos, gozando de amores passageiros e bonitas mulheres, quando em 1927 seu empresário o conduziu a uma viagem ao velho continente. A viagem tinha o intuito de atualizar aspectos da cenografia e comprarem novos figurinos para suas peças. Paris foi a grande inspiração, afinal a sociedade argentina costumava imitar o luxo da cidade luz. Quando retornou a Buenos Aires, Alfredo foi convidado com a proposta de produzir diálogos em espanhol para os filmes americanos da Paramount, a novidade da voz ao então cinema mudo. Os americanos haviam criado um sistema para traduzir os diálogos das fotonovelas em castelhano e Le Pera foi um dos indicados pela Empresa dos Artistas Unidos de Buenos Aires. Em 1929, seu trabalho foi reconhecido e a necessidade de mercado aumentou, a Paramount então, propôs que ele fizesse a mesma tarefa na filial dos estúdios em Paris. Um presente para Alfredo, que sempre sonhara morar na cidade luz, mas, chegando lá, viu seu sonho transforma-se em árduo trabalho. A sensibilidade e a precisão de Le Pera fez com que a Paramount lhe confiasse a gigantesca tarefa de traduzir e difundir todos os filmes para os países de língua hispânica. Ele acabou pagando o preço de sua competência, mas, no ano de 1931, o destino novamente bateria em sua porta. Carlos Gardel, que já fazia sucesso em Paris, foi enfim convidado para filmar pela Paramount, e, numa de suas visitas aos estúdios, foi saudado pelo jovem Alfredo e o reconheceu como seu compatriota, o inteligente colunista do jornal. A conexão foi instantânea.

Nos meados de 1932 se estabeleceu o primeiro trabalho da dupla, no filme Espérame, produzido pela Paramount, o que viria a ser o início de uma sociedade perfeita. Eles jamais poderiam imaginar o sucesso dessa combinação, um êxito que transcenderia suas próprias vidas. Para Le Pera foi um despertar de sua poesia que estava adormecida que somou-se ao talento natural de Gardel como ídolo popular. Alfredo foi um visionário da poesia musicada, escreveu versos indeléveis para construir o mito Carlos Gardel. Foi um amigo que esteve sempre ao lado de Carlitos, e, que o destino elegeu que tivessem um final inseparável. Talvez o mais notável de toda essa história é que Gardel e Le Pera produziram tudo o que conhecemos em menos de três anos. Produziram grandes sucessos, como: “Espérame” (1932), “Melodía de Arrabal” (1932), “Cuesta Abajo” (1934), “Mi Buenos Aires Querido” (1934), “Tango en Broadway” (1934), “El Día que me Quieras” (1935) e “Tango Bar” (1935). A contar pelo curto tempo de parceria, eram quase dois filmes gravados por ano, afinal eles compuseram boa parte dos seus maiores sucessos musicais justamente para o cinema.

A Fundação Internacional Carlos Gardel – Buenos Aires, Paris, Nova Iorque, publicou texto em julho de 2020, com o título – Gardel e Le Pera, a simbiose perfeita. Sobre Alfredo Le Pera, afirmou o cronista Oscar Mármol na publicação do site literatura rioplatense em junho de 2009: “Este notável do Tango, injustamente não reconhecido em toda sua dimensão, pelos críticos do Tango, é um dos mais relevantes poetas da nossa canção cidadana”.

Sobre o contrato com a Casa Victor, que levaria Gardel e Le Pera a sua gira fatal, ele declarou: “Eu felicito a Gardel e a Casa Victor por este contrato que para mim é um prazer poder ver registradas minhas composições em discos de magnífica qualidade, somado a isto, a satisfação de serem interpretadas por um artista com o grande talento de Gardel.”

Le Pera está enterrado num mausoléu no cemitério da Chacarita em Buenos Aires, distante do túmulo de Gardel e dos demais tangueros, talvez para que possa gozar do silencio e continuar a produzir em algum lugar, novas canções.

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