As Mulheres de Gardel

Por: Fábio Verardi

O maior astro da América, Carlos Gardel, sempre foi reconhecido por sua elegância ímpar, passando a imagem de um homem bonito, sedutor, um verdadeiro, Don Juan. Mas, ao longo de sua vida, Gardel sempre foi alvo de questionamentos sobre o fato de nunca ter se casado e ser extremamente discreto com aparições com mulheres em público.

Afinal, quem foram os amores Gardel?

O pesquisador e escritor gaúcho, Aldyr Schlee, falecido em 2018, escreveu em 2009 para uma coluna do jornal Zero Hora com o título: “Todas as Mulheres de Gardel”. Ele considera a origem uruguaia do cantor, e traz, Clara que vivera numa morada rural em La Fructuosa, Tacuarembó, a mucama Felícia, depois a senhora Juana, com paixões incontidas, mentiras, traições em âmbito familiar e até, talvez, o incesto.
Disse Schlee “Admito que há uma certa fabulação, por exemplo, na construção da personagem Mulata-Flor. Mas ela existiu. Tudo ali existiu”. O Schlee inclusive tem um trabalho que são 12 contos, os ditos contos gardelianos, “Os limites do impossível”, lançados pela editora Ardotempo em 2009. Em cada conto tem como título o nome de uma mulher – Clara, Felícia, Juana, Cisa, Blanca, Rosaura, La Niña, Manuela, Mulata-Flor, Constantina, Berta e La Madorell.

E dentre esses mistérios gardelianos, nós temos os mais recorrentes da época que atribuíam os romances com Mona Maris, talvez a foto mais famosa de Gardel, que Mona está abraçada nele fazendo quase um cambret, uma pose de dança. Sobre essa polêmica, Mona Maris declarou em 1939 no Diario El Sol: “Gardel e eu fomos grandes amigos, mas eu sentia por ele algo maior que só a amizade. Carlos era um cavalheiro, másculo, simpático, as mulheres deliravam por ele e chegavam a implorar pela sua admiração.”

A atriz Imperio Argentina, famosa por atuar em películas da Paramount em Paris, protagonizou dois filmes ao lado de Gardel, La Casa es Seria e Melodia de Arabal, ambos em 1932. E foi uma das poucas atrizes a cantar em duo ao lado de Carlitos. Sobre a possível relação com ele, declarou: “Trabalhei com muito prazer com ele, por um lado ele era um homem muito sensível e por outro era um total egocêntrico. Era lindo, mas se apaixonava muito fácil, tentou se aproximar de mim aos poucos, mas eu gostava de outro tipo de homem.”

A lista de pretensas namoradas inclui as figuras de María Esther Gamas, Sally Wakefield, Gaby Morlay, Perlita Greco e Magali de Herrera. Dessas menções de romances especulativos, é importante sublinhar que sua relação com a Sally de Wakefield, cumpre uma interpretação diferente. Sally, era a Baronesa Sally de Wakefield, casada com o Barão George Wakefield e teriam uma posição econômica muito elevada na sociedade europeia. Portanto, Gardel e a Baronesa nutriram outro tipo de vínculo, dizem que a Baronesa foi a figura chave para alavancar a carreira de Gardel, financiando seus primeiros filmes em Paris e também facilitando sua chegada aos Estados Unidos.

Como destacam Lucía Gálvez y Enrique Espina Rawson no livro Romances de Tango, consideram que as relações mais estáveis de Carlitos teriam sido com Madame Jaenne y con Isabel del Valle. A nota do escritor César Tiempo, em 1955, como o título “Así queria Gardel”, nos refere: “Nunca teve paixões, as paixões que ele chamava eram mulheres que conhecia no seu meio. Não porque as desdenha-se, mas por que ele considerava que precisava ser sempre o melhor no seu ofício, por isso sempre separou muito bem a casca da madeira de seu cerne, para não se enganar por um sentimento que pudesse lhe deixar a mercê de apaixonar-se ou para que aproveitassem seu prestígio como um trampolim”.

Mas, a polêmica maior gira em torno mesmo de Isabel Del Valle, uma jovem com quase 20 anos de diferença em relação a Gardel. Os relatos contam dessa relação em 1921, e seria a mulher que Gardel teria convivido por mais de 10 anos. A investigadora de temas históricos do tango, Guadalupe Aballe publicou no site Todotango que a relação de Carlitos e Isabel tivera bons momentos, ambos iam ao cinema, teatro, ao boxe, as corridas de cavalos e desfrutavam de piqueniques nos bosques de Palermo, inclusive com a família de Isabel Del Valle. Iam comer no restaurante Tropezón, La Emiliana, La Sonambula e a Cabarés, como o Chantecler e o Tabarís. Isabel conheceu os amigos de Gardel, como Razzano, Leguisamo e Maschio, inclusive com a família de Razzano teriam passado férias juntos.

A polêmica da relação se dá por muitas cartas, resgatadas por historiadores, que revelariam abusos financeiros da família de Isabel e da própria Isabel em relação ao dinheiro de Gardel. Carlitos sempre foi um homem generoso e deu a Isabel presentes de quantias expressivas, como um sobretudo de peles, forrado de arminho, que Isabel teria vendido a um fabricante de queijos para ganhar dinheiro. Também, um anel de ónix rodeado de diamantes, que ao abrir sua tampa, aparecia a foto do cantor. Assim, Gardel foi se afastando de Isabel e da família, por estar farto das exigências, e principalmente dos irmãos dela, que teriam conseguido com Gardel empréstimos que nunca seriam pagos e ainda exigiam mais dinheiro. Até a sogra, a mãe de Isabel, pediria sempre quantias generosíssimas a Gardel. As cartas à Isabel de 1934, escritas pelo empresário de Gardel, Armando Defino, são fortes e categóricas: “Carlitos está cansado das ingratidões e prepotências de sua família, e de sua própria noiva, e, quer terminar de uma vez a relação. Acabaram as mesadas e daqui não virá mais nenhum centavo”. A contar pelas datas do suposto início do relacionamento, até seu término, Gardel teria mantido uma relação de pelo menos 12 anos com Isabel.

O pesquisador Juan Carlos Esteban, um dos autores do livro, El Padre de Gardel, quando perguntado sobre as mulheres do cantor, respondeu: “Era um homem casado com sua profissão e que amava sua mãe. Além disso, naquela época havia um culto à discrição com as mulheres. Ele era muito reservado. Teve um caso de 24 a 32 com Isabel Del Valle. Eles saíam pouco em público e nem todos sabiam desse relacionamento”. Nesse contexto, existem literaturas que cogitam até a homossexualidade de Gardel. O cantor Roberto Maida publicou na revista Así, em 1965: “Jamais se conheceu uma namorada ou amante ou simplesmente uma mulher que o acompanhasse de forma permanente, quem disser algo contrário estará mentindo.” Relatou Francisco García Jiménez em Tempo de Gardel de 1987, que Isabel Del Valle teria declarado: “Carlos somente esteve casado com a música”.

Assim nos conta a história que o maior artista da América, nunca manteve uma vida de casado, as fotos, vídeos sempre nos mostram Gardel pronto, armado para o sucesso, um sorriso de abrir portas, mas raramente vimos ao lado do astro, uma mulher. Assim era Gardel, o maior promotor dos seus próprios mistérios.

Mostrar mais
Botão Voltar ao topo