Workshop debate avanços da Edição Gênica em Bovinos para a Pecuária Tropical

O Brasil se tornou o primeiro país da América Latina a produzir bezerros da raça Angus geneticamente editados por meio da tecnologia CRISPR-Cas9 e eletroporação do núcleo, ferramenta de biotecnologia que permite cortar e modificar com precisão o DNA, possibilitando alterações no genoma dos organismos. O avanço representa um novo passo nas pesquisas voltadas ao melhoramento genético de bovinos adaptados às condições da pecuária tropical.

Os resultados iniciais desse projeto e as perspectivas da edição gênica na produção pecuária estiveram entre os temas debatidos durante o Workshop de Edição Gênica em Bovinos: Inovações para a Pecuária Tropical e Subtropical, promovido pela Associação Brasileira de Angus em parceria com a Embrapa Gado de Leite e Embrapa Pecuária Sul, no dia 25 de março, em Bagé (RS). Realizado no Sindicato Rural do município. O encontro reuniu pesquisadores, técnicos e produtores interessados nos avanços da biotecnologia aplicada à pecuária de corte.

Entre os destaques do evento, estava a apresentação do pesquisador da Embrapa Gado de Leite, Dr. Luiz Sergio de Almeida Camargo, que abordou os resultados iniciais do projeto voltado ao aumento da tolerância ao calor em bovinos da raça Angus. O estudo comparou  animais geneticamente editados com indivíduos não editados, utilizados como controle, para avaliar parâmetros fisiológicos como taxa de respiração e temperatura corporal.

Segundo o pesquisador, a edição gênica representa uma nova fronteira no melhoramento genético de precisão. “Esse workshop é uma oportunidade para apresentarmos a evolução das pesquisas com edição gênica, uma ferramenta que permite promover características desejáveis em espécies diferentes como em bovinos, sem depender exclusivamente de cruzamentos. Trabalhamos com a transmissão de alelos entre raças, pequenas variações em genes, associados à tolerância ao calor na raça Angus”  explica Camargo. Para ele, a proposta é desenvolver animais mais adaptados às condições tropicais, contribuindo para a difusão da raça e de seus cruzamentos no Brasil

A pesquisadora, Dra. Clara Slade Oliveira, da mesma instituição, também participou do evento com a palestra “Biópsia embrionária para seleção genômica em bovinos”, destacando o potencial da biotecnologia reprodutiva para acelerar o progresso genético nos rebanhos. Segundo ela, a técnica permite a retirada de uma pequena amostra do embrião antes da transferência para a receptora, possibilitando a realização da genotipagem e a seleção genética ainda na fase embrionária. “Com isso, conseguimos acelerar os programas de melhoramento genético e assim otimizar os animais e selecioná-los antes da produção”, explica.

Segundo a pesquisadora, a tecnologia já vem sendo aplicada em projetos com a raça Girolando e contribui para otimizar os sistemas produtivos. “Quando temos uma fazenda que está com sua capacidade completa e não tem mais para onde crescer, conseguimos escolher quais animais ficarão naquela propriedade e quais serão escoados ainda em sua fase embrionária.  Já em fazendas em expansão, conseguimos otimizar o processo de seleção, assim, antes do animal nascer e se desenvolver, a gente já sabe o quanto ele agregará naquela propriedade, se ele permanecerá ali ou não”, completa.

De acordo com o diretor executivo da Associação Brasileira de Angus, Mateus Pivato, o encontro busca aproximar produtores de um método que tende a transformar a pecuária nas próximas décadas. “A edição gênica é uma tecnologia extremamente disruptiva para a pecuária de corte. Ainda é um tema distante da realidade do produtor, mas pode gerar impactos importantes no futuro da produção nacional. Estamos falando da possibilidade de desenvolver animais mais adaptados ao calor e às condições tropicais, algo fundamental para a competitividade da pecuária brasileira”, destaca.

Para o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul, Dr. Fernando Flores Cardoso, o workshop também marca um momento importante na evolução do projeto. Segundo ele, a iniciativa representa a transição para uma nova fase, com foco na ampliação da escala e na aproximação da tecnologia ao campo. “O desafio agora é tornar essa solução acessível ao produtor, permitindo que, em breve, animais mais adaptados ao calor possam ser incorporados aos sistemas de produção, contribuindo para cruzamentos mais eficientes”, afirma.

Cardoso também destaca o modelo de inovação adotado no projeto, baseado na integração entre instituições públicas e o setor produtivo. “A parceria com a Associação Brasileira de Angus é um exemplo de inovação aberta, em que as demandas do campo orientam a pesquisa e aceleram a aplicação prática das tecnologias. Esse trabalho conjunto é fundamental para que os avanços cheguem de forma mais rápida e efetiva ao produtor”, ressalta.

Além das palestras, o workshop contou com uma mesa-redonda em que foram abordadas as perspectivas e os próximos passos deste projeto no Brasil, incluindo discussões sobre a continuidade das pesquisas e possíveis avanços na área. A iniciativa também integrou uma agenda de reuniões técnicas entre pesquisadores e representantes da associação para avaliar a evolução do projeto e discutir estratégias para o avanço da pesquisa no país.

Fonte: Associação Brasileira de Angus

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