Vazio sanitário da soja evita perdas de até 15% nas lavouras

Para controlar a ocorrência de Ferrugem Asiática nas lavouras de soja e evitar perdas produtivas que podem chegar a 15%, os sojicultores gaúchos realizam uma série de manejos integrados que começam com o vazio sanitário da cultura que, neste ano, ocorrerá entre 3 de julho e 30 de setembro. Junto com ele, também foi estabelecido pela Portaria nº 1.579/2026 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o calendário de semeadura do grão que inicia no dia 1º de outubro de 2026 e se estende até 28 de janeiro de 2027. “Foram mantidos iguais aos das safras mais recentes, pois são os períodos mais adequados, tanto do vazio sanitário como do calendário, pela otimização da cultura e diminuição do inóculo do fungo nas plantas que nascem espontaneamente na lavoura, após a colheita da soja”, explica o diretor do Departamento de Defesa Vegetal da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Ricardo Felicetti.

A situação sanitária do Rio Grande do Sul em relação à doença é considerada “medianamente sob controle” graças aos períodos de seca, ocorridos nas safras mais recentes, que ajudam a manter as lavouras livres da doença, com exceção do ano da grande enchente, quando a alta umidade aumentou bastante a incidência de Ferrugem a campo no Estado. “De maneira geral, podemos dizer que a doença está sob controle, não temos perdas maiores do que 10% a 15%”, reforça Felicetti. Mas esse status depende do clima e do comportamento dos patógenos diante das moléculas multisítio, usadas para seu controle, que, em algumas situações, não funcionam mais de forma tão eficaz. “Por isso, é muito importante consolidar as ferramentas de controle adicional, como o vazio sanitário para lidar com o cenário, justamente para a gente evitar problemas nesse sentido”. Além disso, também é preconizado o controle integrado de pragas e doenças que abrange mais ferramentas, além do uso de fungicidas tradicionais, como o controle biológico, que tem demonstrado bons resultados a campo para o controle da doença. “A indústria já manifestou que dificilmente vai disponibilizar uma nova molécula para controle da Ferrugem, nos próximos dez anos, pois é um trabalho de longo prazo. Vamos ter que trabalhar com as ferramentas que temos, seja na composição das lavouras, numa melhor drenagem, seja no uso de controle biológico, além do vazio e do calendário específicos”, informa Felicetti.

Para incrementar ainda mais os mecanismos de controle da doença, a Seapi criou, em 2019, um programa Monitora Ferrugem RS que atua desde a semeadura até a colheita da oleaginosa. O objetivo é detectar precocemente a presença de esporos associada às condições meteorológicas e gerar mapas indicativos de predisposição da ocorrência da Ferrugem Asiática da Soja. Esses dados auxiliam técnicos e produtores na tomada de decisão e adoção de medidas de manejo da doença. “Trazemos informações semanais para os produtores, sobre a presença de esporos a campo. Na próxima safra serão monitoradas 100 lavouras, distribuídas no Estado. O programa é complementar ao vazio sanitário e ao calendário de semeadura”, informa o coordenador estadual de defesa e sanidade vegetal da Emater-RS/Ascar, Elder Dal Pra.

Apesar das iniciativas de controle, a contaminação das lavouras segue ocorrendo, mas com menos intensidade. Um dos fatores que favorecem a permanência da doença é a resistência que o fungo desenvolveu aos ingredientes ativos de controle. As datas de vazio e plantio visam também diminuir a resistência do fungo aos compostos. “Tivemos eventos em que foi identificada resistência aos três ingredientes ativos que são sítio específico para o controle da ferrugem”, diz Felicetti. Segundo o especialista da Emater-RS, os patógenos resistentes não se originam nas lavouras do Estado, mas “migram” por correntes de vento de outros estados, como Mato Grosso e outros países, como Paraguai e Bolívia. “Conforme avança o calendário de plantio no norte da América do Sul, recebemos muita carga de esporos resistentes”, explica.

A Ferrugem Asiática é causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, considerada uma das doenças mais graves a afetar a cultura da soja, cujos danos podem oscilar entre 10% e 90%, em média, nas diversas regiões geográficas em que ocorreu. Durante o vazio sanitário, um período contínuo, de no mínimo 90 dias, não é permitido plantar nem manter vivas plantas de soja em qualquer fase de desenvolvimento nas áreas monitoradas, minimizando os impactos negativos que poderiam causar prejuízos na safra seguinte. Já o calendário de semeadura, é uma medida fitossanitária adotada após o período de vazio sanitário, com o objetivo de sistematizar o número de aplicações de fungicidas, reduzindo os riscos de desenvolvimento de resistência da Ferrugem às aplicações químicas para o seu controle.

Fonte: Jornal do Comércio

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