Tensão no Oriente Médio pressiona custos do agro gaúcho
O agravamento do conflito entre Estados Unidos/Israel e Irã já provoca reflexos nos mercados internacionais e pode pressionar custos de produção no agronegócio do Rio Grande do Sul e do Brasil. Embora ainda seja cedo para medir impactos concretos, os primeiros sinais aparecem na alta do petróleo, com potencial efeito sobre diesel, fretes, fertilizantes e defensivos agrícolas.
Para o economista Argemiro Brum, coordenador da Central Internacional de Análises Econômicas e de Estudos de Mercado Agropecuário (CEEMA) da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí), o impacto dependerá da duração e da intensidade do confronto.
“Se todo esse conflito escalar, pode haver implicações importantes, principalmente em função do fechamento parcial do Estreito de Ormuz”, afirmou.
Segundo ele, o petróleo foi o primeiro mercado a reagir. A cotação do barril, que girava em torno de US$ 61 no início do ano, alcançou níveis próximos de US$ 80 nesta segunda-feira (2/3), ampliando a volatilidade no mercado de energia. Cerca de 20% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Ormuz, o que amplia a sensibilidade dos preços à instabilidade na região.
Na avaliação do assessor de Relações Internacionais da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), Renan Hein dos Santos, o impacto mais imediato ocorre na energia e na logística. “O risco no Golfo e no Estreito de Ormuz encarece petróleo, derivados, frete e seguro. Isso aparece imediatamente no diesel”, afirmou.
Ele observa que o reflexo pode ser sentido rapidamente na colheita e no transporte da safra. “A gente vai sentir muito rápido essa questão dos combustíveis, que vão afetar a colheita da safra, os fretes”, disse. Hein pondera, porém, que, se o conflito for de curta duração, o movimento pode ser revertido com rapidez. “Se for de curto prazo, é uma janela muito pequena para afetar. Terminou, devolve”, afirmou.
Os fertilizantes também entram no radar do setor. Embora o Irã tenha participação pouco relevante no volume adquirido diretamente pelo Brasil — 0,01% do total importado em 2025, segundo dados do Panorama do Comércio Internacional da Fiergs, com base no MDIC —, a preocupação está na elevação dos preços internacionais.
A região é importante exportadora de ureia e amônia, insumos nitrogenados usados no milho safrinha do Centro-Oeste e nas culturas de inverno do Sul. Segundo Hein, o impacto tende a aparecer no custo de reposição para o produtor.
Brum destaca que os movimentos de preços costumam ser assimétricos. “Os preços das commodities sobem, mas baixam rapidamente quando as coisas se acalmam. Já os insumos sobem e, quando baixam, recuam lentamente”, observou.
Em um cenário prolongado, a preocupação pode se estender aos defensivos agrícolas, devido ao peso da região na produção de insumos petroquímicos utilizados na fabricação desses produtos. O efeito, segundo o assessor da Farsul, tende a ser gradual, já que as empresas operam com estoques.
Para os analistas, a duração do conflito será determinante para medir o impacto sobre os custos de produção no campo.
Fonte: Jornal do Comércio

