Soja a R$ 215 em 2022 ajuda a explicar tombo nas exportações do RS

Os R$ 215 por saca pagos pela soja em março de 2022, em Passo Fundo, ainda servem de referência para muitos produtores gaúchos – mesmo quatro anos depois. Hoje, com preços ao redor de R$ 123, esse patamar permanece distante da realidade, mas segue influenciando decisões de venda em um momento de margens apertadas. O comportamento ajuda a compor o cenário da forte retração de 78,5% nas exportações do Rio Grande do Sul no primeiro trimestre de 2026, embora não seja o fator determinante.

A queda expressiva dos embarques no início do ano é explicada, sobretudo, por uma restrição de oferta que vem se acumulando desde a última safra. O principal fator é a quebra produtiva registrada em 2024/2025, provocada pela estiagem, que reduziu significativamente o volume colhido no Estado. Com menos soja disponível, diminui também o excedente exportável.

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Esse impacto se torna mais evidente no primeiro trimestre porque, nesse período, o Rio Grande do Sul ainda exporta majoritariamente a chamada “safra velha”. “Tudo o que a gente exporta no primeiro trimestre é a safra anterior. Como colhemos menos, tem menos produto disponível agora”, explica o coordenador de Inteligência de Mercado da Hedgepoint, Luiz Fernando Roque.

Além da menor produção, o Estado iniciou 2026 com estoques de passagem mais baixos — ou seja, com menos soja remanescente para abastecer os primeiros meses do ano. Como o consumo interno, especialmente para esmagamento, se mantém relativamente estável, a redução da oferta recai diretamente sobre os volumes destinados à exportação.

A situação foi agravada pelo atraso na colheita da safra 2025/26. O excesso de chuvas em momentos críticos do verão retardou o avanço das máquinas no campo, postergando a entrada da nova produção no mercado e prolongando o período de baixa disponibilidade.

Esse conjunto de fatores estruturais ajuda a explicar por que a queda dos embarques, embora acentuada, não é considerada uma ruptura de mercado. A tendência é de recomposição ao longo dos próximos meses, conforme a safra avance.

No Rio Grande do Sul, a sazonalidade das exportações é bem definida. Os embarques começam a ganhar força a partir de maio, com maior intensidade entre junho e setembro, período em que a oferta se torna mais robusta. Parte do volume que deixou de ser exportado no primeiro trimestre pode, portanto, ser deslocada para o restante do ano.

Embora não seja o principal vetor da queda, o comportamento de comercialização do produtor também contribui para o cenário atual. Diante de preços mais baixos e custos elevados, muitos optaram por segurar vendas, à espera de melhores oportunidades.

Segundo Roque, esse movimento tem um componente psicológico relevante e vem se repetindo nos últimos anos. “Por mais que a margem esteja apertada, ele olha para o mercado e vê preços que não trazem uma rentabilidade boa e acaba segurando mais. Isso acaba jogando contra ele”, afirma. “Fica na expectativa de um valor que não se apresentou novamente, enquanto a margem continua deprimindo.”

Desde o pico registrado em 2022, os preços da soja seguiram uma trajetória predominantemente de queda. Houve momentos de recuperação, mas a tendência geral foi de recuo. A partir de 2024, o mercado passou a oscilar dentro de uma faixa mais estreita, entre R$ 120 e R$ 140 por saca. Em 2026, porém, os valores voltaram a cair: começaram o ano próximos de R$ 135e recuaram para os atuais R$ 123.

Esse ambiente de preços pressionados ocorre em um contexto de oferta elevada no Brasil e limitações em outros fatores de suporte, como câmbio e prêmios de exportação. Ainda assim, a perspectiva para o ano é de recuperação no volume exportado, impulsionada por uma safra maior em relação ao ciclo anterior – a Emater-RS estima 19 milhões de toneladas no RS, volume que ainda precisa ser confirmado nas lavouras.

A Hedge Point projeta exportações brasileiras de cerca de 112 milhões de toneladas em 2026, acima do registrado em 2025. O desempenho deve ser sustentado não apenas pela maior oferta, mas também por demanda internacional aquecida, com destaque para a China.

 

Disputa global e incertezas climáticas marcam cenário em 2026

No cenário global, há ainda a expectativa de menor participação da Argentina no mercado exportador neste ano, o que pode abrir espaço adicional para o Brasil. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos devem recuperar parte da competitividade perdida recentemente, o que mantém o ambiente concorrencial ativo.

Para os preços, o curto prazo segue desafiador. A combinação de safra robusta no Brasil e câmbio sem grandes impulsos tende a manter as cotações pressionadas ao longo do primeiro semestre. Já o segundo semestre pode trazer algum alívio, mas condicionado a fatores externos.

Entre eles, o comportamento da safra norte-americana é um dos principais pontos de atenção. A possibilidade de mudanças no regime climático, com a antecipação de um evento de El Niño, pode influenciar o desenvolvimento das lavouras nos Estados Unidos e, consequentemente, os preços internacionais.

Outro vetor de suporte vem da demanda por óleo de soja, impulsionada pelo avanço dos biocombustíveis em diferentes países, o que pode contribuir para sustentar as cotações em Chicago, observa o analista da Hedgepoint.

No campo, porém, o produtor gaúcho segue pressionado. Além de lidar com preços mais baixos, enfrenta custos elevados de produção e já precisa tomar decisões para a safra de inverno e para o planejamento do ciclo 2026/27. Esse contexto aumenta a complexidade da gestão e tende a influenciar o ritmo de comercialização ao longo do ano.

Fonte: Jornal do Comércio

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