Restrição e aumento do preço do diesel impactam colheita da safra no RS

O agravamento do conflito entre Estados Unidos/Israel e Irã, com o fechamento do Estreito de Ormuz – uma das principais rotas globais de petróleo – já provoca efeitos diretos no Rio Grande do Sul, com impacto no abastecimento de diesel em período de colheita da safra. Levantamento da Federação das Associações de Municípios do RS (Famurs) aponta que, 45% dos 319 municípios que responderam à consulta até ontem, relataram algum nível de dificuldade no acesso ao combustível.

São 143 municípios. Os registros se concentram principalmente nas regiões Sul, Central e das Missões, nas culturas de soja, arroz e milho. Segundo a presidente da Famurs e prefeita de Nonoai, Adriane Perin de Oliveira (PP), cerca de 80% dos municípios gaúchos têm na agricultura a base da economia. Para ela, o cenário já ultrapassa a questão logística e atinge a economia local. “Não é só uma crise de abastecimento, é uma crise econômica”, afirmou.

Na ponta, produtores enfrentam dificuldade para garantir o combustível necessário à operação das máquinas e convivem com forte alta de preços. Em Santo Augusto, o produtor de soja Milton Julio Wengrat relata que precisou buscar diesel a preço fora do padrão habitual para conseguir iniciar a colheita. “Eu estava sem o combustível, mas consegui mil litros. Dá para um dia na lavoura”, disse.

Com área de 370 hectares, ele estima consumo de cerca de 10 mil litros ao longo da operação. Parte do volume foi adquirida a R$ 7,29 por litro, frente aos R$ 5,40 pagos anteriormente – um aumento de aproximadamente 35%. Além disso, o produtor relata negociações ainda mais caras, mesmo em compras diretas com distribuidoras, citando aquisições a até R$ 7,79 por litro.

Apesar de ter iniciado a colheita no período adequado, Wengrat demonstra preocupação com a continuidade dos trabalhos diante da incerteza no abastecimento. “Se parar, a gente perde na lavoura”, afirmou.

O cenário ocorre após uma sequência de anos adversos, com perdas por estiagem e excesso de chuvas, o que reduz a margem de segurança financeira dos produtores. A dependência da agricultura como base econômica amplia os efeitos da crise. De acordo com Adriane, a escassez de diesel compromete tanto a colheita quanto o escoamento da produção.

Os municípios têm que optar ou garantir o transporte de ambulância ou abrir uma estrada para transportar os grãos”, afirmou. Segundo a Famurs, os estoques disponíveis são limitados. “O relato dos prefeitos é de que o estoque dura de 10 a 15 dias para serviços essenciais”, disse. Há registros de diesel acima de R$ 8 por litro em diferentes localidades. A crise também projeta impactos para o próximo ciclo produtivo, especialmente no custo de insumos. Wengrat relata aumento expressivo no preço dos fertilizantes.

Desde a pandemia os preços não normalizaram, e agora com a guerra acabou onerando mais”, afirmou. Segundo ele, o sulfato de amônia passou de cerca de R$ 1,2 mil a R$ 1,5 mil por tonelada para mais de R$ 2,2 mil. Adriane reforça que os fertilizantes representam parcela relevante dos custos agrícolas. “Cerca de 40% do custo de produção vem dos fertilizantes”, disse.

Diante da situação, a Famurs iniciou articulação com entidades do setor produtivo e o governo do Estado para consolidar um diagnóstico e pressionar por medidas junto ao governo federal. Adriane espera ter um encontro com representantes do Palácio Piratini ainda nesta semana para tratar do tema e alinhar estratégias. “Nós precisamos saber onde estão os estoques e onde estão os maiores problemas, para que o governo federal tenha um planejamento e nos ajude.”

Fonte: Jornal do Comércio

Mostrar mais
Botão Voltar ao topo