Leilão de arroz negocia 29% da oferta e reforça desafio de escoamento

O leilão de Prêmio Equalizador Pago ao Produtor (Pepro) realizado ontem pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) comercializou 103,4 mil toneladas de arroz. O volume representa 29% da oferta inicial, de 350,7 mil toneladas. Parte significativa, no entanto, foi retirada do pregão. Considerando a oferta efetiva, de 171,9 mil toneladas, o percentual negociado alcança cerca de 60%.

No Rio Grande do Sul, principal produtor nacional, volumes expressivos ficaram de fora. Lotes da Zona Sul e da Planície Costeira Interna, que somavam 162 mil toneladas, foram retirados porque os preços já estavam acima do mínimo estabelecido pelo governo.

A Fronteira Oeste registrou desempenho distinto, com a comercialização integral das 57,5 mil toneladas ofertadas. Já nas regiões Campanha, Central e Planície Costeira Externa, apenas 25 mil toneladas foram negociadas de um total de 83,2 mil.

Fora do Estado, Santa Catarina comercializou 25 mil toneladas de 35 mil ofertadas, enquanto lotes de Alagoas e Sergipe foram retirados.

Para o presidente da Federarroz, Denis Dias Nunes, o resultado foi positivo diante das condições do mercado. “Está de bom tamanho. Inclusive a Fronteira Oeste, uma das maiores regiões produtoras do Estado, com cerca de 30% da área, utilizou todo o disponível”, afirma.

Segundo Nunes, o instrumento segue relevante como apoio ao escoamento, inclusive com potencial de exportação. “Grande parte desse produto vai ser escoado para o exterior. O leilão é um prêmio de escoamento e permite tanto venda no mercado interno quanto externo”, explica.

O leilão ocorre em um cenário de ampla oferta. A produção nacional deve alcançar cerca de 10,8 milhões de toneladas em 2026, volume semelhante ao do ano anterior, avalia o analista da Safras & Mercado, Evandro Silva.

No Rio Grande do Sul, responsável por cerca de 70% da produção brasileira, a colheita está na reta final e deve atingir aproximadamente 7,8 milhões de toneladas. “É um volume bem significativo de produto”, diz.

Apesar da qualidade considerada elevada, o desafio central está no escoamento, especialmente diante de estoques iniciais elevados.

O mercado externo, que chegou a dar suporte no início do ano, perdeu força nas últimas semanas. No primeiro trimestre de 2026, o Brasil exportou cerca de 685 mil toneladas de arroz, com desempenho superior ao mesmo período do ano anterior, mas o ritmo desacelerou recentemente.

Segundo Silva, março tevepoucos contratos efetivamente fechados e abril praticamente não registrou novas operações relevantes, o que deve resultar em déficit na balança comercial do mês.

A competitividade também é limitada pela paridade com os preços dos Estados Unidos e pelo câmbio. “Precisaríamos de uma diferença de pelo menos US$ 5 por saca para ganhar mercados”, explica.

No cenário internacional, no entanto, há sinais que podem favorecer o Brasil no médio prazo. Segundo Silva, os Estados Unidos indicam redução superior a 20% na área de arroz longo fino — variedade que concorre diretamente com o produto brasileiro.

Além disso, movimentos recentes de alta nos preços em Chicago podem contribuir para redirecionar parte da demanda internacional. Ainda assim, o analista ressalta que o efeito depende do comportamento da safra global, especialmente da Ásia, cuja entrada no segundo semestre tende a ampliar a oferta mundial.

No Brasil, com a colheita avançando e a necessidade de liquidez por parte dos produtores, o mercado pode enfrentar novas quedas. “As próximas semanas serão cruciais. Há chances significativas de uma pressão de venda, com possível correção negativa nos preços”, projeta.

Atualmente, as cotações no Rio Grande do Sul variam, em média, entre R$ 60 e R$ 67 por saca, dependendo da região e da qualidade do produto.

A oferta (quadro)

Leilão de Pepro

  • Oferta total: 350,7 mil toneladas
  • Volume negociado: 103,4 mil toneladas
  • Adesão: cerca de 29%

Rio Grande do Sul

  • Oferta: 282 mil toneladas
  • Zona Sul e Planície Costeira Interna: 162 mil toneladas (retiradas)
  • Fronteira Oeste: 57,5 mil toneladas (100% vendidas)
  • Campanha, Central e Planície Costeira Externa:
    • Oferta: 83,2 mil toneladas
    • Negociado: 25 mil toneladas

Outros estados

  • Santa Catarina: 25 mil toneladas negociadas de 35 mil ofertadas
  • Alagoas e Sergipe: retirados

Fonte: Jornal do Comércio

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