
Guerra encarece fertilizantes e amplia pressão sobre o agro gaúcho
A escalada do conflito no Oriente Médio e seus efeitos sobre o mercado global de fertilizantes ampliam a pressão sobre o agronegócio brasileiro e expõem uma fragilidade estrutural: a forte dependência de importações. No Rio Grande do Sul, onde a produção agrícola é intensiva e altamente tecnificada, o cenário combina aumento de custos, incerteza sobre o abastecimento e necessidade de ajustes no campo.
O Brasil é o quarto maior consumidor mundial de fertilizantes, mas responde por apenas cerca de 2% da produção global. A dependência externa, estimada entre 85% e 90% do consumo, torna o País especialmente sensível a crises internacionais.
Para o assessor de Relações Internacionais da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Renan Hein dos Santos, o grau de exposição não é circunstancial, mas estrutural. “A gente depende fortemente de fertilizantes do exterior.”
Ele destaca que o consumo cresceu de forma acelerada nas últimas décadas, enquanto a produção nacional permaneceu praticamente estagnada. “As importações saltaram de aproximadamente 7,4 milhões de toneladas em 1998 para quase 39 milhões em 2022, enquanto a produção doméstica ficou na faixa de 7 milhões.”
Embora o Brasil tenha produção de matérias-primas para fertilizantes, ela é concentrada em regiões como Minas Gerais, São Paulo e Goiás e tende a ser consumida localmente, o que limita o abastecimento de outras áreas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a dependência externa é total no caso do fósforo. Há iniciativas para ampliar a produção no Estado, com identificação de novos depósitos minerais, mas ainda em escala insuficiente diante da demanda — lacuna que projetos em desenvolvimento no Estado tentam começar a preencher.
A tendência para 2026 é de recuo na demanda por fertilizantes no Brasil. Estimativa do RaboResearch – divisão de estudos e análise econômica do banco holandês Rabobank, com forte atuação global no agronegócio – aponta consumo de 47,2 milhões de toneladas, cerca de 2 milhões a menos que as 49,1 milhões registradas no ano passado. O dado integra o Semiannual Fertilizer Outlook (Panorama Semestral de Fertilizantes), divulgado neste mês pelo RaboResearch.
Segundo o analista sênior de insumos agrícolas do RaboResearch, Bruno Fonseca, a retração já era esperada diante do quadro financeiro dos produtores. “O produtor está com uma alavancagem muito alta, margem super apertada, endividamento crescente. Então, ele vai tender a usar um pouco menos de fertilizante.”
A guerra intensifica esse movimento ao elevar os preços dos insumos em ritmo superior ao das commodities agrícolas. Entre janeiro e março, os preços da ureia subiram 76%, pressionando diretamente os custos de produção. “Por si só, a situação econômica já indicaria uma redução. Com esse problema da guerra, fazendo com que os preços subam muito, a gente pode ter essa queda no consumo”, afirma Fonseca.
No cenário internacional, o mercado enfrenta um choque relevante de oferta. O bloqueio logístico na região do Oriente Médio já retirou cerca de 800 mil toneladas mensais de fertilizantes do mercado global. Pela região passam aproximadamente 30% das exportações mundiais de ureia, 27% de amônia e 24% de fosfatos. A interrupção reduz a capacidade de reposição por outros fornecedores e intensifica a concorrência entre países importadores.
Embora a participação do Oriente Médio nas importações brasileiras tenha diminuído — hoje em torno de 12% —, a dependência ainda é significativa em produtos específicos. No caso da ureia, 36% das compras vieram da região em 2025. O momento é especialmente sensível porque cerca de 70% da ureia importada pelo Brasil chega entre maio e dezembro, período estratégico para o planejamento das safras.
O encarecimento dos fertilizantes afeta de forma desigual as culturas agrícolas. Os nitrogenados, mais impactados pela crise, pesam especialmente sobre grãos importantes no Rio Grande do Sul.
“Culturas como trigo, milho e arroz demandam bastante nitrogênio, que é justamente o fertilizante mais impactado”, afirma Fonseca.
A soja tende a sofrer menos, já que não depende de adubação nitrogenada, embora também seja afetada pela alta de outros nutrientes, como o fósforo.
Apesar da pressão de custos, o impacto imediato sobre a produção de alimentos ainda não é esperado, conforme o analista do RaboResearch.
Além dos preços elevados, a disponibilidade de fertilizantes começa a preocupar. Para o gerente de Projetos da Aguia Fertilizantes, Diego Boeira, o mercado já apresenta sinais de escassez. “O preço já se tornou secundário. Não tem produto.”
Segundo ele, levantamentos recentes indicam ausência de fertilizantes fosfatados no Estado.
“No Rio Grande do Sul não tinha fosfato supersimples disponível e nem preço. Não existia tabela.”
A tendência, segundo Boeira, é de impacto direto no manejo das lavouras, com uso abaixo do recomendado. Isso pode resultar em perda de produtividade e efeitos ao longo da cadeia.
Produção local ainda é limitada
Paralelamente, projetos de produção no Estado começam a avançar, mas ainda em escala reduzida frente à demanda. A Aguia Fertilizantes deve iniciar operações em maio, com produção inicial de 70 mil toneladas de fosfatados. “Isso é praticamente nada para o mercado do Rio Grande do Sul”, afirma Boeira.
Em operação plena, a capacidade pode chegar a cerca de 400 mil toneladas por ano, o equivalente a aproximadamente 10% da demanda estadual.
Mesmo assim, a redução da dependência externa exige tempo e investimentos. “Para tirar um projeto do papel e chegar ao produtor, a gente fala em cinco a seis anos”, diz Boeira. Ele defende um olhar do Poder Público em apoio, com linhas de crédito específicas para a implantação de uma política de Estado.
Para a Farsul, o cenário internacional reforça a vulnerabilidade brasileira. “China e Rússia são os principais fornecedores desses insumos ao Brasil. E, percebendo potencial crise global, o gigante asiático restringiu exportações para garantir o mercado interno, e a Rússia também já adotou suspensões que ainda precisamos verificar até quando irão durar”, afirma Renan Santos.
Segundo ele, o histórico recente já mostrou os efeitos desse contexto. No conflito entre Rússia e Ucrânia não houve desabastecimento, mas preços muito elevados que afetaram os custos de produção.
Diante do cenário, produtores tendem a adotar estratégias mais conservadoras, com redução de uso de insumos, revisão de área plantada e maior seletividade nos investimentos. “Talvez valha a pena focar em semear uma área menor, especialmente excluindo aquelas marginais, e conseguir tirar uma produção melhor no espaço cultivado”, afirma Fonseca.
Outro aspecto que merece atenção, conforme o especialista, é o quadro agravado no Rio Grande do Sul por sucessivas perdas climáticas e pela perspectiva de novo episódio de El Niño. “O produtor do Rio Grande do Sul tem que ter uma cautela ainda maior do que nas outras regiões”, ressalta.
Em um ambiente de oferta restrita, preços elevados e incerteza geopolítica, o desafio passa a ser equilibrar produtividade e custo em um setor cada vez mais exposto a fatores externos.
Fonte: Jornal do Comércio

