Fraude em cargas fictícias expõe riscos de controle no setor de grãos

A Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco) de Cruz Alta efetuou ontem a 13ª prisão relacionada à Operação Romaneio, que apura um prejuízo superior a R$ 6 milhões causado a 3tentos por fraudes em registros de entrega de grãos por uma cerealista ligada à empresa, com sede em Santa Bárbara do Sul. Deflagrada pela Polícia Civil na semana passada, a operação passou a expor não apenas um caso policial, mas também desafios de controle operacional e governança enfrentados por empresas do agronegócio com grande volume de recebimento de cargas. As investigações seguem em andamento e novos desdobramentos não estão descartados.

Segundo o delegado Ricardo Drum Rodrigues, titular da Draco de Cruz Alta, o esquema utilizava operações legítimas de recebimento para criar cargas fictícias posteriormente faturadas pela empresa.

O funcionamento começava com uma entrega regular de grãos. O caminhão ingressava na unidade, passava pelo processo normal de pesagem, descarregamento e emissão do romaneio — documento que registra a operação. Depois disso, conforme a investigação, os dados daquela carga eram reutilizados para gerar um novo lançamento fraudulento. “Esse caminhão legítimo vai lá, descarrega, é pesado e sai. Em seguida, eles utilizavam o peso daquele ticket numa outra carga. E aí essa carga não existia”, afirmou Rodrigues.

Conforme a polícia, os investigados alteravam placas de veículos e utilizavam nomes de supostos produtores rurais para registrar entregas inexistentes. Em alguns casos, foram identificadas placas incompatíveis com caminhões utilizados no transporte de grãos. “Até placa de motocicleta teve”, disse o delegado.

A investigação aponta que os valores eram posteriormente direcionados para terceiros utilizados para recebimento das operações investigadas. Rodrigues afirmou que diversos aparelhos celulares foram apreendidos durante a operação e que as diligências continuam. A Draco também identificou que os supostos produtores utilizados nas operações não atuavam efetivamente na produção rural. Segundo o delegado, apenas um possuía cadastro antigo de produtor, enquanto outros utilizaram registros vinculados a pequenas propriedades familiares.

As apurações apontam que as fraudes ocorreram ao longo de 2025 e seguiram até abril deste ano, embora a polícia não descarte a possibilidade de fatos anteriores ainda não identificados. Outro ponto apurado é que os investigados ligados à empresa já haviam sido desligados antes da operação policial. Os últimos afastamentos ocorreram cerca de 15 dias antes da ofensiva. Dos 13 presos na operação até agora, oito são ex-funcionários da 3tentos. 

Rodrigues destacou que o impacto do caso vai além do prejuízo financeiro. “Para a confiabilidade de uma empresa com capital aberto, isso é muito”, afirmou. O delegado ressaltou ainda que não há indicação de prejuízo direto a produtores rurais legítimos, já que as operações fraudulentas eram criadas a partir de cargas fictícias.

Investigação interna da 3tentos deflagrou operação

A investigação teve origem após uma auditoria interna realizada pela própria 3tentos, que identificou inconsistências no processo de recebimento de grãos ainda em janeiro e comunicou os fatos à Polícia Civil. Em nota, a companhia informou que constatou “indícios de fraude envolvendo o processo de pesagem de grãos” e reiterou política de “tolerância zero a práticas ilícitas”.

Para André Maya, consultor de compliance da Flow Compliance, casos desse tipo normalmente revelam fragilidades em mecanismos internos de controle, ainda que posteriormente identificadas pelos próprios sistemas de auditoria da empresa.

Certamente havia uma falha ou alguma deficiência interna de controle que estava possibilitando esse tipo de fraude”, afirmou. Segundo Maya, programas de integridade e compliance têm justamente a função de atuar na prevenção, identificação e correção de riscos corporativos. “A lógica do compliance é prevenção, detecção e remediação”, resumiu.

O especialista avalia que operações com grande volume de cargas e documentosexigem múltiplas camadas de verificação e controle, especialmente em atividades de recebimento e faturamento. Entre os sinais de alerta, ele cita operações repetidas com características muito semelhantes de volume, data e horário.

Maya também destaca a importância de diferentes níveis de autorização — as chamadas “alçadas” – para operações de maior valor ou complexidade. “Existem procedimentos que exigem alçadas diferentes autorizando e, eventualmente, inclusive uma passagem pelo compliance da empresa, para que haja um olhar mais objetivo sobre a operação”, explicou.

Para ele, a velocidade da reação institucional também pesa na preservação da reputação corporativa. “Uma atuação rápida e colaborativa com as autoridades coloca a empresa numa posição de vítima de um golpe e contribui para resgatar a reputação da empresa”, afirmou.

O consultor acrescenta que casos como esse ajudam a reforçar a importância de mecanismos internos de controle e integridade dentro das empresas. “Muitas vezes as empresas enxergam compliance apenas como custo. Casos assim ajudam a mostrar o valor desses mecanismos de controle”, afirmou.

Fonte: Jornal do Comércio

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