
Avicultura gaúcha usa inovação e diversificação para se adaptar aos novos cenários
Em meio a um cenário global desafiador, o setor avícola gaúcho projeta crescimento moderado para 2026, condicionado à estabilidade sanitária, climática e logística. O presidente-executivo da Organização Avícola do RS (Asgav/Sipargs), José Eduardo dos Santos, que será reconduzido ao cargo nesta quarta-feira (29), aponta que a produção de carne de frango deve avançar entre 2% e 3%, com exportações crescendo até 4%. No entanto, no segmento de ovos a previsão é de salto expressivo nas vendas externas, estimado em cerca de 20%. Apesar das perspectivas positivas, o dirigente ressalta que o setor opera em um “novo normal”, marcado por pressões de custos, volatilidade cambial e impactos geopolíticos, que exigem planejamento estratégico e capacidade de adaptação. A competitividade também segue desafiada por oscilações nos preços de insumos como milho e soja, além de entraves logísticos e comerciais. Ainda assim, a avicultura gaúcha demonstra resiliência, sustentada por inovação, diversificação de produtos, busca por novos mercados e fortalecimento das práticas sanitárias, consideradas fundamentais para garantir a presença do Estado no mercado internacional.
Jornal do Comércio – Quais são as projeções do setor avícola gaúcho para 2026 em termos de produção e exportação?
José Eduardo dos Santos – Considerando a ausência de crises sanitárias relevantes, eventos climáticos extremos ou disrupções logísticas globais, as projeções para 2026 indicam crescimento moderado no setor avícola gaúcho. Para a carne de frango, estima-se um aumento de produção entre 2% e 3%, com expansão das exportações na faixa de 3% a 4%. No segmento de ovos, projeta-se crescimento de aproximadamente 2% na produção, com destaque para um avanço mais expressivo nas exportações, estimado em torno de 20%, em função de uma demanda crescente do produto.
JC – De que forma conflitos geopolíticos e barreiras comerciais têm influenciado as exportações do setor?
Santos – Estamos vivenciando um “novo normal”, no qual já se percebem os impactos do aumento de custos em insumos estratégicos, como embalagens plásticas e combustíveis. Nesse contexto, a atenção a essa nova dinâmica global deve ser tratada como prioridade não apenas pelo setor, mas também por outros segmentos produtivos e pelos governos. Torna-se essencial avançar na construção de planos estruturados de mitigação, estratégias de enfrentamento e ações de contingência. Mais do que reagir a cenários críticos com medidas emergenciais, é necessário adotar uma abordagem preventiva, organizada e contínua, especialmente diante de um ambiente geopolítico em constante transformação, que impacta diretamente os fluxos comerciais, logísticos e socioeconômicos em diferentes países e continentes.
JC – O setor avícola gaúcho tem enfrentado oscilações importantes nos custos de produção. Como isso tem impactado a competitividade frente a outros estados e ao mercado internacional?
Santos – Historicamente, a avicultura tem enfrentado oscilações nos custos de produção em função de diversos fatores. Entre os mais impactantes ao longo dos anos, destaca-se o custo da ração, especialmente o milho, que, embora apresente recentemente um comportamento mais equilibrado nas cotações, atingiu, em um passado próximo, patamares elevados que impactaram significativamente o setor. As margens reduzidas, somadas a outras desvantagens competitivas, fragilizam a cadeia produtiva em diferentes aspectos, como a desaceleração de investimentos, limitações à expansão e modernização das estruturas, além da menor atratividade de mão de obra. Ainda assim, o setor permanece ativo e resiliente, buscando continuamente manter sua relevância socioeconômica.
JC – A gripe aviária no Estado fez com que mercados importantes como China e União Europeia suspendessem temporariamente as importações, as quais já foram retomadas. Depois desse ocorrido, houve um reposicionamento do setor em relação a novos mercados?
Santos – Atendemos mais de 150 países, todos de grande relevância para o setor. Nesse contexto, é fundamental não apenas manter os mercados já conquistados, mas também avançar na ampliação das exportações. Observa-se a África do Sul como um importador em expansão, com aumento consistente nas compras de proteína avícola brasileira. Da mesma forma, a União Europeia tende a ampliar sua demanda, especialmente com o avanço do Acordo Mercosul–União Europeia. Por outro lado, os países da Ásia e do Oriente Médio exigem atenção permanente, uma vez que são mercados estratégicos e constantemente disputados por concorrentes internacionais.
JC – Existe espaço para crescimento em nichos como produtos premium, orgânicos ou com certificações de bem-estar animal?
Santos – Sim, há uma tendência de crescimento, porém de forma gradual. Isso ocorre porque uma parcela significativa da população brasileira, especialmente das classes de menor renda, ainda depende de maior estabilidade econômica e melhores condições de compra, uma vez que esses produtos possuem valor agregado mais elevado, o que pode limitar o consumo regular. Ainda assim, tratam-se de alternativas que ganham espaço progressivamente, acompanhando a evolução dos critérios de consumo e as novas demandas que se apresentam no dia a dia.
JC – O custo de insumos, especialmente milho e soja, segue como um dos principais gargalos. Há alternativas sendo discutidas pelo setor?
Santos – O milho e a soja seguem como os principais componentes na formação do custo de produção da avicultura, mantendo-se como pontos centrais de atenção para o setor. Embora existam alternativas sendo discutidas, sua aplicação prática ainda apresenta desafios. Nesse sentido, torna-se fundamental ampliar a produção de milho no Rio Grande do Sul, bem como incentivar o cultivo de cereais de inverno, contribuindo para maior segurança no abastecimento. Um avanço importante foi a criação do Programa Duas Safras, que busca estimular a produção ao longo de todo o ano. No entanto, ainda há espaço para evolução. O fortalecimento da oferta de grãos é essencial não apenas para a avicultura, mas também para outros setores tradicionais e novos consumidores, que dependem diretamente dessa disponibilidade para sustentar seus projetos de crescimento e expansão.
JC – A questão sanitária continua sendo central. O Brasil está preparado para responder rapidamente a eventuais crises?
Santos – O vírus da Influenza aviaria de Alta Patogenicidade está circulando no mundo. Muitos países não conseguem erradicar. O Rio Grande do Sul, em um caso isolado, demonstrou preparo e maturidade, mas não enfrentamos e nem queremos enfrentar casos em larga escala como aconteceu nos Estados Unidos, México e outros países. Precisamos cada vez mais investir em biosseguridade, capacidade de diagnóstico rápido e sistemas de informação que otimizem o fluxo de informações e controles. Vejo que estar preparado é não parar de priorizar a biosseguridade. Após o registro de casos temos que saber seguir os protocolos pré-definidos pelas autoridades sanitárias.
Fonte: Jornal do Comércio

