Após quatro décadas, Bravon obtém reconhecimento e mira novos mercados
Quatro décadas depois dos primeiros trabalhos de seleção conduzidos por criadores gaúchos e sete anos após o encaminhamento formal do processo, o Bravon passou a ser oficialmente uma raça bovina reconhecida no Brasil. A decisão do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) permite o registro genealógico dos animais e abre uma nova etapa para os criadores, que pretendem ampliar a presença da raça no País e transformar a genética também em oportunidade comercial.
O reconhecimento consta da Portaria SDA/Mapa nº 1.691, publicada no Diário Oficial da União em 25 de setembro. O texto também autoriza a Associação Nacional de Criadores Herd-Book Collares (ANC) a executar o registro genealógico do Bravon. Até então, os animais eram enquadrados no controle de cruzamentos, situação que dificultava dimensionar inclusive o tamanho do rebanho existente.
O Bravon é uma raça sintética formada por 5/8 de sangue Devon e 3/8 zebuíno. A combinação busca reunir características do Devon, como precocidade, fertilidade e qualidade de carne, com rusticidade, resistência e adaptação ao calor dos zebuínos. No desenvolvimento realizado no Brasil, predominou o uso do Nelore, embora também tenham sido utilizados Brahman e Guzerá.
Presidente da Associação Brasileira de Criadores de Devon e Bravon (ABCDB), Alfredo da Silva Tavares acompanha essa trajetória desde os primeiros anos. Criador em Pedras Altas, no Sul gaúcho, ele começou a trabalhar com o Bravon em 1986. Em 1999, levou à Expointer um casal de terneiros que já apresentava a composição de 5/8 Devon e 3/8 zebuíno estabelecida para a raça.
A busca pela oficialização, porém, avançou bem mais tarde. Documentos da entidade indicam que o processo foi formalmente encaminhado ao Ministério em 2019. Enquanto o reconhecimento não vinha, os animais eram registrados pela ANC como Devon CCG, sigla para Cruzamento sob Controle de Genealogia. Até 2020, havia registros de 504 machos e 2.048 fêmeas nessa condição.
Na prática, esse entrave também ajuda a explicar por que não existe hoje uma estimativa segura da população de Bravon no Brasil. Tavares afirma que produtores mantiveram os cruzamentos sem registrar os animais diante das dificuldades encontradas no sistema. Há criações no Rio Grande do Sul e no Centro-Oeste e do Nordeste. Considerando Devon e Bravon, o presidente da ABCDB aponta presença em pelo menos sete estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Bahia.
A expansão para regiões mais quentes está diretamente ligada à composição genética. Os 5/8 de Devon permitem manter características produtivas e qualidade de carne da raça britânica, enquanto a parcela zebuína amplia a tolerância ao calor. A combinação possibilita, segundo Tavares, criar Bravon tanto nas condições de inverno do Sul quanto no Brasil Central.
Com a oficialização, a expectativa é trazer para o registro parte desse rebanho já existente e estimular novos criadores. “A autorização do registro genealógico traz mais segurança aos criadores, fortalece a continuidade do nosso trabalho e abre novas perspectivas para a expansão do Bravon no Brasil e em outros países”, afirma Tavares.
Associação agora busca maior presença no mercado de carne
O próximo movimento da ABCDB será tentar converter essa organização genética em maior presença no mercado de carne. A associação já trabalha para atrair frigoríficos gaúchos interessados em desenvolver um programa de certificação semelhante ao existente em Santa Catarina.
No mercado catarinense, animais Devon e seus cruzamentos podem integrar um programa em que as carcaças são avaliadas e aquelas que atendem aos requisitos têm a carne identificada e comercializada separadamente. Segundo Tavares, cerca de 7 mil cabeças são abatidas por ano nesse sistema. A produção é absorvida pelo próprio mercado de Santa Catarina.
O Rio Grande do Sul chegou a ter uma experiência semelhante em um frigorífico de Pelotas, mas o programa terminou com o fechamento da unidade. Desde então, os animais são vendidos a diferentes empresas sem uma identificação específica da carne no varejo.
Na avaliação do presidente da ABCDB, haveria produção suficiente no RS para sustentar um programa próprio. Ele estima potencial de aproximadamente 20 mil cabeças por ano, considerando conjuntamente Devon, cruzamentos Devon e Bravon. Hoje, porém, esses animais acabam dispersos em cerca de duas dezenas de frigoríficos.
A organização dessa oferta e uma eventual certificação são vistas como formas de diferenciar a carne e aproximar produtores e indústria. Tavares relata que já existem casos fora do Sul em que animais com genética Devon recebem bonificação pela qualidade da carne, mesmo sem um programa específico para o Bravon.
Fonte: Jornal do Comércio

