Alta do dólar favorece preços agrícolas, mas preocupa por custos

A disparada do dólar após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abriu oportunidades de valorização dos produtos agrícolas brasileiros, mas também trouxe preocupações com os custos de produção e o financiamento das próximas safras. Apesar da turbulência nos mercados financeiros, os primeiros reflexos foram predominantemente positivos para produtores que ainda têm grãos para comercializar, segundo especialistas ouvidos pelo Jornal do Comércio.

Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, o dólar subiu 8,21%, encerrando o dia a R$ 5,40, depois de alcançar R$ 5,60. O Ibovespa despencou 13,88%, em uma sessão marcada pela suspensão temporária das negociações. Nesta terça-feira, os mercados apresentaram sinais de acomodação, mas permaneceram instáveis.

No mercado de grãos, a alta do dólar chegou a representar uma melhora de aproximadamente R$ 5 por saca nas ofertas de soja, conforme Índio Brasil, sócio-proprietário da Solo Corretora de Cereais. “Deu oportunidades de correção em preço de soja para o produtor e armazenador na ordem de R$ 5. Então, influencia positivamente para quem tem produto para vender, sem sombra de dúvida”, afirma.

Houve negócios aproveitando a valorização, observa o corretor, embora em volumes limitados, já que a comercialização da safra colhida está avançada. O trigo, em plena colheita, também registrou melhora, assim como o milho no Centro-Oeste. No Rio Grande do Sul, entretanto, as vendas antecipadas da próxima safra de soja não avançaram, porque os preços continuam abaixo das expectativas dos produtores.

O efeito positivo decorre da própria formação das cotações agrícolas, que têm no dólar um de seus componentes. Com o real desvalorizado, as receitas das exportações convertidas em moeda brasileira aumentam, dando sustentação aos preços internos.

“Esse dólar bem mais alto, que a gente está vendo agora, naturalmente, é favorável para o preço brasileiro”, explica Luiz Fernando Roque, coordenador de Inteligência de Mercado da Hedgepoint.

A desvalorização do real também tende a melhorar a competitividade dos produtos nacionais diante de concorrentes como Estados Unidos e Argentina.

Isso não significa valorização generalizada das commodities. Na segunda-feira, os contratos futuros de soja negociados em Chicago chegaram a recuar mais de 2%, enquanto café e açúcar também registraram quedas nas bolsas internacionais. A perspectiva de maior competitividade dos produtos brasileiros contribuiu para pressionar as cotações em dólar.

Para Índio Brasil, a reação inicial teve forte componente especulativo. A saída de investidores estrangeiros da Bolsa aumenta a procura por dólares, enquanto as incertezas sobre a equipe econômica e o controle das despesas públicas podem prolongar a instabilidade. Ele ressalta, porém, que a demanda internacional por grãos não muda imediatamente com a oscilação cambial. “As demandas não se movimentam por isso, porque as demandas compram em dólar.”

Se o dólar mais alto favorece a comercialização, também pode encarecer fertilizantes e defensivos importados. O impacto imediato tende a ser limitado no Rio Grande do Sul, onde boa parte dos insumos da safra de verão já foi negociada, mas preocupa para os próximos ciclos produtivos.

Roque alerta que a manutenção do câmbio elevado poderá pressionar os custos e até limitar a expansão das áreas de soja e milho em 2027. “Esse câmbio valorizado pode puxar um pouco os preços e, ao mesmo tempo, tende a elevar custos para o próximo ano”, resume.

A avaliação de que os ganhos imediatos podem superar as perdas é compartilhada por Alessandro Acosta, gerente regional e sócio da consultoria Safra de Cifras. Para ele, os maiores riscos estão nos juros e no combustível. O encarecimento do crédito pode dificultar o custeio e os investimentos, enquanto uma eventual alta do diesel elevaria as despesas nas lavouras e no transporte.

Consultor defende rigor na gestão financeira

Nesse ambiente, Acosta defende maior rigor na gestão financeira das propriedades, com controle dos custos e planejamento da comercialização. “O produtor é um tomador de preço. Ele liga, vê o quanto o mercado está pagando e tem o poder de decidir se vende ou não vende”, explica. “Se ele tem o seu custo conhecido, consegue tomar a decisão mais assertiva no processo de venda.”

Na pecuária bovina, a turbulência tampouco altera substancialmente as perspectivas comerciais. Para Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte (Nespro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), a demanda internacional por carne e a continuidade da abertura de mercados sustentam os negócios.

“Isso tudo é um fenômeno temporário de impacto e que, de uma maneira geral, olhando os históricos, não se mantém por muito tempo”, afirma.

Segundo Barcellos, o real desvalorizado pode favorecer as exportações e elevar o preço do boi no mercado interno, embora as cotações já estejam em alta pelo crescimento do consumo e pela menor disponibilidade de animais para abate.

Fonte: Jornal do Comércio

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