Agricultores familiares se mobilizam para tentar reverter extinção da SDR

A decisão do governador eleito do Rio Grande do Sul, Luciano Zucco, de incorporar a Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) à Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi) provocou uma mobilização para tentar reverter a medida. A Fetraf-RS articula apoio de cooperativas, prefeitos e lideranças, enquanto a Fetag-RS busca uma audiência com Zucco, pressionada por agricultores insatisfeitos. Após as críticas, o futuro governo divulgou nota assegurando que não haverá redução de programas nem do apoio à agricultura familiar.

O presidente da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag-RS), Eugênio Zanetti, afirma que a decisão frustrou a entidade. “Nós estamos, assim, de certa forma, frustrados com essa decisão do governador Zucco, inclusive esperamos que ela seja revista”, declarou ao Jornal do Comércio. Para ele, a incorporação ameaça a representação dos pequenos produtores no primeiro escalão e sua capacidade de disputar recursos.

Zanetti diferencia as atribuições da Seapi, que abrangem mercados, endividamento e irrigação, das ações específicas da SDR. Cita a Operação Terra Forte, o Milho 100%, o Troca-Troca de Sementes de Milho e incentivos a forrageiras, juventude e turismo rural. “São ações específicas que, em termos de volumes de dinheiro, não são grandes valores, mas que fazem toda a diferença”, afirma.

Mesmo diante da promessa de preservação dos programas, questiona quem defenderá essas iniciativas na definição do orçamento. Também reclama de as entidades do setor não terem sido consultadas antes do anúncio e de as explicações terem chegado por nota. “Nós não estamos aí pra fazer a oposição, muito longe disso”, diz. A entidade quer conversar com Zucco antes de definir outras medidas. “A nossa base está nos cobrando para tomar atitude”, relata.

Quem já começou a mobilizar outras representações é a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar do Rio Grande do Sul (Fetraf-RS). “A gente tem mobilizado entidades, cooperativas, prefeitos e lideranças do setor para fazer pressão a fim de reverter a decisão”, afirmou o coordenador-geral Douglas Cenci. A direção se reúne nesta quarta-feira (4) para definir ações. “Queremos dialogar com o futuro governador e o secretário (Paulo Herrmann) a respeito”, acrescentou.

Em nota, a Fetraf classifica a incorporação como equívoco político e econômico, questiona a economia prometida e teme prejuízos à articulação com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), à captação de recursos e às políticas de enfrentamento dos eventos climáticos extremos.

A revisão da decisão também é pedida pela Associação dos Servidores das Ciências Agrárias do Rio Grande do Sul (Assagra). A entidade recorda que a SDR já teve suas atribuições absorvidas pela Agricultura, antes de o governo encaminhar, em 2022, projeto para restabelecer uma estrutura específica. A entidade considera que essa experiência reforça a necessidade de uma secretaria própria.

A Assagra cita dados do Censo Agropecuário do IBGE segundo os quais a agricultura familiar reúne 80,5% dos estabelecimentos e 72,2% das pessoas ocupadas na agropecuária gaúcha. Aponta ainda a queda de 84.199 para 28.946 estabelecimentos produtores de leite entre 2015 e 2025, conforme levantamento da Emater/RS-Ascar, como exemplo dos desafios do campo. “Não basta preservar atribuições no papel: é necessário garantir estrutura, orçamento, equipes técnicas e autonomia para que as políticas públicas cheguem efetivamente a quem mais precisa”, sustenta a nota assinada pelo presidente Paulo Henrique Souza da Silva.

Em esclarecimento, o governo eleito afirma que a integração busca eficiência administrativa, em cumprimento a compromisso de campanha e diante da situação financeira do Estado. Assegura atendimento a todos os segmentos do agro, com respeito às suas particularidades, e informa que Zucco e o futuro secretário Paulo Herrmann deverão se reunir com representantes da agricultura familiar para ouvir demandas e construir prioridades.

Fonte: Jornal do Comércio

Mostrar mais
Botão Voltar ao topo