
Estiagem e calor elevado causarão diminuição da safra gaúcha de soja
Produtores de soja gaúchos deram início, na última semana de fevereiro, à colheita da oleaginosa, de olho no tempo e nos prognósticos para a atual safra. Embora incipiente, alcançando apenas 1%dos 6,8 milhões de hectares estimados pela Emater/RS, o trabalho nas lavouras já permite vislumbrar que as 21,6 milhões de toneladas inicialmente projetadas, com rendimento médio de 3.179 quilos por hectare (63,5 sacas), mais uma vez sofrerão revisão para baixo.
A falta de chuvas ao longo do mês de janeiro e também em boa parte de fevereiro em diversas regiões do Estado vem afetando a produtividade, podendo chegar, em alguns pontos, a 10 sacas por hectare. Conforme a Emater, em grande parte do RS, as precipitações irregulares e as elevadas temperaturas têm causado a morte prematura de folhas, a queda de vagens e a formação heterogênea dos grãos.
Em áreas mais afetadas pela estiagem, como no centro-oeste gaúcho, observa-se a ausência de fechamento das entrelinhas e predomínio de haste única nas plantas, sem ramificações laterais. Já onde as chuvas foram mais expressivas, especialmente na área leste, as lavouras apresentam potencial produtivo satisfatório, mas necessitam de umidade para a completa formação dos grãos.
Um novo levantamento sobre as condições das lavouras está em andamento pelos técnicos da autarquia, e a nova estimativa de safra será divulgada durante a 25ª Expodireto Cotrijal, que ocorrerá de 10 a 14 de março, em Não-Me-Toque.
Já na área de cobertura da Cooperativa Tritícola Caçapavana Ltda. (Cotrisul), com sede em Caçapava do Sul, a projeção é de uma quebra de 30% a 40% no potencial máximo das lavouras, que gira entre 60 sacas e 65 sacas por hectare. São 280 mil hectares semeados com soja por 600 associados em 13 municípios da Região Central, que deverão resultar em uma produtividade média de 35 a 50 sacas por hectare, avalia o gerente do Departamento Técnico da entidade, Fábio Rosso.
Segundo o agrônomo, 10% das lavouras foram semeadas com cultivares de ciclo curto. E, das áreas colhidas, boa parte registrou morte precoce das plantas por conta da falta de chuva e do calor elevado ainda no início de dezembro.
Nos outros 90%, porém, plantados com sementes de ciclo médio e longo, a sinalização é de bom potencial produtivo. Na Granja RT, do produtor Renato Tolfo, na localidade de Seival, a lavoura apresenta aspecto regular, com expectativa 40 a 45 sacas por hectare.
Apesar das dificuldades, essa deve ser uma das melhores colheitas das últimas seis safras, lembra Rosso. A média geral foi de 15 sacas na safra 2019/2020. Na seguinte, chegou a 50 sacas, mas nas duas seguintes houve queda para 26 sacas. E, no ano passado, com efeito das chuvas intensas, 29 sacas.
“A média geral que projetamos agora iguala os custos de produção. O problema é o endividamento dos anos anteriores”, observa o agrônomo.
Gerente de uma das lavouras do Grupo La Trinidad, com 700 hectares da cultura na localidade de Santa Bárbara, em Caçapava, Emerson Wendt está mais otimista para o resultado final da safra a partir das perspectivas de precipitação em março. O mês é considerado, literalmente, um divisor de águas para a performance da soja na região, cujo plantio tradicionalmente ocorre mais tarde e a colheita está prevista para o início de abril.
“Hoje (28/2) choveu 10 milímetros. Se sivermos precipitação também por volta dos dias 10 e 20 de março, com 20 a 30 milímetros, podemos chegar a 45 ou 50 sacas de soja por hectare, acima da nossa média, de 42 sacas. No ano passado, vínhamos bem, mas as chuvas no período de colheita derrubaram a produtividade para 1,8 mil quilos por hectare (36 sacas)”.
Ele projeta que a média possível para este ano ajudaria a dar algum lastro financeiro ao negócio. “Se confirmarmos 45 a 50 sacas, voltamos para o jogo. Temos um passivo baixo, porque nossa lavoura é enxuta. Adotamos um perfil mais conservador, cauteloso, para não aumentar o nível de endividamento e para termos mais tranquilidade”, conta Wendt.
Colheita avança pelo País, que deve obter quase 175 milhões de toneladas

Lavouras gaúchas deverão ficar abaixo da performance nacional, que pode chegar a 175 milhões de toneladas
COTRISUL/DIVULGAÇÃO/JC
Enquanto o Rio Grande do Sul caminha para uma safra inferior ao volume inicialmente projetado, o Brasil avança na colheita da soja, com quase 40% da área colhida e uma perspectiva em torno de 175 milhões de toneladas. Conforme o analista e consultor de soja da Safras & Mercado, Rafael Silveira, o atraso de duas semanas no início da colheita provocou reflexos no mercado de exportação, com a necessidade de reprogramar embarques.
Mas a melhora do tempo nas regiões de Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso, principalmente, já permitiu a retomada do fluxo de exportações.
“Isso deve fazer com que os preços atuais, em torno de R$ 125,00 a R$ 130,00 a saca de 50 quilos, sofram uma queda importante logo mis à frente, pois teremos uma grande oferta tanto no País quanto no mercado mundial. A condição climática na Argentina melhorou, e aa projeção é de uma safra regular, de 48 milhões de toneladas”, pontua Silveira.
A oferta sul-americana, acrescenta, será muito maior que a do ano passado. E os estoques globais terão 25 milhões a 30 milhões de toneladas a mais na comparação com o ano passado.
Internamente, as indústrias estão pagando acima da paridade do preço de exportação. Mas comprando em pequenos lotes, pois sabem que em breve a quantidade de produto disponível no mercado será grande, derrubando os prêmios e as cotações tanto para o mercado nacional quanto para exportação.
“Os preços físicos se mantêm firmes, ainda por conta dos atrasos nos embarques previstos para o início de fevereiro. E quem precisa de matéria-prima acaba pagando prêmios melhores. Mas agora já estamos com fluxo de exportação. Esse cenário de preços vai mudar”, conclui o analista da Safras.
Fonte: Jornal do Comércio