
Área semeada com trigo pode cair abaixo de 1,3 milhão de hectares no RS
Com um cenário pouco animador no horizonte para a próxima safra de inverno, produtores de trigo gaúchos podem reduzir em até 13% a área plantada em relação aos 1,5 milhão de hectares semeados no ano passado. Se confirmado, o plantio pode ocupar 1,3 milhão de hectares, ou menos, no RS.
Isso porque a alíquota estabelecida para financiamentos com Proagro passou de 12% para 23% pelo novo Plano Safra. E a contratação de seguro agrícola, com produtividade garantida de 30 sacas por hectare, gira em torno de R$ 580,00 por hectare.
“Se eu financio R$ 100 mil com Proagro, fico devendo os juros da operação mais R$ 23 mil de Proagro, que é a alíquota ou o valor desse mitigador de risco. O somatório de todos os encargos para segurar a produção está inviabilizando as operações. Diante disso, e com o produtor descapitalizado diante de sucessivas safras de inverno e verão frustradas, pode levar a um enxugamento ainda maior na área plantada”, disse nesta terça-feira (25) o presidente da Câmara Setorial da Cadeia Produtiva de Culturas de Inverno do Ministério da Agricultura e coordenador da Comissão de Trigo e Culturas de Inverno da Federação da Agricultura do RS (Farsul), Hamilton Jardim.
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projetou em fevereiro que a produtividade média das lavouras de trigo no Rio Grande do Sul em 2025 deva ficar em 2.923 quilos por hectare, ou 48,7 sacas, mesmo resultado alcançado no ano passado. Com custos elevados e margens de lucro muito pequenas para o produtor, o dirigente não esconde a apreensão quanto ao futuro da cultura do trigo.
A avaliação foi feita durante a coletiva online de apresentação dos resultados do 17º Estudo de Cultivares em Rede (ECR) de Trigo, conduzido na safra passada pela Fundação Pró-Sementes, com apoio do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/RS) e da Bayer. E fez acender o sinal de alerta para o risco de comprometimento no desenvolvimento da principal cultura de inverno e fonte de renda nesse período do ano. De acordo com o superintendente do Senar/RS, Eduardo Condorelli, o trigo é o lastro de produção agrícola no inverno e representa emprego e renda.
Na safra 2024 da cultura, foram avaliadas no ECR 30 variedades de sementes, de sete marcas comerciais, em lavouras de seis municípios: São Gabriel, Passo Fundo, Vacaria, nas zonas mais frias, Inhacorá, São Luiz Gonzaga e Cachoeira do Sul, nas áreas mais quentes, com características geográficas, temperatura e altitude variadas. A semeadura aconteceu mais tarde em relação ao período tradicional, devido às dificuldades adicionais impostas pelas chuvas intensas que atingiram o RS, que ocasionaram inclusive problemas de logística.
“As chuvas de maio e junho, com escassez hídrica em algumas regiões na fase de perfilhamento das plantas, assim como temperaturas mais elevadas que o normal, contribuíram para a diminuição da produtividade”, explicou a gerente de Pesquisa da Fundação Pró-Sementes, Kassiana Kehl.
Entre todas, a campeã de produtividade foi a semente TBIO Motriz, de ciclo médio e tardio, com rendimento de 157 sacas de 60 quilos por hectare, em Vacaria. Entre as variedades de ciclo precoce, a BRS Reponte apareceu como melhor performance, também em Vacaria, com 139 sacas por hectare.
Nas áreas mais quentes do estudo, o melhor resultado foi alcançado em Cachoeira do Sul, com sementes BS Etanol 8, que renderam 111 sacas do cereal por hectare. Já no grupo de sementes de ciclo médio e tardio testadas nas regiões de temperaturas mais altas, a BIO182455 proporcionou 106 sacas por hectare em Inhacorá. O resultado foi levemente superior ao alcançado pelas sementes ORS Guardião em Cachoeira do Sul, com 105 sacas.
A recomendação, observa Kassiane, é que na hora de planejar a lavoura o produtor prefira sementes posicionadas entre as cinco melhores no ranking do ECR, para ter mais segurança no resultado.
Um ponto que deverá seguir recebendo atenção especial é a segregação da produção, conforme a aptidão industrial das sementes, seja para exportação e fabricação de pães, biscoitos, massas, como já vem sendo feito, mas também em relação ao trigo para produção de etanol. Ao contrário das primeiras, cujo foco é a proteína, para alimentação humana e animal, na forma de ração, variedades destinadas à produção de etanol visam maior teor de amido, para obtenção de álcool.
“Misturar tudo seria prejudicial para todos os segmentos da cadeia produtiva”, completou Hamilton Jardim.
Fonte: Jornal do Comércio