
A Nacionalidade de Carlos Gardel pela teoria francesa
Por: Fábio Verardi
Gardel, sempre foi o maior promotor dos seus próprios mistérios, e, talvez seu enigma mais indecifrável seja a sua nacionalidade, afinal, onde nasceu Carlos Gardel?
A teoria francesa afirma que Carlitos teria nascido em Toulouse, na França, no dia 11 de dezembro de 1890 e chegado a Buenos Aires com dois anos e meio de idade nos braços da mãe, Marie Berthe Gardès. O livro “Gardel: La Biografia”, dos autores Julián e Osvaldo Barsky, discorre por suas mais de mil páginas que Berthe Gardés era uma jovem de 14 anos de idade, que engravidou de um contraventor chamado Paul Lassere, e, pela desonra ao nome da família e a natural exclusão da sociedade, teve que migrar para a América do Sul, por ser sua única oportunidade de criar um filho sem pai. O mesmo livro ainda traz uma segunda hipótese de que um jovem militar poderia ser o pai de Gardel, pois, em frente à casa dos Gardès em Toulouse havia um destacamento do exército.
Chegando a Buenos Aires, Berthe Gardès começou a trabalhar como passadoura de roupas, criando o filho da maneira que podia, sendo que Gardel acostumou-se a brincar pelas ruas do Bairro de Abasto. A biografia gardeliana de Julián e Barsky teve o cuidado de trazer todos os documentos escolares de Charles Gardès, com frequências em sala de aula e notas das provas. O livro exibe diversos testemunhos de vizinhos que afirmaram terem conhecido o francesinho de corria pelas ruas, também, colegas de teatro confirmam que Charles Gardès é o mesmo Carlos Gardel. Talvez o início da suposta dúvida sobre seu nascimento se dera pela mudança de seu nome. É importante lembrar que, naquela Buenos Aires, era muito comum as atrizes e os cantores usarem nomes artísticos e depois incorporá-los como seus nomes definitivos. Segundo os estudos em “Gardel: La Biografia” e “Caso Gardel”, não há nenhuma dúvida que Charles Gardès e Carlos Gardel sejam a mesma pessoa. Acontece que os fortes rumores e testemunhos da possível nacionalidade uruguaia de Gardel criaram uma grande celeuma literária que atravessa as décadas num interminável debate.
O livro “Carlos Gardel – sus antecedentes franceses”, de Juan Carlos Esteban, Monique Ruffié e Georges Galopa, foi um trabalho realizado com rigor histórico, cuidadosa metodologia e uma precisa documentação, o que colaborou ainda mais elucidar as dúvidas e para classificar o acervo biográfico e bibliográfico de Gardel. São documentos oficiais orientados com data e hora, que constituem provas de origem irrefutáveis para o que se propõe mostrar que Gardel nasceu na França. Os simples, frios e desapaixonados documentos falam que Charles Romuald Gardès, nasceu no hospital La Grave, em Toulouse, no dia 11/12/1890, mas, a dúvida sobre sua origem francesa se agravou em 2013 com a descoberta de uma cédula de identidade datada de 1920, onde Carlos Gardel apareceria como uruguaio. Sobre o documento, afirmou Hamlet Peluso, um dos maiores estudiosos da vida de Gardel – que se trataria de uma confecção duvidosa, que a classificou de fantástica e artística, do qual não se saberia bem seu propósito. Sergio Peluso, um dos herdeiros do extraordinário acervo gardeliano de Hamlet Peluso, afirma que a verdadeira cédula de nascimento de Gardel, se difere do tal documento uruguaio, considerando este apócrifo. Inclusive a família Peluso, que possui uma incrível coleção de tudo que se refere a Gardel, publicou a seguinte nota do diário “El País”:
“Comunicado de Sergio Peluso. Pela presente desejamos constar que no dia 3 de abril de 2014, estivemos no Diário El País – Montevideú/Uruguai, onde nos recebeu o Sr. José Luis Aguiar, chefe de redação e aclaramos o tema sobre o documento apócrifo exposto no Museu Carlos Gardel em Tacuarembó, onde se aclara que é uma falsificação da coleção de Hamlet Peluso, gerada por Industrias Culturales Argentinas.”
Para Peluso, não há nenhuma dúvida de que o documento se trata de uma montagem impressa em papel antigo, pois a foto utilizada é a mesma de um dos documentos originais de Gardel, porém, envelhecida artificialmente e misturado a outras fotos antigas. Por sua vez, Walter Santoro, presidente de La Fundación de Industrias Culturales Argentinas, se pronunciou “é uma réplica obtida a partir de diversas fotografias que foram comercializadas através da internet. As fotografias do documento foram inseridas por um programa de computador, através de um critério artístico com a semelhança com os documentos daquela época”. O fato que causa mais estranheza, é esse suposto documento aparecer somente agora. Mas, a verdade irrefutável é que em 1923, Gardel se naturalizou argentino, passando a utilizar os documentos de identidade e passaporte, porém, os historiadores que defendem sua origem uruguaia afirmam que houve um acordo com o então presidente Marcelo Alvear para sumir com os documentos do passado de Carlitos. Nessa teoria, “el pibe Gardel”, como seria conhecido, tivera um histórico de menor infrator em Buenos Aires, aplicando pequenos estelionatos, a partir do “conto do tio”, onde implorava por dinheiro para poder viajar e receber uma herança do seu único tio, assim, conseguia dinheiro para uma falsa viagem, hospedagem e até mesmo para pagar o advogado, em troca de uma parte de uma herança inexistente. Carlitos teria sido detido em várias oportunidades, o que reforça a teoria de que seu passado precisava ser apagado.
Falar da nacionalidade de Gardel, nos obriga a invocar a figura de Carlos Escayola Medina, mas, esse denso assunto, que pertence à teoria uruguaia, será trabalhado em outra coluna, com a devida pesquisa e o tempo que esse assunto merece.
Mas afinal, o que o próprio Gardel disse sobre sua nacionalidade? Em 1933, aconselhado por seu empresário Armando Defino, Gardel firma seu testamento oficial escrito por próprio punho perante a autoridade cartorária de Buenos Aires, referindo:
“Este é o meu testamento. Nesta cidade de Buenos Aires, no dia 7 de novembro de 1933, encontrando-me em pleno gozo de minhas faculdades intelectuais, outorgo este testamento holográfico, dispondo de meus bens depois do meu falecimento da seguinte forma: Primeiro – sou nascido em Toulouse, no dia 11 de dezembro de 1890 e sou filho de Berthe Gardès. Segundo – faço constar expressamente que meus verdadeiros nomes e sobrenomes são Carlos Romualdo Gardès, mas, por motivo da minha profissão de artista, o adaptei e uso sempre o sobrenome Gardel e com este sobrenome sou conhecido em todas as partes (…)”.
O testamento segue com Gardel elegendo sua mãe, Berthe Gardès como sua única e universal herdeira. São polêmicas que atravessam as décadas, formados por enigmas de Carlos Gardel, o maior promotor dos seus próprios mistérios.

