Pequenos produtores precisam aplicar ciência à produção de alimentos

O futuro da sociedade está cada vez mais associado ao desenvolvimento de novas tecnologias, mas o que não muda em termos de demanda ou necessidade é a questão alimentar. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), a população mundial, em 2050, chegará a 9 bilhões de pessoas. Um aumento de 2 bilhões de seres humanos para alimentar, tratando-se do agronegócio. A dúvida que fica é como o setor atenderá a esse desafio?

“No Brasil, em geral, a produção de alimentos deriva da agricultura familiar, tendo em vista que os grãos produzidos em escala, por exemplo, são exportados e não chegam diretamente à mesa. Sabe-se que a produção de alimentos envolve uma série de desafios, considerando os recursos naturais, as mudanças climáticas e o meio ambiente, sem contar a pauta da fome x problemas de saúde como obesidade. Tais fatores exigem que se coloque cada vez mais ciência na mesa”, observou a diretora de Gestão da Inovação da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia, Ana Paula Matei. Doutora em Desenvolvimento Rural, a especialista mediou o painel sobre Inovação no Setor Agroalimentar, realizado na 42ª Expointer.

Ana Paula falou sobre o tema ao lado da coordenadora do Programa Estadual de Agroindústria Familiar da Emater, Bruna Bresolin Roldan, da coordenadora do Instituto Tecnológico em Alimentos para a Saúde ITT Nutri For, Renata Ramos, da diretora do Centro de Estudos e Pesquisas em Administração da UFRGS, Márcia Barcellos, da engenheira agrônoma e doutora em Administração Gabriela Ferreira e da vice-diretora do Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios (Cepan) da Ufrgs, Kelly Bruch.

Gabriela foi a primeira a falar e chamou a atenção sobre novas tendências na área dos alimentos, destacando que já há recursos disponíveis para aprimorar o processo de produção. “Além de um aumento da população, precisamos considerar que existe um novo perfil de consumidor. Pessoas que exigem saber a procedência dos alimentos, os impactos gerados no ambiente para sua produção”, disse. Questões como essa, segundo a especialista, alteram a oferta e abrem um grande espaço para desenvolver inovações, que vão desde o plantio à transformação da matéria-prima. Gabriela destacou ainda que a tecnologia é imperativa para diminuir a marca dos 30% de alimentos desperdiçados no mundo.

Para Márcia, os brasileiros precisam começar a consumir de forma consciente, e os produtores, avaliar a sustentabilidade na hora de produzir e vender. Além disso, a incorporação de inovação no setor agroalimentar exige investimentos, conectividade no campo e apoio do Estado para que os agricultores possam inovar. “O governo precisa disponibilizar linhas de crédito para que os pequenos produtores possam levar ciência à mesa. Afinal, que produtos os consumidores irão exigir daqui a 20 anos? Quem serão esses agricultores? Essas mudanças culturais exigem políticas públicas para que se possa evoluir, acompanhando o modelo da nova economia”, ponderou.

Conexões
A vice-diretora do Cepan da Ufrgs, Kelly Bruch, colocou em pauta a origem dos produtos e a valorização dos saberes conectados com a cultura local. Para que essa conexão ocorra, há mecanismos que podem apoiar, considerando as estratégias de desenvolvimento com o olhar da propriedade intelectual, como no caso das indicações geográficas, algumas já reconhecidas no Rio Grande do Sul, como Vale dos Vinhedos e doces de Pelotas. No entanto, estas estratégias precisam de planejamento, pois às vezes podem não ser reconhecidas pelo mercado. “A indicação geográfica da carne do Pampa não é reconhecida pelo consumidor, logo foi preciso criar uma marca coletiva para caracterizar o produto e torná-lo reconhecido no mercado”, alertou.

Renata Ramos, da Nutri For, complementou lembrando da necessidade de as empresas terem as inovações no mercado em curto espaço de tempo. “A pesquisa precisa ser mais aplicada. Deve-se também considerar todo o desenvolvimento da cadeia produtiva, o potencial do uso de tecnologias como as novas fontes proteicas e o impacto que isso pode ter na estrutura produtiva e na saúde”, disse.

Bruna Roldan, da Emater, completou: “A colaboração e as conexões entre produtores, as instituições de pesquisa, desenvolvimento e inovação, bem como com as empresas e os consumidores, são imprescindíveis para a evolução da área. Para alimentar 9 bilhões de pessoas, precisamos todos caminhar juntos”.
Fonte: Expointer 2019 

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